É comovente a preocupação da imprensa burguesa com a crianças. A “surpresa” da vez é o editorial A delicada saúde mental das crianças, publicado no Estadão nesta quarta-feira (8).
Um jornal que é a favor do teto de gastos, e sabe muito bem que isso é o que restringe investimentos na saúde e na educação, que degrada a vida dos brasileiros, o isso inclui as crianças.
No entanto, assim como Felca, preocupado com a “adultização” das crianças, o foco aqui é o mesmo, restringir o acesso à internet, uma política do imperialismo que vem sendo implementada em todo o mundo.
O primeiro parágrafo é utilizado para criar alarde. Ali está dito que “crianças cada vez menores têm demandado atenção em saúde mental na rede pública de saúde paulista. Uma reportagem publicada recentemente no Estadão mostrou que só ano passado nada menos do que 1,2 milhão de atendimentos ambulatoriais foram realizados com pacientes de idade entre 5 e 9 anos. Para ter ideia da gravidade, de 2023 para 2025 houve um crescimento de 50% nesse tipo de serviço, segundo a Secretaria de Estado da Saúde. E nenhuma outra faixa etária superou o volume de atendimentos ambulatoriais prestados a esse público tão novo. Como se vê, não vai nada bem a saúde mental dos pequenos paulistas”.
A indústria de doenças
Como sempre, esse tipo de matéria vai acabar focando apenas em determinadas consequências, não nas possíveis causas. Sobre os atendimentos, dizem que “são crianças que precisam de cuidados especializados, como consultas com psicólogos e psiquiatras, terapia individual e em grupo, acompanhamento multiprofissional, prescrição e monitoramento de medicamentos e ações de acolhimento. Nas ocorrências mais complexas, em que os pacientes oferecem risco para si ou para quem está à sua volta, há a internação psiquiátrica. E o número desse tipo de procedimento também cresceu: alta de 8%, ou 119 crianças internadas”.
Sobre essa avalanche de números, é preciso fazer algumas considerações. Há anos existem verdadeiras campanhas na grande imprensa – provavelmente motivadas pela indústria farmacêutica –, sobre depressão, autismo, déficit de atenção etc., que acaba influenciando o comportamento das pessoas. Desde então, surgiram milhares de diagnósticos de doenças mentais. E isso não é por acaso. Os pais, sugestionados pela propaganda, acreditam que seus filhos estão necessitando de atendimento psicológico ou psiquiátrico.
O alvo: os celulares
Para constatar o que foi dito no parágrafo anterior, basta ler o que diz o Estadão, que afirma que “entre os principais motivos de atendimento ambulatorial, estão os transtornos de desenvolvimento e a deficiência intelectual ou o atraso cognitivo. Muitos deles têm causas genéticas, como o autismo e o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH)”.
Após essa introdução catastrófica, o jornal finalmente parte para seu alvo afirmando que “há também aqueles [casos] desencadeados por fatores externos, como a depressão e a ansiedade. Isso quer dizer que determinados estilos de vida têm empurrado as crianças para os consultórios de psicólogos ou psiquiatras – ou até mesmo para a internação. E são as famílias que, voluntária ou involuntariamente, expõem seus filhos a situações de risco, sobretudo quando lhes entregam em mãos um aparelho celular”. – grifo nosso.
A sequência lógica, para conferir credibilidade, é apresentar a opinião técnica, sempre oportuna, de um especialista. Portanto, “como bem explicou o psiquiatra infantil Gustavo Estanislau, ouvido pelo Estadão, o uso de telas afasta as crianças das brincadeiras livres”. E não para por aí, a tal tela “por óbvio, aumenta o risco de sobrepeso e obesidade, bem como prejudica o desenvolvimento de habilidades psíquicas, motoras e socioemocionais na fase da vida em que as interações deveriam ser estimuladas, e não bloqueadas”.
Para piorar, “segundo Estanislau, o uso de telas deixa as crianças mais sensíveis à frustração, hiper-reativas ao tédio e estressadas. Não à toa, elas se alimentam e dormem mal, manifestando, não raro, problemas que são comuns apenas na vida adulta”. Um verdadeiro flagelo.
Falta de serviços públicos
O que o Estadão não conta, é que os pais não têm alternativas, os celulares viraram babás eletrônicas enquanto os pais fazem bicos para tentar ganhar algum sustento. Uma “empreendedora” não pode simultaneamente cuidar de seu filho e fazer seu ‘bolo de pote’. Sendo assim, entrega o celular para distrair a criança.
Crianças que ficam nas creches em tempo integral não utilizam celulares, fazem inúmeras atividades, inclusive físicas. Porém, esse jornal é contra os gastos sociais, e é contra o ensino público, inclusive.
Para o Estadão, as pessoas que precisam se virar para ganhar algum dinheiro é que são as culpadas. Diz que são “esses mesmos pais que hoje levam seus filhos aos ambulatórios que lhes deram acesso pouco controlado a vídeos, joguinhos e redes sociais”. E que “tamanho sofrimento das crianças foi causado, não raro, por escolhas erradas feitas por aqueles que justamente deveriam protegê-las”.
Cinismo
A grande imprensa defende essa política criminosa de juros altos, quer que o governo privilegie o pagamento de uma dívida pública igualmente criminosa para os bancos. Porém, esse pagamento drena mais da metade dos recursos públicos, o que penaliza a classe trabalhadora, que fica sem onde deixar seus filhos.
São as vítimas desse sistema que levam a culpa pelo que ocorre com suas crianças.
Cinicamente, o Estadão alerta que “recentemente, uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que ouviu 118 mil adolescentes com idade de 13 a 17 anos, constatou que três em cada dez dos estudantes nessa faixa etária se sentem tristes sempre ou, no caso de 42,9%, se dizem ‘irritados, nervosos ou mal-humorados por qualquer coisa’. [E que,] além disso, 18,5% acham que ‘a vida não vale a pena ser vivida’”.
Para o jornal golpista, o problema não está na falta de perspectiva dos jovens, que não veem motivo para estudar, uma vez que não deverão conseguir um emprego. Quais as opções de lazer para a juventude?
Em vez de cobrar políticas públicas, saúde, escolas de qualidade, o Estadão, diz que “para evitar que as crianças de 5 a 9 anos arrastem tantos problemas para a adolescência, seus pais deveriam seguir o que dizem o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Constituição federal: cuidar, com absoluta prioridade, de seus filhos, a começar por jamais permitir que fiquem expostos às telas”. – grifo nosso.
A Constituição também diz que o brasileiro deveria receber um salário mínimo que satisfizesse suas necessidades e lhes desse dignidade, mas o Estadão é completamente contra o aumento salarial, pois sabe que isso reduz os lucros da burguesia.
Finalmente, o jornal utiliza suas mentiras para apoiar uma lei absurda de censura. Diz que “não é em vão que recentemente adotou-se uma lei que proíbe o uso dos celulares nas escolas: eles dispersam e prejudicam a aprendizagem”. O Estadão está pouco se lixando para o ensino, na verdade, acha que o governo nem deveria construir escolas.





