O setor de imprensa do Serviço de Inteligência Estrangeira (SVR, sigla em inglês) da Rússia alegou, nesta segunda-feira (2), que a França está organizando “golpes neocoloniais” contra governos considerados “indesejáveis”.
Esses golpes de Estado estariam sendo articulados, em especial, contra os governos do Sahel africano, uma vez que os franceses sofreram uma série de derrotas recentes na região. Mali, Burkina Faso e Níger vivenciaram a ascensão de governos militares nacionalistas que romperam relações com a França e encerraram a presença de contingentes e bases militares da antiga metrópole.
Os países africanos acusam os franceses de apoiar grupos armados, utilizando jihadistas como instrumento de insurgência no Sahel. A França, por sua vez, afirma não reconhecer a legitimidade desses governos militares nacionalistas e destacou que pretende dar continuidade aos esforços para restaurar os governos civis derrubados.
A SVR também salientou que o presidente da França, Emmanuel Macron, autorizou os serviços de segurança e espionagem a levar adiante um plano de assassinato seletivo de lideranças consideradas “indesejáveis” nos países africanos. Um exemplo citado foi a tentativa fracassada de golpe de Estado em Burkina Faso, em 3 de janeiro deste ano, cujo objetivo declarado era assassinar o presidente interino Ibrahim Traoré e promover uma mudança no regime político burquinense.
No Mali, foram feitas tentativas de desestabilização por meio de ataques a comboios de transporte de combustíveis e bloqueios de cidades. A República Centro-Africana também foi alvo de ações semelhantes. Os Estados do Sahel acusam os franceses de fornecer apoio direto a grupos terroristas em coordenação com a Ucrânia, que teria atuado no fornecimento de drones e treinamento com instrutores especializados.
A ilha de Madagascar foi descrita pelo relatório da SVR como alvo de tentativas de golpe, que visariam à derrubada do presidente interino Michael Randrianirina. O presidente transicional do Níger, general Abdourahamane Tchiani, denunciou que os franceses e países vizinhos estavam por trás do ataque perpetrado por mercenários ao aeroporto internacional da capital, Niamey.
Em geral, os franceses negam qualquer envolvimento com grupos jihadistas no Sahel africano. Em relação às últimas alegações da agência de inteligência russa, sequer houve resposta.
As denúncias dos países africanos sobre as sistemáticas tentativas de ingerência da antiga metrópole colonial em seus assuntos internos evidenciam apenas um aspecto da ofensiva imperialista contra os povos oprimidos. A expulsão do Afeganistão (2021), a Operação Militar Especial da Rússia na Ucrânia (2022), a Operação Dilúvio de Al-Aqsa (2023), desencadeada pela resistência armada palestina, e os golpes de Estado nacionalistas no continente africano (2020-2023) alertaram o imperialismo de que uma contraofensiva seria necessária para reverter a situação. Esse processo contrarrevolucionário está em pleno andamento.
A conjuntura mundial comprova que o imperialismo atua de forma coordenada, isto é, como um bloco político. Os Estados Unidos, país mais forte econômica e militarmente, são o coração do imperialismo e lideram o bloco. Contudo, França, Inglaterra, Alemanha, Itália, Espanha, Holanda, e o conjunto da União Europeia, também atuam para manter o domínio sobre os mercados e recursos naturais dos países atrasados da Ásia, África e América Latina.
A guerra na Ucrânia demonstra, na prática, como funciona o imperialismo. Os países europeus e os Estados Unidos, cada um na medida de suas forças, atuam como um consórcio para suprir os ucranianos com equipamentos militares, sistemas de mísseis, inteligência, e todos os tipos de armamentos necessários para travar a guerra contra a Rússia. É essa atuação coletiva que garante a continuidade do conflito.
A compreensão de que o imperialismo atua em associação desacredita a ideia comum na esquerda pequeno-burguesa de que o governo de Donald Trump seria o único e exclusivo responsável pelo imperialismo e por todas as tensões atuais. Essa esquerda costuma levar muito a sério as bravatas e ameaças de Trump, que raramente se concretizam. A partir dessa visão equivocada, associa-se diretamente o atual presidente dos Estados Unidos ao imperialismo, sem realizar as devidas diferenciações.
O “antitrumpismo” manifestado por setores da esquerda acaba por se alinhar ao Partido Democrata, isto é, ao imperialismo em sua face “democrática”, ainda mais venenoso e perigoso do que o imperialismo com retórica agressiva. Como demonstram as tentativas de golpes de Estado no Sahel africano, o “democrático” e “republicano” Emmanuel Macron atua para assassinar lideranças nacionalistas em cooperação com a “democrática” Ucrânia de Zelenski.





