Na entrevista semanal à TV 247, nesta sexta-feira (6), o presidente do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, afirmou que o caso Jeffrey Epstein trouxe à tona “uma coisa que muita gente achava que era mera teoria da conspiração”: “a chantagem organizada, a indústria da chantagem contra políticos”. Para Pimenta, o episódio não é isolado. “Com certeza vários outros casos parecidos com esse”, disse, sustentando que o esquema teria começado com “favores sexuais” e “evoluiu para chantagem política”.
Ao comentar suspeitas de participação do serviço secreto israelense, Pimenta disse acreditar que “o Mossad está envolvido, sim”, acrescentando que há censura sobre parte do material: “a gente não sabe o que esses documentos dizem do Mossad, porque está tudo censurado”. Questionado sobre rumores envolvendo Donald Trump, respondeu que “é possível”, mas declarou não ter confirmação. Ainda assim, indicou que o caso ilustra que “governar não é ter poder de fato” e que autoridades podem ser controladas “de muitas maneiras”.
Na sequência, Pimenta afirmou que a revelação desse tipo de mecanismo expõe “a podridão absoluta” do regime político, “em particular o regime imperialista”. Disse também que o episódio deve ser entendido como parte do funcionamento do sistema, e não como exceção: “isso daí é uma das rodas dentadas da engrenagem total do sistema”.
Irã, Venezuela e a pressão de Washington
Sobre a possibilidade de uma agressão norte-americana ao Irã, Pimenta disse ver incerteza no curto prazo, mas afirmou que a tendência é de continuidade da escalada. “Se não for agora, será mais para frente. Isso eu tenho certeza absoluta”, declarou. Ele avaliou que Trump estaria sob forte pressão e que, embora não tenha certeza sobre chantagem direta, “a pressão é muito grande” e não se sabe se o presidente norte-americano “vai conseguir conter”.
No caso venezuelano, Pimenta avaliou que Trump “conseguiu o que ele queria”, apontando como benefício para Caracas a possibilidade de ampliar a venda de petróleo. Ele rejeitou a tese de “colonização” do petróleo venezuelano, argumentando que a parcela vendida aos EUA não representa mais de 10% da capacidade atual de produção do país, hoje reduzida. Ao mesmo tempo, disse que a Venezuela sofreu “um golpe duro com o sequestro do presidente Maduro”, com impacto sobretudo interno.
Críticas a Lula e à política externa
Parte do programa foi dedicada à entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, principalmente, à posição do governo sobre a Venezuela. Pimenta criticou a declaração de que a prioridade não seria a libertação de Maduro, classificando a fala como “totalmente absurda”. Para ele, “a política externa revela muito mais agudamente os compromissos do governo Lula com o grande capital do que a política interna”.
Pimenta afirmou que a libertação de Maduro é “uma questão essencial” e atacou a ideia de priorizar “melhoria das condições de vida” sem enfrentar o bloqueio: “bastaria os Estados Unidos suspender o embargo econômico… a situação melhoraria exponencialmente”, disse, destacando a riqueza petrolífera venezuelana. Defendeu que o Brasil poderia, ao menos, condenar o ato. “Qual é a lei, qual é o princípio em política internacional que autoriza um país a sequestrar o presidente de outro país? Isso é um ato de banditismo, é um ato criminoso”, declarou.
Ainda sobre o tema, afirmou que Lula “não ganha nada com a direita” ao adotar esse tipo de posição e “perde muito com a esquerda”, o que, na avaliação do dirigente, corrói o entusiasmo eleitoral necessário para ampliar a base de votos do PT.
Eleição de 2026 e frente ampla
Na discussão sobre 2026, Pimenta rejeitou tratar a disputa como obrigação eleitoral. Disse que “não é o voto que vai definir o destino do País” e avaliou que, mesmo com vitória, Lula teria dificuldades para governar: ou adotaria “uma política neoliberal explícita”, ou tentaria manter a linha atual e poderia ser derrubado. Caso a direita vença, previu “uma política neoliberal dura logo de cara”.
Pimenta também caracterizou o governo como “frente única”, um “governo de colaboração de classes”, com presença de setores da burguesia ao lado de partidos que dizem falar em nome dos trabalhadores. Comentou, ainda, que a busca de alianças com o chamado “centrão” decorre da política adotada pelo PT para vencer “nas bases em que ele colocou”.
Economia, juros e Banco Central
Ao avaliar o balanço econômico citado por Lula, Pimenta discordou das conclusões tirada a partir dos indicadores. Disse que crescimento projetado de 2,3% é “pífio”, e afirmou que a taxa de desemprego divulgada não capta “o desemprego oculto”. Citou também o aumento de pedidos de recuperação judicial como sinal de dificuldade econômica. “Aqui em São Paulo… tem muito lugar fechado, muita empresa que faliu, muita gente dormindo na rua”, declarou.
Sobre o Banco Central, criticou o elogio de Lula a Gabriel Galípolo mesmo com juros altos. “15% é apenas, tão somente a taxa de juros mais alta do planeta Terra. É uma coisa de louco”, afirmou, dizendo não ver “o que há para elogiar” na condução da política monetária.
Pequena burguesia, PT e disputa interna
Ao responder a perguntas do público, Pimenta afirmou que a pequena burguesia tem papel de sustentação do grande capital e disse que há, no Brasil, uma ala de direita e outra de esquerda, citando como característica desta última a política woke e o identitarismo. Sobre o PT, disse que no aparato partidário predomina “gente de classe média”, citando o perfil de deputados e intelectuais.
Questionado sobre sucessão, declarou não ver hoje nomes com autoridade eleitoral comparável à de Lula e afirmou que, se o presidente vencer, “vai tentar fazer alguma coisa nesse sentido, mas não antes. Só depois”, argumentando que “passar a herança” enquanto o líder está ativo pode ser arriscado. Ao falar de Gleisi Hoffmann, disse que ela tem “caráter” e “firmeza”, mas que também não teria, por ora, a autoridade política necessária.
Em crítica aos chamados webcomunistas, Pimenta disse ser contra o “antipetismo profissional” e associou esse tipo de política ao alinhamento de grupos que, em 2016, atacaram o governo Dilma Rousseff durante o golpe. “No final das contas, você ataca só o governo”, afirmou, ao tratar da ideia de criticar governos e imperialismo ao mesmo tempo.
Por fim, ao comentar o caso do “cão orelha”, Pimenta declarou ser contra prisão para maus-tratos a animais, afirmando que a cadeia no Brasil é “uma sucursal do inferno” e defendendo, no máximo, punição por multa.




