O editorial publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo no último dia 28 de fevereiro, intitulado Ninguém vai chorar pelo Irã, escancara a hipocrisia das campanhas contra o chamado “discurso de ódio”. Enquanto a grande imprensa e o Judiciário se unem para ditar o que pode ou não ser dito na Internet, sob o pretexto de proteger a “democracia” e a “civilização”, o jornal da família Mesquita demonstra que, quando o alvo é um povo oprimido pelo imperialismo, o ódio não apenas é permitido, como é a regra.
O texto do Estadão é uma celebração antecipada do massacre. Ao afirmar que “ninguém no mundo civilizado vai chorar pelo Irã”, o jornal remove a humanidade de 90 milhões de iranianos. Para o editorialista, não existem mulheres, crianças, trabalhadores ou jovens no Irã; existe apenas um “Estado pária” que merece ser bombardeado. Isso é o que pode se chamar de estímulo ao ódio: a desumanização do outro para justificar o seu extermínio. No entanto, você não verá nenhuma agência de fact-checking ou nenhum ministro do STF derrubando o sítio do jornal ou bloqueando suas contas por “incitação à violência”.
Fica evidente que a campanha contra o discurso de ódio e as “fake news” é uma farsa monumental. Trata-se de uma ferramenta de censura seletiva projetada fundamentalmente para calar a esquerda e os movimentos populares que denunciam os crimes dos Estados Unidos e de “Israel”. Quando um militante critica o sionismo, é acusado de “ódio”; quando o Estadão diz que o mundo agradecerá se um regime for derrubado por bombas estrangeiras — ignorando o rastro de sangue e caos que isso deixou no Iraque, na Líbia e no Afeganistão — isso é chamado de “clareza moral”.
O editorial chega ao cúmulo de endossar o discurso de Donald Trump e Benjamin Netaniahu, apresentando a agressão militar como uma “oportunidade de liberdade”. O jornal também estabelece que o Irã não pode ter armas nucleares “em hipótese alguma”, mas não gasta uma linha para questionar as milhares de ogivas dos EUA, o único país a usar tal arma contra civis, ou o arsenal secreto de “Israel”.
O episódio serve de alerta para a esquerda pequeno-burguesa que, tolamente, aplaude medidas de censura na Internet. A corda sempre estoura no lado mais fraco. Enquanto a grande imprensa goza de salvo-conduto para destilar seu ódio fascista contra as nações que não se curvam ao grande capital, o cidadão comum e as organizações revolucionárias são punidos simplesmente por existir.
Não existe “regulação do discurso” que seja neutra. No fim das contas, a burguesia utiliza o pretexto do “combate ao ódio” para pavimentar o caminho da censura, enquanto ela mesma, em seus editoriais suntuosos, clama por bombas.





