A política do governo Lula de repetir, dia após dia, que “vai tudo muito bem” começa a esbarrar em um problema incontornável: a realidade. Por mais que o governo insista em apresentar índices favoráveis de emprego, aumento da massa salarial e outros números oficiais como prova de uma situação econômica sólida, os fatos que se acumulam diante da população apontam em outro sentido. A crise no varejo, os problemas no sistema bancário e a expansão do subemprego mostram que o País está longe da bonança apresentada pela propaganda oficial.
O pedido de recuperação extrajudicial do Pão de Açúcar é um desses fatos eloquentes. Trata-se de uma das maiores redes varejistas do País, com quase R$5; bilhões em dívidas e dificuldades declaradas para manter sua operação. Não estamos falando de um pequeno comércio de bairro, esmagado pelas circunstâncias locais, mas de uma gigante do setor, ligada ao grande capital, com relações estreitas com os principais bancos. Se até uma empresa desse porte entra em colapso, fica difícil sustentar a conversa fiada de que a economia brasileira atravessa um momento especialmente favorável.
A explicação para isso é simples: as estatísticas oficiais estão em contradição com a vida concreta da população. O governo apresenta a menor taxa de desemprego da história como se isso, por si só, resolvesse a questão social. Mas o que se esconde atrás desse número? Em primeiro lugar, milhões de pessoas em idade de trabalhar que já desistiram de procurar emprego, ou sequer tentam mais porque sabem que não encontrarão nada. Em segundo, uma massa gigantesca de trabalhadores empurrados para formas miseráveis de sobrevivência, incluídos nas estatísticas como “ocupados” apenas porque vendem alguma coisa na rua, recolhem latinhas, fazem bicos ou conseguem algumas horas de atividade econômica por semana.
Essa é a grande maquiagem do regime político atual, que não começou com o governo Lula, mas da qual o Partido dos Trabalhadores (PT) se tornou propagandista. Desde o avanço do neoliberalismo, o aparelho estatal desenvolveu mecanismos cada vez mais sofisticados para ocultar a deterioração social. Em vez de revelar a exclusão de amplas camadas da população, as estatísticas passaram a diluí-la, classificando como emprego o que, na prática, é apenas miséria administrada. O sujeito que vende cachorro-quente na estação, que revende mercadoria na praia ou que faz um frete ocasional aparece no número oficial como alguém “integrado” à economia. Mas todo mundo sabe que isso não corresponde a um emprego de verdade, nem a uma condição minimamente estável de vida.
Ao insistir nesse tipo de propaganda, o PT presta um desserviço enorme aos trabalhadores. Em uma época marcada pela ofensiva neoliberal da direita e do imperialismo, dizer que “está tudo bem” não fortalece o povo; pelo contrário, o desarma. Desarma porque cria a ilusão de que não há necessidade de mobilização independente, de luta contra os bancos, contra o grande capital, contra o arrocho e contra a destruição das condições de vida. Se a economia vai bem, como diz o governo, então por que lutar? Se o desemprego estaria em baixa histórica, por que organizar os milhões de precarizados? Se os resultados seriam tão positivos, por que enfrentar a política de submissão aos interesses do mercado?
É justamente aí que mora o problema central. O governo Lula pode até ter produzido alguma melhora pontual em determinados indicadores, comparado ao desastre aberto dos governos anteriores. Mas essa melhora é pequena, limitada e insuficiente diante da dimensão da crise nacional. O que existe de positivo é apresentado como se fosse uma transformação estrutural, quando não passa de um alívio modesto e instável em um quadro geral de decadência.
Está cada vez mais difícil esconder que a economia vai mal. E quanto mais o governo insiste em negar o óbvio, mais se compromete com a farsa estatística e com a política de desarmar o povo diante da ofensiva inimiga. A realidade, cedo ou tarde, cobra seu preço. E nenhuma maquiagem é capaz de impedir isso.





