O portal Esquerda Online, ligado ao grupo Resistência, uma das correntes do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), publicou recentemente um artigo intitulado A Groenlândia no tabuleiro do imperialismo estadunidense. À primeira vista, o texto parece uma denúncia contra a política agressiva do governo norte-americano e suas pretensões de anexar a ilha ártica. No entanto, uma análise séria revela que o texto é um exemplo acabado de como a esquerda pequeno-burguesa atua como linha auxiliar do imperialismo europeu sob o disfarce de combate ao trumpismo.
O texto gasta parágrafos e mais parágrafos detalhando a truculência do governo norte-americano, citando o grupo de trabalho em Washington e as ameaças militares de Donald Trump. O que convenientemente o Esquerda Online “esquece” de mencionar é que a Groenlândia já vive sob uma bota imperialista: a da Dinamarca.
Ao pintar os Estados Unidos como o único lobo mau da história, o artigo acaba tratando a monarquia dinamarquesa quase como uma espectadora passiva ou, no limite, uma vítima da pressão do imperialismo norte-americano. O texto chega a dizer que os políticos groenlandeses lutam para ter “um lugar à mesa”. Ora, que mesa? A mesa dos seus próprios colonizadores!
A Dinamarca é um país imperialista, membro da OTAN, que mantém a Groenlândia sob um regime colonial moderno desde o século XVIII. O artigo menciona que o autogoverno de 2009 dá direitos sobre o subsolo, mas admite que a política externa e de segurança é decidida pelo país europeu. O que o texto falha em concluir — por cegueira política ou má-fé — é que a Groenlândia é uma colônia europeia.
A política expressa no texto é a de escolher um imperialismo contra o outro. Ao focar exclusivamente na agressividade de Trump, a esquerda pequeno-burguesa sugere, implicitamente, que o status quo — a permanência da Groenlândia sob o Reino da Dinamarca — seria um cenário preferível.
Para o povo groenlandês, a diferença entre ser uma “moeda de troca” nas mãos da Dinamarca ou uma estrela na bandeira dos Estados Unidos é a diferença entre a forca e o fuzilamento. Ao não denunciar com o mesmo vigor a ocupação dinamarquesa e a presença da OTAN, o Esquerda Online faz propaganda em defesa do imperialismo europeu.
O artigo menciona que a Groenlândia é “território da OTAN”. Mas onde está a exigência de retirada imediata de todas as tropas estrangeiras? Onde está o chamado para o fim da aliança militar que utiliza o território como base de agressão contra a Rússia e a China?
A única posição verdadeiramente revolucionária e anti-imperialista é a defesa da independência total e imediata da Groenlândia. Não se trata de negociar um “lugar à mesa”. Trata-se de romper os laços coloniais com a monarquia dinamarquesa e expulsar as bases militares norte-americanas.
No fim das contas, trata-se de mais um episódio da campanha “antitrumpista” que favorece apenas o imperialismo. Ao indicar ser favorável a um dos setores do imperialismo no conflito, a esquerda pequeno-burguesa está defendendo a OTAN e a ocupação de um país. É a mesma posição vergonhosa da esquerda pequeno-burguesa que, na Primeira Guerra Mundial, defendeu a burguesia imperialista de seu próprio país, e não os interesses do proletariado mundial.





