Polêmica

Fleury usa saia

A violência contra a mulher não vai acabar sem a unidade dos trabalhadores, homens e mulheres, por melhores condições de vida para as mulheres

Na dúvida, a esquerda pequeno burguesa vai pelo caminho da repressão, e este é mais um dos libelos de Mily Lacombe, a jornalista que se complicou em um programa esportivo, ao vivo, ao fazer falsas acusações contra Rogério Ceni. O que também é crime, por sinal.

Segundo ela, é lastimável o fato de que o “o ex-goleiro Bruno, condenado a 23 anos de prisão pelo assassinato de Eliza Samudio (homicídio qualificado, sequestro, cárcere privado e lesão corporal)” esteja “em liberdade condicional dando entrevistas por aí”. 

Aqui, como em tantas outras matérias da esquerda pequeno-burguesa, é fácil notar a histeria repressiva. O tom da matéria é o tom “bandido bom é bandido morto”. Ou seja, o tom dos chamados fascistas que essa mesma esquerda afirma combater. 

Lacombe diz que “o filho que ele teve com Samudio diz que Bruno deve quatro anos de pensão alimentícia, mas quem se importa? Vamos abrir o microfone para que Brunão fale sem ser interrompido ou criticado. Fala, meu filho. Se explica, se justifica, paga de vítima, conta sua versão”.

Não parece a mesma jornalista que teve que se explicar, justificar, pagar de vítima e contar a versão dela sobre o caso do goleiro Ceni. Lacombe, inclusive, respondeu a um processo movido pelo ídolo tricolor por conta das afirmações mentirosas. Mas, no dos outros é refresco.

Se o repórter a procurou para ela ser entrevistada e pode falar e escrever até hoje, qual o problema de um repórter procurar Bruno e entrevistá-lo hoje? Por qual motivo os benefícios do transcurso de tempo após um crime só poderiam beneficiar Lacombe e não Bruno. Não seria racismo?

Lacombe se revolta com a legislação de 1940, e diz que “a lei autoriza que assim seja. Sai em condicional e paga de injustiçado. Tudo certinho”. O que ela queria, exatamente? Prisão perpétua? Pena de morte? Forca? O que a moderninha Lacombe quer, exatamente? 

Ela diz: “Não existe a obrigatoriedade de calar e de trabalhar socialmente. Mas deveria existir”. Ou seja, ela defende pena de caráter perpétuo para Bruno, o que é proibido pela Constituição Federal. Por ela, Bruno nunca mais trabalharia e nunca mais poderia falar (!). 

Se esse fosse o objetivo das penas brasileiras (o que já é meio assim), seria uma ditadura típica da inquisição. Lacombe quer o fim das poucas garantias e direitos que sobraram na execução penal. Ela é o Carandiru ambulante, o Fleury de saia.

Ela julga estar certa e capaz de “ensinar” Bruno o que é violência de gênero. Claro, porque a violência do Estado ele já está aprendendo: “Bruno deveria usar seu tempo longe de uma cela, especialmente se saiu antes de cumprir a totalidade da pena, para trabalhar socialmente de forma a tomar consciência do que é a violência de gênero”. 

A violência não é um problema de consciência, mas de realidade social, do sistema capitalista. Ninguém é ou deixa de ser violento por “consciência”. No geral, vale a força e, nesse caso, ninguém fala que as mulheres deveriam se armar, que os trabalhadores, todos, deveriam ter direito de portar armas. Certamente isso iria reduzir a violência de conjunto.

Lacombe acha que Bruno está na primeira série e diz, ela, do alto de seu conhecimento fajuto de feminismo que “tivesse sido obrigado a se educar não estaria por aí falando asneiras, sendo paparicado, sendo celebrado”. Se todo mundo fosse obrigado a se educar a tendência seria aumentar ainda mais a violência. Obrigar alguém a fazer algo não gera paz, gera revolta.

Ela, que não representa mais que a si mesma diz que se Bruno fosse obrigado a passar por essa educação sobre violência de gênero (que ninguém sabe exatamente o que é) “de sua boca sairia alguma coisa que prestasse e que pudesse ajudar a evitar que outros como ele assassinem as mães de seus filhos”.

O problema é o peso social da mulher e as obrigações que o sistema lhe impõe. Não por acaso Samúdio era atriz-pornô, o rodapé social da vida de uma mulher, por mais que possa ganhar bem. Se a mulher não tiver peso e valor social considerável, a violência contra ela será maior. O mesmo vale para o negro. 

Lacombe, fazendo as vias de Xandão, diz que “uma lei que apenas pune é uma lei falha. Não vamos mudar nada prendendo um machista misógino por vez. É preciso educar, conscientizar, letrar. Bruno é o retrato de um país que celebra seus machistas e que, cedo ou tarde, acha jeito para que eles justifiquem seus crimes”.

Aqui ela apela para generalidades que mais causam mais revolta que esclarecem. Bruno não é o retrato do país e nem de todos os homens. Essa afirmação é claro chamado à guerra, é colocar homens contra mulheres. A violência contra a mulher não vai acabar dessa forma, sem a unidade dos trabalhadores, homens e mulheres, por melhores condições de vida para as mulheres, como creches públicas, pleno emprego, salário igual para função igual, direito ao aborto, etc.

A política de Lacombe é o oposto, na verdade, é “machista”. Ela defende mais repressão para homens, educação forçada, censura e penas de caráter perpétuo. Nesse projeto político, na realidade, a mulher é apenas um ser passivo, devota da repressão oficial, sem qualquer papel real no fim de sua própria violência.

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