Movimento Sem Terra

‘Faltou à esquerda ir mais às ruas’, critica dirigente do MST

João Paulo Rodrigues denuncia lentidão dos assentamentos, critica a política econômica do governo Lula e cobra mobilizações contra os juros e o imperialismo

O dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Paulo Rodrigues, criticou parte da política do terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva, principalmente na reforma agrária, e afirmou que a esquerda ficou imobilizada durante o atual mandato do líder petista. As declarações foram dadas em entrevista ao UOL.

Rodrigues reconheceu que Lula apresentou um programa considerado positivo durante a campanha eleitoral, mas afirmou que a política econômica adotada depois da posse impediu o avanço das reivindicações dos trabalhadores do campo.

“O presidente Lula se comportou muito durante a campanha eleitoral, houve um programa de governo muito bom”, disse.

Na avaliação do integrante da direção do MST, existe uma contradição entre a defesa verbal da reforma agrária feita por Lula e a orientação aplicada pelo Ministério da Fazenda.

“Qual foi o limite? É que eu acho que o Lula tem vontade de fazer reforma agrária, defende a reforma agrária, mas a sua política econômica, adotada pelo Ministério da Fazenda, combinada com a agenda de ajuste fiscal, fez com que a agenda da reforma agrária ficasse completamente na periferia dos programas do governo.”

Rodrigues considerou o resultado do atual mandato inferior ao dos dois primeiros governos de Lula.

“Eu corro o risco de dizer que foi o pior desempenho dos três mandatos do presidente Lula e foi muito aquém da expectativa da esquerda do PT e do próprio MST.”

Menos de 10 mil famílias assentadas

A maior insatisfação do MST está no número de assentamentos. Segundo Rodrigues, menos de 10 mil famílias receberam terra nos três primeiros anos do governo.

“Na prática, o número de famílias assentadas, que é o que vale na opinião do MST, não chegou a 10 mil novas famílias assentadas ao longo desses três anos. No melhor dos mundos, vamos terminar agora dezembro com 10 mil famílias assentadas. Isso é muito pouco.”

Caso o governo mantenha esse ritmo, seriam necessários pelo menos mais 15 anos para atender às famílias que aguardam por terra.

“Nós precisamos, nesse ritmo, de pelo menos mais 15 anos de governo Lula para assentar todo mundo. Não podemos aceitar isso.”

Para explicar a diferença entre os programas anunciados pelo governo e a realização efetiva da reforma agrária, Rodrigues comparou a política de assentamentos a uma feijoada.

“A reforma agrária é muito parecida com uma feijoada. Pode ter carne, tempero, água, tudo isso. Mas, se eu não tiver feijão, não tem reforma agrária. Portanto, o governo Lula está em dívida no que se refere à desapropriação de imóveis e ao assentamento das famílias acampadas. Faltou feijão na reforma agrária.”

O dirigente informou que cerca de 60 mil famílias permanecem acampadas desde o período do governo Dilma Rousseff. Durante o atual mandato, outras 100 mil famílias teriam ido para os acampamentos na expectativa de receber terra.

Para Rodrigues, o governo deveria ter usado a chamada “prateleira de terras”, anunciada por Lula, para acelerar a desapropriação de áreas e a criação de assentamentos.

“O ideal era que o governo antecipasse isso com a tal prateleira de terras que o Lula tanto nos colocou e a transformasse necessariamente em reforma agrária. Não é razoável que nós tenhamos 60 mil famílias acampadas ainda do período Dilma.”

PT deixou reivindicação nas mãos do MST

A cobrança foi dirigida também ao Partido dos Trabalhadores. Rodrigues afirmou que o PT não pode deixar a defesa da reforma agrária apenas a cargo do MST.

“Essa mesma dívida, me corrijo, eu também cobro da esquerda. Outro dia, eu perguntei para o nosso presidente Edinho: o PT precisa falar mais da pauta da reforma agrária, não pode ser só o MST. O PT precisa envolver os seus militantes, os seus diretórios e tal.”

Ele defendeu que Lula e o PT coloquem a reforma agrária no centro da campanha eleitoral e a apresentem como uma medida necessária para ampliar a oferta de alimentos.

“Quero que o governo Lula agora, durante a campanha, junto com o Partido dos Trabalhadores, ajude a defender a pauta da reforma agrária como uma das únicas saídas para ter oferta de alimentos saudáveis para a população brasileira.”

Apesar de ter surgido ligado aos movimentos operário e camponês, o PT não organiza uma campanha nacional pelas desapropriações. A reivindicação ficou concentrada no MST, enquanto o governo procura manter sua aliança com o latifúndio e os partidos burgueses que integram a frente ampla.

‘Faltou à esquerda ir mais às ruas’

Rodrigues criticou ainda a pouca disposição da esquerda para convocar manifestações durante o terceiro governo Lula.

“E, por fim, uma dívida que a esquerda tem é que nós fizemos muito pouca luta nesse último período.”

Segundo ele, os movimentos deveriam ter enfrentado a política de juros conduzida pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. A taxa elevada beneficia os bancos e aumenta a transferência da riqueza nacional para os parasitas internacionais através do pagamento da criminosa dívida pública, enquanto o ajuste fiscal limita os recursos destinados às reivindicações populares.

“Eu acho que não é só o MST. Faltou à esquerda ir mais às ruas. Se você pegar os primeiros de maio, os nossos foram fracos.”

Também faltaram mobilizações contra a intervenção imperialista na América Latina e em apoio aos povos atacados pelos Estados Unidos.

“Nós deveríamos ter feito mais lutas contra a presença da política imperialista no Brasil. Não poderíamos ter aceitado as intervenções que houve na Venezuela. O MST é muito solidário com Maduro, com a Venezuela, com Cuba e com a Palestina. Não foi razoável o comportamento que houve nessas guerras e nós não conseguimos ir às ruas.”

As críticas de João Paulo Rodrigues são corretas e mostram a insatisfação dos trabalhadores do campo com o governo de frente ampla. A reforma agrária foi sacrificada para preservar os acordos com o latifúndio, os banqueiros e a direita tradicional.

Ao mesmo tempo, o PT e a maior parte da esquerda substituíram a mobilização dos trabalhadores pela sustentação do governo e de suas alianças. O resultado é que dezenas de milhares de famílias continuam acampadas, enquanto as desapropriações dos parasitas do campo avançam num ritmo muito inferior ao necessário.

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