A ex-presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, defendeu a intensificação das sanções norte-americanas contra o Irã, afirmando que a população iraniana precisa “sentir a dor” das medidas econômicas. As declarações foram feitas no âmbito da Conferência de Segurança de Múnich, na Alemanha, em intervenção realizada na sexta-feira (13).
Segundo Pelosi, os EUA deveriam recorrer às “forças econômicas” para buscar o que chamou de “mudança de regime” em Teerã, sem uma intervenção militar direta. “Apenas enfraqueça a economia deles… porque eles têm apoio nas áreas rurais… temos que fazê-los sentir a dor também”, afirmou.
Perguntada sobre como provocar a queda do governo iraniano sem envolvimento militar dos EUA, Pelosi respondeu: “use forças econômicas. Há maneiras que podem paralisar a economia. E algumas delas já estão em andamento”. Um reconhecimento pouco comum, de forma direta, do objetivo político por trás das sanções criminosas impostas pelo imperialismo contra o país persa.
As declarações geraram críticas imediatas nas redes sociais. O cofundador do Quincy Institute for Responsible Statecraft, Trita Parsi, rejeitou a ideia de que se trataria de um “deslize” e disse que a fala expôs uma orientação antiga da política de sanções. Em publicação no X, Parsi afirmou que, em geral, formuladores da política norte-americana negam que as sanções tenham como finalidade devastar populações civis ou quebrar economias nacionais. No entanto, segundo ele, quando há protestos e o governo aparece vulnerável, os defensores das sanções mudam o tom e passam a apresentar o agravamento das condições de vida como prova de “eficácia” para promover “mudança de regime”.
Parsi descreveu esse movimento como um “jujitsu” político: o custo humano é minimizado no início e, em seguida, passa a ser usado como prova de sucesso quando convém ao objetivo de desestabilização.
O jornalista Aaron Maté também comentou a fala de Pelosi, observando que a ex-presidente da Câmara defendia “mudança de regime” não por meios militares, mas por uma tentativa de “paralisar a economia” do Irã. “Um alvo central são iranianos comuns que apoiam seu governo”, escreveu Maté, questionando: “que direito um político de um país tem de fazer civis de outro país sentirem ‘dor’?”.
Em 20 de janeiro, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, atribuiu às sanções uma crise econômica no Irã e afirmou que a pressão “funcionou”. “Funcionou porque, em dezembro, a economia deles colapsou. Vimos um grande banco quebrar. O banco central começou a imprimir dinheiro. Há escassez de dólares. Eles não conseguem importar, e é por isso que as pessoas foram às ruas”, declarou.
Já em novembro de 2018, o então secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, afirmou que autoridades iranianas deveriam cumprir as exigências norte-americanas “se quiserem que seu povo coma”, após os Estados Unidos se retirarem unilateralmente do acordo nuclear de 2015 e restabelecerem sanções.
No sábado (14), o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, reagiu às declarações de Pelosi e afirmou que impor deliberadamente dor e sofrimento a civis, com objetivo político, equivale a terrorismo. Baghaei disse que Pelosi defendeu que o governo norte-americano “paralise” a economia do Irã e acrescentou que “apenas uma mentalidade maliciosa e arrogante” poderia se considerar autorizada a propor políticas baseadas em causar privações a civis de outro país.
Ainda no sábado, o chanceler iraniano Saied Abás Araqchi criticou a postura europeia na Conferência de Segurança de Múnich e afirmou, em mensagem publicada no X, que é “triste” ver um encontro “habitualmente sério” ter se convertido no “Circo de Múnich” quando o tema é o Irã. Araqchi atribuiu isso à incapacidade europeia de compreender as transformações que estariam ocorrendo dentro do país, o que teria consequências estratégicas de grande alcance.
Araqchi afirmou que uma Europa “sem rumo” perdeu praticamente todo seu peso e influência na Ásia Ocidental. O chanceler apontou especificamente a Alemanha, dizendo que Berlim delegou por completo sua política regional a “Israel”, o que, em sua avaliação, expressa a perda de autonomia estratégica do bloco europeu. “O panorama geral da Europa é extremamente preocupante”, declarou, advertindo que a trajetória atual levaria a uma irrelevância ainda maior em temas regionais e globais. Em seguida, ao perguntar “o que isso significa na prática”, respondeu que a consequência seria a paralisia e a falta de relevância da União Europeia e da chamada troika europeia nos acontecimentos ligados às negociações em curso sobre o programa nuclear iraniano.



