Depois de fracassar em sua tentativa de obter uma vitória rápida sobre o Irã, o imperialismo norte-americano passou a apostar em uma velha fórmula: mobilizar grupos regionais como tropa auxiliar de sua guerra. É esse o quadro traçado pela reportagem Apostando nos curdos: Os EUA estão tentando usar forças curdas no Irã contra os aiatolás, publicada pelo portal The Insider em 18 de março. Logo na abertura, o texto define a manobra como um “plano B”, isto é, o uso de grupos curdos iranianos e iraquianos para tentar desestabilizar o regime por dentro. A matéria também chama atenção para o esforço da Casa Branca em mascarar a guerra com expressões como “operações de combate limitadas”, uma tentativa de suavizar politicamente uma intervenção que, na prática, busca incendiar toda a região.
Segundo a reportagem, Donald Trump telefonou em 3 de março para Mustafa Hijri, dirigente dos curdos iranianos, poucos dias depois do início da guerra. Uma semana antes, Hijri havia criado a Coalizão das Forças Políticas do Curdistão Iraniano. O The Insider relata que, antes mesmo da ligação, essa coalizão publicou uma declaração conclamando os iranianos à resistência civil e pedindo que soldados e oficiais rompessem com os “restos do regime islâmico”. A reportagem afirma, com base em informações vazadas, que Trump pressionou Hijri a ir além da agitação política e a passar à luta armada contra o governo iraniano. Ao mesmo tempo, o presidente norte-americano teria feito proposta semelhante a lideranças curdas do Iraque, oferecendo armas, inteligência e cobertura aérea. No caso iraquiano, a pressão teria assumido a forma de um ultimato: ou os curdos apoiariam o plano dos EUA, ou seriam tratados como aliados do Irã.
De acordo com a reportagem, o plano seria relativamente simples no papel: unidades curdas armadas pelos Estados Unidos, protegidas pela aviação norte-americana, tentariam tomar províncias do noroeste do Irã, onde há forte presença curda, com o objetivo de desencadear um levante mais amplo contra a República Islâmica. Mas o próprio The Insider observa que a execução esbarra em vários obstáculos, muitos dos quais a o governo norte-americano evita mencionar. O primeiro deles é a natureza improvisada da própria coalizão curda iraniana, formada às pressas. Longe de ser um bloco homogêneo, ela reúne organizações com programas conflitantes e alianças inconciliáveis.
A reportagem mostra que a frente curda está dividida entre nacionalistas dispostos a cooperar com os EUA e “Israel” e correntes que enxergam esses países como ocupantes imperialistas. O exemplo mais importante é a convivência tensa entre o Partido Democrático do Curdistão Iraniano e o Partido Komala. Hoje eles aparecem juntos contra o Irã, mas, como recorda o The Insider, nos anos 1980 e 1990 travaram uma guerra real entre si, com centenas de mortos dos dois lados.
Nem mesmo dentro da coalizão curda existe acordo sobre até onde ir na colaboração com os EUA. Segundo o The Insider, o Komala rejeita lutar pelos interesses dos Estados Unidos e de “Israel”, argumentando que isso transformaria as áreas curdas em zona de guerra global. Defende, em vez disso, uma luta conduzida por forças curdas, sem submissão a países estrangeiros.
A debilidade militar desses grupos também aparece com clareza na reportagem. O The Insider estima que o conjunto das forças armadas ligadas à coalizão curda iraniana tenha entre 4 mil e 8,5 mil combatentes. Desses, somente algumas centenas ou, no máximo, poucos milhares possuem experiência em guerra moderna, adquirida no combate ao Estado Islâmico no Iraque e na Síria. A comparação com o aparato militar iraniano é brutal: só o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI) teria entre 250 mil e 300 mil homens, além do Exército, da polícia e dos serviços de segurança. Ou seja, mesmo do ponto de vista estritamente militar, os curdos iranianos não têm condições de sustentar uma operação terrestre de envergadura contra o Estado iraniano. É justamente por isso, afirma a matéria, que Trump teria voltado os olhos também para os curdos do Iraque.
A presença de grupos curdos iranianos no Iraque não é nova. A reportagem lembra que essa migração começou pouco depois da Revolução Islâmica de 1979. Durante a guerra Irã-Iraque, Saddam Hussein armou e treinou curdos iranianos como força por procuração contra Teerã. Mesmo após a invasão norte-americana de 2003 e a consolidação da autonomia curda no norte iraquiano, essas organizações mantiveram suas bases em território iraquiano. Em troca, comprometeram-se a não interferir na política interna do Curdistão iraquiano nem lançar uma guerra em larga escala contra o Irã.
Ainda assim, pequenas incursões ocasionais seguiram contra o governo iraniano. Em 2022, depois da onda de protestos no Irã, o Irã acusou esses grupos sediados no Iraque de fomentar a violência e pressionou o Iraque, que respondeu deslocando suas bases para longe da fronteira e controlando seus movimentos e rotas de abastecimento. O resultado prático, segundo o The Insider, é que os curdos iranianos armados não podem sequer retornar à sua terra sem autorização das autoridades do Curdistão iraquiano.
É nesse cenário que a ligação de Trump às lideranças curdas iraquianas ganha sentido. A reportagem sugere que o objetivo do contato foi obter passagem para combatentes curdos iranianos atravessarem a fronteira e iniciarem operações no Irã. Alguns comandantes desses grupos já teriam manifestado prontidão para atacar alvos iranianos.
Talvez o ponto mais importante da matéria seja o da memória histórica das sucessivas traições dos Estados Unidos aos curdos. O The Insider destaca a manifestação pública de Shahnaz Ibrahim Ahmed, esposa do presidente iraquiano Abdul Latif Rashid e ela própria de origem curda. Em nota divulgada em 5 de março, o gabinete da primeira-dama pediu que os curdos não fossem usados como mercenários. O texto recorda 1991, quando George H. W. Bush incentivou os iraquianos a se levantarem contra Saddam Hussein, mas deixou os curdos sozinhos diante do Exército iraquiano. O resultado, lembra a reportagem, foi uma carnificina com dezenas de milhares de mortos e centenas de milhares de refugiados. A nota também menciona a experiência mais recente na Síria: os Estados Unidos apoiaram os curdos durante anos contra o Estado Islâmico, mas, depois do golpe contra Bashar Al-Assad, priorizaram relações com as novas autoridades hostis à autonomia curda e abandonaram seus antigos aliados.





