Seguindo na análise sobre o artigo O novo imperialismo de Donald Trump, de Carlos Eduardo Martins, publicado no sítio A Terra é Redonda nesta terça-feira (3), – a primeira parte [pode ser lida aqui] – lê-se que “foi Donald Trump, todavia, quem afrontou o neoliberalismo, pretendendo subordiná-lo a um capitalismo de Estado que submetesse o mercado mundial ao poder estatal dos Estados Unidos, abrindo espaço para o estabelecimento de um império global e de uma nova etapa do imperialismo, que chamamos de imperialismo tout-court [curto e grosso] para designar o emprego aberto da violência estatal no sistema-mundo que não alcança uma ordem estável e aprofunda os conflitos internacionais, gerando situações disruptivas”.
Donald Trump herdou uma economia completamente sangrada pelo neoliberalismo e pelos gastos astronômicos com o aparato de guerra. Não é caso de que este pretendia subordinar o neoliberalismo a um capitalismo de Estado, mas diminuir as perdas do grande capital doméstico americano, por isso o slogam de sua campanha “Fazer a América Grande Novamente”. Trump recebe apoio de uma burguesia que está sendo sangrada pelo grande capital internacional.
A violência de Trump, todos sabem, é um método de negociação. Joga as taxas nas alturas para conseguir um valor intermediário. A violência de Obama e Biden foi muito maior. A Síria sofreu intenso bombardeio por anos; a Líbia foi destruída. Biden, que foi vice de Obama, em sua gestão formalizou coalizões militares e avançou sobre a China, forçou a Rússia a invadir a Ucrânia, além de ter dado todo o suporte para o genocídio sionista em Gaza.
Os conflitos regionais que Martins cita resultam, de fato, da derrota americana (OTAN) no Afeganistão. Os países africanos, principalmente no norte, acossados pelo imperialismo, e percebendo sua fragilidade, resolveram se livrar do domínio. Mesmo a operação militar russa na Ucrânia aconteceu depois da derrota vergonhosa do imperialismo contra o Talibã.
Trump, segundo o autor, “declarou a China e a Rússia potências revisionistas que ameaçariam a ordem, a prosperidade, os interesses e valores estadunidenses. Nomeou Pequim o principal inimigo externo a ser contido e o liberalismo político e o socialismo os maiores inimigos internos.”. Porém, os chineses já estavam na mira, bem como a Rússia, muito antes de Trump assumir. A questão que envolve este governo, é que a sua base social está em contradição com o grande capital financeiro.
Martins acredita que Trump está inaugurando um imperialismo quando este “paralisou a Organização Mundial do Comércio, retirou Washington do Acordo de Paris e de inúmeras organizações internacionais, negou o aquecimento global, rejeitou as regulações ambientais, rechaçou os déficits comerciais, iniciou uma ofensiva tarifária contra a China e um conjunto de sanções e embargos extensivos a terceiros países para isolá-la e afastá-la da corrida pelo domínio da vanguarda do paradigma microeletrônico”.
Essas medidas de Trump espantam porque são medidas protecionistas, muito comuns a países atrasados, e são resultado do buraco no qual se meteram os Estados Unidos.
Trump sabe que precisa reindustrializar os EUA e não pode ficar preso às políticas ambientais, que foram criadas para travar o desenvolvimento de países atrasados, como o Brasil. O ‘aquecimento global’ já foi contestado por cientistas que acreditam se tratar de um fenômeno cíclico. O alarde criado em torno do assunto serve para forçar países atrasados a se tornarem verdadeiras colônias agrícolas, enquanto os países ricos continuam a se industrializar.
A fraude em torno do clima é tão grande, que o imperialismo foi obrigado a trocar a questão do ‘aquecimento global’ por ‘mudanças climáticas’. Outra fraude é o Artigo 6 do Acordo de Paris, que permite que países que reduziram suas emissões além de suas metas vendam esse “excedente” para países que estão tendo dificuldade em bater as suas [continuam se industrializando]. Com isso, os países atrasados ficam recebendo uma suposta indenização, não se desenvolvem, e permanecem vendendo produtos agrícolas, commodities, em troca de produtos tecnológicos com alto valor agregado.
Quanto à guerra tarifária, todos os países fazem isso. O que causa espanto é o barulho que Donald Trump faz, pois se costuma fazer isso em silêncio.
O estrago provocado na economia americana é que levou Trump a reivindicar “o restabelecimento do poder industrial estadunidense, a repatriação de capitais e estendeu a ofensiva tarifária tanto aos países superavitários em relação aos Estados Unidos quanto àqueles, cujas diretrizes políticas e sociais afetavam seus interesses”.
Segundo Martins, “Donald Trump inverteu a aposta de Richard Nixon e Henry Kissinger de incluir a China na ordem internacional estadunidense para isolar a URSS”. A questão é que ninguém nunca havia calculado as consequências dessa inclusão. A enorme oferta de mão de obra, a transferência de ramos inteiros para a China, cobra agora o preço. Há quem diga que os Estados Unidos demoraram muito para agir, deveriam ter entrado em guerra com o país antes que se tornasse um problema muito maior.
No restante desse tópico, do texto argumenta que a estratégia de Donald Trump representa uma guinada imperialista que busca consolidar um domínio global absoluto. Se argumenta que no cenário europeu, isso se traduz no enfraquecimento da OTAN e na fragmentação do continente para impedir a ascensão de potências regionais. Porém, muito mais que tentar um domínio global absoluto, as medidas são muito mais protecionistas
Nas Américas, o autor aponta uma distorção da Doutrina Monroe e do Destino Manifesto, utilizadas não mais para proteção colonial, mas para: submeter a soberania de países latino-americanos aos interesses de Washington; expulsar a influência da China e da Rússia do Hemisfério Ocidental e estabelecer governos submissos e explorar recursos estratégicos, tratando a região como o novo “espaço vital” dos EUA, em substituição ao Oriente Médio.
Há aí uma contradição. Se Trump busca domínio global e, simultaneamente, tenta substituir o Oriente Médio pelas Américas, significa um recuo, pois aqueles países somados aos produtores de petróleo do norte da África, representam 38% da produção mundial.
A subordinação da América Latina é uma política do imperialismo, não apenas de Trump. Desde muito antes que se vem instaurando governos completamente alinhados com Washington. A ingerência é feita à luz do dia, e se manipula eleições, ou se promove golpes sem o menor pudor.
continua…





