Os Estados Unidos ameaçaram o Iraque com a possibilidade de bloquear o acesso do país às receitas do petróleo depositadas no Banco da Reserva Federal de Nova Iorque caso forças políticas ligadas ao Irã integrem o próximo governo iraquiano. A informação foi divulgada na quinta-feira (23) pela agência Reuters, que citou três autoridades iraquianas e uma fonte com conhecimento do assunto.
De acordo com o relato, a advertência foi transmitida reiteradas vezes nos últimos dois meses pelo encarregado de negócios norte-americano em Bagdá, Joshua Harris, durante reuniões com autoridades do Estado iraquiano e dirigentes xiitas com influência no processo de formação do governo. O mecanismo de chantagem apontado na reportagem seria a interrupção do acesso do Banco Central do Iraque a uma conta no Federal Reserve onde são concentrados os recursos provenientes das exportações de petróleo.
A ameaça aparece vinculada à retomada da política de “máxima pressão” do governo Donald Trump, que busca enfraquecer o Irã por meio de sanções ampliadas e restrições adicionais, incluindo medidas voltadas às exportações de petróleo iranianas. No mesmo período, Trump fez declarações sobre a possibilidade de agressão militar contra o Irã, condicionando-a ao que chamou de uso de violência contra manifestantes.
No caso do Iraque, a ameaça de bloquear receitas do petróleo amplia uma política que Washington já vinha aplicando por outras vias. A Reuters relembrou que os EUA restringiram anteriormente a circulação de dólares para bancos iraquianos, o que elevou preços de importação e dificultou pagamentos relacionados à compra de gás natural iraniano. A diferença, agora, estaria no caráter explícito da ameaça: pela primeira vez, Washington teria colocado de modo direto a possibilidade de cortar o acesso do Banco Central do Iraque às receitas do petróleo.
O controle sobre esses recursos tem origem na ocupação do país. Desde a invasão liderada pelos EUA em 2003, o Iraque foi obrigado a depositar as receitas de suas vendas de petróleo em uma conta no Federal Reserve. Como o petróleo corresponde a cerca de 90% do orçamento nacional iraquiano, o mecanismo dá aos EUA um instrumento de pressão de grande alcance sobre o Estado iraquiano, na prática condicionando decisões políticas internas à aprovação da potência ocupante.
Um porta-voz do Departamento de Estado norte-americano declarou que Washington “apoia a soberania” do Iraque, mas se opõe à influência de grupos armados ligados ao Irã.
O primeiro-ministro Mohammed Shia al-Sudani decidiu não buscar um segundo mandato, o que altera a correlação de forças na disputa pela chefia do governo. Com isso, abre-se a possibilidade de retorno de Nouri al-Maliki, dirigente da Coalizão Estado de Direito e do partido Dawa, que governou o país de 2006 a 2014 — período que incluiu a tomada de vastas áreas do oeste iraquiano pelo Daesh. Maliki é apontado como apoiado por forças vinculadas às Forças de Mobilização Popular (PMU, na sigla em inglês).




