Oriente Médio

Governo sírio e forças curdas firmam acordo de cessar-fogo

A ofensiva do governo sírio ganhou tração na sexta-feira (16), quando unidades do exército sírio iniciaram movimentos a leste de Alepo

O governo da Síria, liderado por antigos combatentes da Al-Qaeda, firmou um acordo com as Forças Democráticas Sírias (SDF), amenizando uma crise que vinha evoluindo para uma grande guerra civil entre curdos e o governo. Com o acordo, as forças do Ministério da Defesa sírio assumiram a gestão dos principais campos de petróleo e gás do país, localizados na margem leste do Rio Eufrates, que estavam sob administração dos curdos havia quase dez anos. O movimento foi oficializado por um acordo de cessar-fogo nacional anunciado neste domingo (18), que estabelece ainda a integração das milícias curdas ao exército estatal.

A ofensiva do governo sírio ganhou tração na sexta-feira (16), quando unidades do exército sírio iniciaram movimentos a leste de Alepo. As forças estatais entraram na cidade de Deir Hafer e Maksana, após a retirada das unidades da SDF que se deslocaram para o lado oriental do Eufrates. No sábado (17), a operação avançou para a província de Raqqa. O Comando de Operações do Exército Sírio confirmou a captura total do Aeroporto Militar de al-Tabqa e da estratégica Barragem do Eufrates.

Durante a movimentação, o governo sírio estabeleceu controle sobre o cruzamento de al-Rusafa, um entroncamento de transporte vital na região. Relatos de campo confirmaram a entrada de tanques e blindados sírios em cidades anteriormente controladas por curdos, como Hneida, Mansoura e Zur Shamar. Em resposta ao avanço, a Administração Autônoma liderada pelos curdos chegou a declarar mobilização geral, citando uma “fase crucial” e ordenando que jovens se armassem para proteger a região de Jazira e Kobani, mas o comando central das SDF recuou, alegando querer evitar um conflito de larga escala.

Com o acordo, a Companhia de Petróleo Síria (SPC) emitiu um comunicado técnico confirmando a posse dos seguintes ativos:

  • Campo Al-Omar: o maior campo de petróleo da Síria, localizado na província de Deir Ezzor.
  • Campo Conoco: a infraestrutura de gás mais importante do país
  • Campos de Apoio: Al-Tanak, Al-Jafra, Al-Izba, além dos campos de Safyan e Al-Tharwa, próximos a Tabqa.

A perda desses ativos representa um impacto financeiro massivo para a administração curda. As reservas sob controle da SDF eram estimadas em 2,5 bilhões de barris de petróleo e 240 bilhões de metros cúbicos de gás. Com a retomada, o governo sírio passa a gerir as receitas que anteriormente financiavam a atividade curda e seu esforço de guerra.

O acordo de 14 pontos, assinado entre o presidente sírio Ahmed al-Sharaa e o comandante das SDF, Mazloum Abdi, com o apoio do enviado especial dos Estados Unidos, Tom Barrack, define as regras para a nova estrutura do país. Os pontos principais incluem:

  • Cessar-fogo nacional: interrupção imediata de todas as operações ofensivas em todas as frentes de contato.
  • Unificação militar: o pessoal militar e de segurança da SDF será integrado aos Ministérios da Defesa e do Interior da Síria, passando por um processo de triagem técnica.
  • Controle de fronteiras: a passagem de fronteiras e alfândegas passa para a jurisdição exclusiva da Síria.
  • Gestão prisional: o governo sírio assume a responsabilidade pelas prisões e campos de detenção que abrigam milhares de combatentes estrangeiros e suas famílias.
  • Reconhecimento étnico: o governo emitiu um decreto formalizando o idioma curdo como língua nacional e o feriado de Nowruz como data oficial no calendário do Estado.

A operação encerra uma crise inciada em 2011, devolvendo ao governo central o controle sobre aproximadamente um quarto do território nacional e a quase totalidade de sua produção de commodities.

Leia na íntegra o Acordo de Cessar-Fogo e Integração Total

1: Um cessar-fogo abrangente e imediato em todas as frentes e pontos de contato entre as forças do governo sírio e as Forças Democráticas Sírias (SDF), em paralelo com a retirada de todas as formações militares das SDF para a área a leste do Eufrates como um passo preliminar para a redistribuição.

2: A entrega administrativa e militar imediata e completa das províncias de Deir ez-Zor e Raqqa ao governo sírio. Isso inclui a entrega de todas as instituições e instalações civis, com a emissão imediata de decretos para confirmar o emprego do pessoal atual dentro dos ministérios relevantes do Estado sírio. O governo compromete-se a não atingir funcionários e combatentes das SDF, ou a administração civil nas duas províncias.

3: A integração de todas as instituições civis na província de Hasakah nas instituições e estruturas administrativas do Estado sírio.

4: A assunção, pelo governo sírio, de todas as passagens de fronteira e campos de petróleo e gás na região, e sua proteção por forças regulares para garantir o retorno dos recursos ao Estado sírio.

5: Integração de todos os elementos militares e de segurança das SDF nas estruturas dos Ministérios da Defesa e do Interior da Síria em uma base individual, após a realização da triagem de segurança necessária, concedendo-lhes patentes militares e os correspondentes direitos financeiros e logísticos, protegendo a autonomia das regiões curdas.

6: A liderança das SDF compromete-se a não incorporar remanescentes do regime anterior em suas fileiras e a enviar listas de oficiais do antigo regime presentes nas áreas do nordeste da Síria.

7: Emissão de um decreto presidencial nomeando um candidato para o cargo de governador de Hasakah, como garantia de participação política e representação local.

8: Remoção da pesada presença militar da cidade de Ain al-Arab/Kobani, formando uma força de segurança composta por residentes da cidade e mantendo uma força policial local administrativamente subordinada ao Ministério do Interior da Síria.

9: Integração da administração responsável pelo dossiê de prisioneiros e campos do ISIS, além das forças responsáveis pela proteção dessas instalações, com o governo sírio, de modo que o governo assuma total responsabilidade legal e de segurança sobre eles.

10: Adoção da lista de líderes indicados submetida pela liderança das SDF para preencher cargos militares, de segurança e civis seniores na estrutura central do Estado para garantir a parceria nacional.

11: Saudação ao Decreto Presidencial nº 13 de 2026, que estipula o reconhecimento dos direitos culturais e linguísticos curdos, e aborda as questões legais e civis de pessoas não registradas e a restauração de direitos de propriedade acumulados de décadas anteriores.

12: As SDF comprometem-se a expulsar todos os líderes e membros não-sírios do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) das fronteiras da República Árabe Síria para garantir a soberania e a estabilidade da região.

13: O Estado sírio compromete-se a continuar a luta contra o terrorismo (ISIS) como membro ativo da coalizão internacional, em coordenação conjunta com os Estados Unidos a este respeito, para garantir a segurança e a estabilidade da região.

14: Trabalhar para alcançar entendimentos relativos ao retorno seguro e digno dos residentes das áreas de Afrin e Sheikh Maqsoud às suas casas.

Presidente da República Árabe Síria Ahmed al-Sharaa
Comandante das Forças Democráticas Sírias Mazloum Abdi

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