A condenação do presidente do PSTU a dois anos de prisão, na semana passada, por ter pronunciado a palavra de ordem “Palestina, do rio ao mar” marca um ponto de inflexão no ataque às liberdades democráticas no Brasil.
Apesar de absurda e contrária à Constituição Federal, a medida não é um caso isolado, mas parte de uma ofensiva mais ampla, conduzida pela Confederação Israelita do Brasil (Conib) e por demais organizações sionistas que atuam no País, com apoio direto ou omissão de setores importantes da política, da imprensa e do Judiciário. O método não consiste em prender milhares de pessoas de uma só vez, mas em escolher casos exemplares, mover processos, distribuir ameaças e fazer com que cada militante, jornalista, professor ou estudante hesite antes de denunciar o massacre do povo palestino.
A política do sionismo no Brasil é a intimidação. Não se trata de convencer a população, pois o sionismo não tem argumentos para justificar o genocídio na Faixa de Gaza. Trata-se de produzir medo. As denúncias ao Ministério Público, as ameaças de “medidas legais cabíveis”, as campanhas de difamação nas redes sociais e a acusação automática de antissemitismo contra qualquer crítica ao Estado de “Israel” fazem parte de uma mesma operação política para calar o povo.
O projeto da deputada Tábata Amaral, que pretende transformar a crítica ao sionismo em crime ao equipará-la ao antissemitismo, é a expressão legislativa dessa ofensiva. Não é por acaso que, em sua versão inicial, o texto tenha contado com assinaturas de deputados do PT, retiradas apenas depois que a manobra se tornou escandalosa demais para ser sustentada publicamente.
A pergunta que fica é por que o movimento de defesa da Palestina no Brasil, apesar do amplo apoio que a causa palestina possui entre os trabalhadores e em setores expressivos da população, permanece tão frágil diante desse ataque. A resposta está nos partidos que se apresentam como esquerda e impedem, na prática, a organização de um movimento independente e combativo.
O PT é o principal responsável por essa fragilidade. Sua política em relação ao sionismo é de promiscuidade: convive com ele, negocia com ele e oferece a estrutura do Estado para suas organizações.
O Itamaraty promoveu, em pleno genocídio na Faixa de Gaza, um seminário com organizações sionistas sob o pretexto de tratar do antissemitismo. Naquele momento, o governo brasileiro colocou-se a serviço da divulgação da ideologia sionista, enquanto Gaza era reduzida a escombros pelas tropas de “Israel”. A denúncia partiu inclusive de membros do próprio PT, mas o partido, como organização, não tomou nenhuma medida.
O líder do PT no Congresso, Jaques Wagner, é sionista declarado. Defendeu publicamente o extermínio do Hamas e a manutenção do Estado de “Israel”, sem ser confrontado pela direção petista. Existe oposição ao sionismo dentro do PT, entre as bases e até entre setores parlamentares. Essa oposição, no entanto, é abafada e contida pela direção. O resultado é que a maior agremiação da esquerda brasileira atua, na prática, como cúmplice da política sionista no País.
O PSOL segue o mesmo caminho. Quando o presidente Lula afirmou, no início do genocídio, que a ofensiva de “Israel” contra Gaza era efetivamente um genocídio, a Conib e seus aliados lançaram-se contra ele. Questionado sobre o assunto, Guilherme Boulos respondeu que não era candidato a prefeito de Telavive.
A frase foi uma das maiores demonstrações de covardia política da história do País. Boulos não teve coragem nem mesmo de defender o presidente da República, de cujo governo se tornaria ministro pouco depois. Recuou diante do sionismo na primeira pressão e o fez por cálculo eleitoral.
O PSOL e o PCdoB seguem a mesma cartilha: ora silenciam, ora produzem declarações vazias, sempre preocupados em não desagradar aos poderosos. A consequência dessa postura é que o movimento de defesa da Palestina no Brasil, que poderia ser um dos maiores do mundo dada a tradição de solidariedade do povo brasileiro e a presença de uma importante comunidade palestina no País, encontra-se contido, fragmentado e sem direção unificada.
Cada ato é convocado ou desconvocado conforme as conveniências eleitorais dos partidos que se apresentam como esquerda. Cada manifestação é esvaziada por orientações que pedem “moderação”, “equilíbrio” e “respeito às sensibilidades”. Enquanto isso, o genocídio prossegue, a Conib amplia seus ataques e a Justiça brasileira condena militantes por palavras de ordem.
A tarefa dos verdadeiros defensores da causa palestina no Brasil é romper com essa política. Não há defesa da Palestina compatível com promiscuidade com o sionismo. Não há denúncia do genocídio compatível com silêncio diante dos ataques à liberdade de expressão no Brasil.
A defesa da Palestina exige enfrentar o sionismo onde ele atua. No Brasil, ele atua com a cumplicidade ativa ou passiva do PT, do PSOL, do PCdoB e de demais partidos que se apresentam como esquerda. Romper esse cerco é essencial para que o movimento de solidariedade esteja à altura da tragédia palestina e da tradição de luta do povo brasileiro.





