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Filha de Ric Jones relata conversa com pai: sonha com a volta para casa

Ao Diário Causa Operária (DCO), Bebel Jones falou sobre como tem sido a vida de Ric na prisão

O Diário Causa Operária conversou com Bebel Jones, filha de Ric Jones, sobre as condições que ele enfrenta na prisão. Médico obstetra e colunista deste Diário, Ricardo Herbert Jones foi preso como resultado de uma condenação judicial. Referência na defesa do parto humanizado, com mais de 2.000 partos acompanhados, Jones, que completou, no dia 10 de janeiro, 200 dias na cadeia, é alvo de uma campanha de perseguição que se intensificou nos últimos anos, culminando em sua condenação e prisão arbitrárias.

“Na minha última conversa com meu pai, ele começou perguntando de todos nós (…) Contou que lá dentro as coisas estavam relativamente tranquilas naquele momento e que ele tem se dedicado bastante ao trabalho: organiza arquivos, roupas e documentos dos presos, ajuda nas tarefas da galeria e engole alguns sapos — algo inevitável naquele ambiente”, disse Bebel.

Ela explicou a este Diário que é proibida de trazer cartas de Ric para fora da prisão e, por isso, precisa relatar o diálogo que teve com o pai. Destacando a crueldade da situação em que se encontra, disse que ele “não pode ver netos, nem genro… uma mulher envolvida na causa da humanização do nascimento disse que já visitou presos em casos semelhantes ao do meu pai em diversos países do mundo”, ressaltando que “aqui foi o único lugar que foi proibida” de o encontrar.

O caso, que se arrasta há anos, diz respeito a um parto domiciliar no qual o bebê veio a falecer 24 horas depois, já no hospital, por conta de uma pneumonia congênita. O recém-nascido recebeu óxido nítrico, um gás medicinal crucial para seu quadro de hipertensão pulmonar, que estava vencido havia mais de 30 dias. A própria equipe registrou em prontuário que a “célula de óxido nítrico estava vencida” e que, por essa falha, não era possível monitorar adequadamente os parâmetros do bebê. Mesmo ciente do problema e da falta de monitoramento fidedigno, a equipe médica aumentou a dose do gás.

Apesar das provas de que o atendimento de Jones não teve qualquer relação com o desfecho trágico, e apesar da clara negligência hospitalar, o médico foi transformado em bode expiatório. Em 2016, teve seu registro cassado. Agora, após ser condenado a 14 anos de prisão por um júri popular, foi novamente preso, em cumprimento a uma norma do Supremo Tribunal Federal (STF) que contraria frontalmente o artigo 5º da Constituição Federal, o qual garante a presunção de inocência até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória.

Segundo Bebel Jones, Ric sonha constantemente com sua família:

“Também contou de um sonho recente em que já estava em casa. Disse que conversou com o Henry, que estava maior, trocando os dentes, e que o Oliver parecia um adolescente alto e desengonçado, a Ava muito comprida e eu bem gorda, com ‘bracinhos de puxar arado’”, contou Bebel.

Ric e Bebel | Foto: Arquivo pessoal

Demonstrando a força de Ric, a filha ainda relatou que o pai afirma não acordar triste destes sonhos, “porque sente que são um reflexo da saudade e da vontade enorme de nos reencontrar”. Pouco antes de se apresentar à prisão, deu demonstração similar de coragem e dignidade. Mesmo diante da injustiça e da repressão, afirmou:

“Não vou fugir, me refugiar, sair correndo, pedir asilo ou coisas do tipo, porque ficar longe da família seria uma prisão muito mais dura de suportar. Acho que ficar preso vai ajudar na conscientização de nossas lutas.”

Em outra mensagem, declarou:

“Guardem essa minha carinha aí. Não há porque se desesperar, esmorecer ou baixar a cabeça. A humanização do nascimento e a autonomia das mulheres sobre seus partos e seus corpos é a luta de uma geração.”

Sobre sua conversa recente com o pai, Bebel afirma que Ric “disse que acredita que coisas boas ainda podem acontecer, principalmente a volta para casa”. Segundo a filha, porém, ele “também está preparado emocionalmente para permanecer lá se as circunstâncias assim exigirem”.

“Por fim, me disse que vive contando os dias até quartas-feiras e domingos, quando consegue falar com a gente de perto e se sentir parte do mundo novamente. Apesar de tudo, fez questão de dizer que está em paz. Que tem tentado se manter inteiro, lendo, trabalhando, escrevendo e sonhando — sempre sonhando com o dia em que vai poder voltar para casa.”

Confira, abaixo, o relato de Bebel Jones na íntegra:

Na minha última conversa com meu pai, ele começou perguntando de todos nós. Quis saber como foi o verão, as férias na casa da vovó Ana e o aniversário do Henry. Disse que espera que estejamos bem, com saúde e mantendo o ânimo. Contou que lá dentro as coisas estavam relativamente tranquilas naquele momento e que ele tem se dedicado bastante ao trabalho: organiza arquivos, roupas e documentos dos presos, ajuda nas tarefas da galeria e engole alguns sapos — algo inevitável naquele ambiente.

Falou que a prisão acaba sendo uma grande aula sobre o comportamento humano. Disse que observa muito as pessoas, as tensões, as reações, as fragilidades. Disse que vê muita ansiedade, sofrimento, e que tenta ajudar como pode, principalmente conversando, deixando as pessoas falarem, extravasarem a angústia. Reconheceu que não sabe o quanto consegue fazer diferença, mas sente que não pode simplesmente virar o rosto.

Ele me contou também que anda escrevendo um livro sempre que consegue um tempo e que esse projeto é algo muito precioso para ele. Disse que sonha em poder publicá-lo um dia, porque esse livro representa muito da história dele e da esperança de recomeçar quando a liberdade chegar.

Falou um pouco da rotina diária, que prefere ficar mais na dele, ainda que alguns reclamem que não se mistura tanto. Ainda assim, se relaciona bem com seus colegas.

Comentou que lá tem muita comida, muito carboidrato, e que isso explica por que tanta gente engorda lá dentro (média de 1kg por mês, segundo ele). Admitiu que ele mesmo parou de caminhar por um tempo e ganhou peso (mas nem se nota, pois logo que entrou emagreceu), mas que está tentando reorganizar os horários para voltar a se exercitar e não perder o controle.

Falou bastante das leituras que tem feito: peças, romances, ensaios, livros de filosofia e medicina, guias de viagem, crônicas. Disse que a ausência do celular ajuda muito a se focar na leitura e a escapar daquela compulsão de procurar distrações o tempo todo. 

Também contou de um sonho recente em que já estava em casa. Disse que conversou com o Henry, que estava maior, trocando os dentes, e que o Oliver parecia um adolescente alto e desengonçado, a Ava muito comprida e eu bem gorda, com “bracinhos de puxar arado”.

Em seguida ele falou dos outros sonhos, sempre com a gente, com as crianças crescendo. Disse que não acorda triste destes sonhos — pelo contrário — porque sente que são um reflexo da saudade e da vontade enorme de nos reencontrar. Disse que acredita que coisas boas ainda podem acontecer, principalmente a volta para casa, mas que também está preparado emocionalmente para permanecer lá se as circunstâncias assim exigirem.

Ele comentou que ficou muito feliz em saber dos nossos passeios e planos. Voltou a falar da ideia de uma casa na praia e explicou que isso, para ele, é uma forma de se manter conectado com a vida que tinha antes, com o mundo de fora, algo que o impede de se afundar naquele espaço tão pequeno e fechado. Pediu que a gente guardasse esse sonho com carinho.

Também falou sobre temas maiores, sobre direitos reprodutivos, parto humanizado, e disse que espera que o caso dele e da mãe traga união ao campo da humanização e seja um divisor de águas no cenário da obstetrícia do nosso país.

Por fim, me disse que vive contando os dias até quartas-feiras e domingos, quando consegue falar com a gente de perto e se sentir parte do mundo novamente. Apesar de tudo, fez questão de dizer que está em paz. Que tem tentado se manter inteiro, lendo, trabalhando, escrevendo e sonhando — sempre sonhando com o dia em que vai poder voltar para casa.

Liberdade para Ric Jones!

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