Guerra no Oriente Próximo

Estar ‘contra os aiatolás’ é estar contra o Irã

MRT publica texto atacando regime iraniano e espalhando a propaganda imperialista sobre o país, o que coloca o grupo ao lado de "Israel" e EUA

No último dia 4 de março, foi publicada no sítio Esquerda Diário, ligado ao MRT, uma coluna assinada pela deputada argentina Andrea D’Atri sobre a guerra do imperialismo contra o Irã e a situação das mulheres e da população iraniana. O que se esperaria, tratando-se de um jornal de esquerda, é que a autora, seu agrupamento e seu coletivo de mulheres, Pão com Rosas, se colocassem incondicionalmente ao lado do país agredido pelo imperialismo.

No entanto, a maior parte das críticas não é dirigida ao ataque imperialista, nem a “Israel”, o grande beneficiado caso o Irã fosse derrotado. O texto se concentra em atacar o regime iraniano e uma suposta ditadura contra as mulheres.

No início do artigo, a autora dedica um parágrafo a atacar as redes sociais e os meios de comunicação, talvez porque é justamente neles que se encontra a opinião dos próprios iranianos, ao contrário de outros veículos, controlados por emissoras como a Globo e jornais como o Estadão e a Folha. Na sequência, ela diz:

“Algo assim acontece quando se lê a palavra “Irã”. Nem se fala quando se acrescenta o termo “feminismo”. Se ao debate se incorpora o fato de que os Estados Unidos e Israel lançaram uma guerra de agressão imperialista contra aquela nação oprimida, onde existe um regime político reacionário, especialmente repressivo contra as mulheres, ninguém quer ouvir nem ler mais nada. Mas, por mais que respondamos com o emoji da cabeça explodindo, os aiatolás oprimem as mulheres ali, as bombas israelenses matam meninas em idade escolar e Trump persegue ditadores em países onde — ora, que coincidência! — existem reservas de petróleo.”

A autora considera reacionário um dos únicos dois regimes políticos que entraram em confronto militar contra “Israel”, o braço armado do imperialismo na região, baseando-se na propaganda imperialista contra o país.

O regime iraniano não é repressivo contra as mulheres. No Irã, as mulheres podem e conseguem estudar, sendo maioria entre os formados em engenharia a cada ano, para citar apenas um exemplo. As mulheres participam da administração estatal e têm salários relativamente próximos aos dos homens do país, algo que não ocorre na maior parte dos países imperialistas e ocidentais.

A suposta “repressão” contra a mulher se baseia na propaganda do imperialismo segundo a qual as mulheres seriam obrigadas a usar o véu islâmico. A autora do texto, ao que tudo indica, não sabe ou não quer usar a internet. Isso fica evidente se levarmos em conta a longa descrição de ataques aos meios de comunicação logo no início do texto. Se a utilizasse, provavelmente teria entrado em contato com inúmeros vídeos divulgados no último período, mostrando mulheres sem véu em público, inclusive em manifestações em defesa do regime político do Irã.

Mais adiante, lê-se no texto:

“Então, falamos pelo Pão e Rosas, que é a nossa corrente feminista socialista; portanto, internacionalista, anti-imperialista, anticapitalista, antirracista e, obviamente, antipatriarcal. Nesta guerra, distinguimos entre nações opressoras e nações oprimidas, ainda que seus governos nos pareçam desprezíveis. Por isso, consideramos uma obrigação lutar pela derrota política e militar dos Estados Unidos e de Israel no Irã.

Quem pode pensar que os mesmos que massacraram as mulheres e as meninas palestinas, os líderes sobre os quais chovem denúncias por abusos sexuais de adolescentes, os que iniciaram estes ataques bombardeando uma escola iraniana, matando mais de cem meninas, trarão, junto com os mísseis, a emancipação das mulheres iranianas? Não se pode esperar nada de quem são os máximos responsáveis políticos e militares pelo genocídio mais estarrecedor do século XXI, cometido a apenas 1.600 quilômetros do Irã.”

Para depois afirmar:

“Mas também somos conscientes de que não se pode forjar nenhuma força moral para enfrentar os ataques belicistas do imperialismo ianque e do sionismo colonialista enquanto o regime teocrático dos aiatolás descarrega, sobre as mulheres e todo o povo trabalhador iraniano, assim como contra a população curda, uma repressão implacável e sanguinária. Por isso, defendemos: “Abaixo a guerra imperialista de Trump e Netanyahu contra o Irã”, com total independência política em relação ao regime antioperário, repressivo e reacionário dos aiatolás.”.

Não há repressão alguma contra o povo iraniano por parte do regime político, nem contra as mulheres, nem contra os trabalhadores. A autora, que aparentemente se informa principalmente pela imprensa israelense e norte-americana, não consegue perceber que o regime político iraniano é um regime revolucionário.

Desde 1979, o Irã vem sendo alvo de demonização pela imprensa imperialista. E, se é verdade que algumas restrições foram impostas às mulheres no início da revolução, também é verdade que essas restrições contavam com o apoio do conjunto da população e que foram desaparecendo com o passar do tempo.

O regime iraniano é um dos poucos que realmente se preocupam com as mulheres. O imperialismo, que produz a propaganda de que o Irã seria contra as mulheres, é o mesmo que vem assassinando principalmente mulheres e crianças em todos os países árabes, muçulmanos e no próprio Irã desde o fim da Primeira Guerra Mundial. O Irã, por sua vez, é o país que não apenas derrotou o imperialismo em seu próprio território, como também armou e treinou todo o Eixo da Resistência na região.

O Hesbolá, o Hamas, o Ansar Alá e as milícias do Iraque, por exemplo, são aliados do Irã. São esses grupos e o próprio Irã que defendem as mulheres no Oriente Médio, de armas na mão.

Não faz sentido afirmar que a guerra contra o imperialismo na região deve ter “total independência política em relação ao regime antioperário, repressivo e reacionário dos aiatolás”, pois o MRT e o coletivo Pão com Rosas não irão entrar na guerra no lugar do Irã. Quem está combatendo o imperialismo na região é o Estado iraniano, em torno do qual a população iraniana se organizou. Não existe um povo em abstrato que vá lutar contra o imperialismo senão por meio de seu Estado.

O texto prossegue com farsas criadas pelo imperialismo sobre o Irã, como a mentira de que o país assassinou uma mulher conhecida como Mahsa Amini. Chama o governo islâmico de “ditadura teocrática”, pecha que não é usada uma única vez contra “Israel”, que de fato é uma ditadura teocrática.

A agressão imperialista aparece apenas como pano de fundo para um artigo que ataca o regime iraniano. Na prática, o texto procura atacar o Irã, o que pode ser considerado uma posição de apoio ao imperialismo na guerra. São pouquíssimas as menções ao que vêm fazendo “Israel” e os Estados Unidos no Oriente Médio, diante de uma enxurrada de críticas ao governo iraniano, em sua maioria baseadas em mentiras e propaganda fabricadas pelo próprio imperialismo.

Não se trata, portanto, de um texto em favor das mulheres iranianas, nem do povo iraniano. Trata-se de uma defesa da propaganda imperialista e da agressão ao Irã, na medida em que pede a derrubada do governo iraniano justamente no momento em que ele se encontra em guerra contra o imperialismo.

É interessante notar, ainda, que, ao lado de “Israel” e dos Estados Unidos na guerra contra o Irã, além de todo o restante do imperialismo, estão também as chamadas monarquias do Golfo, como é o caso da Arábia Saudita. A Arábia Saudita é uma ditadura antioperária, que não apenas nega às mulheres os direitos mais elementares, como também os nega ao conjunto da população, já que sequer possui uma constituição.

No entanto, não há nenhuma menção aos direitos das mulheres na Arábia Saudita, o que prova, mais uma vez, que o único motivo pelo qual essa questão é levantada é o fato de se tratar do Irã, um país em luta contra o imperialismo.

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