Política nacional

Esquerda não entende o bolsonarismo e reduz política a torcida

Articulista do Brasil 247 revela falência de uma esquerda que já não quer mobilizar o povo

Em artigo publicado nesta sexta-feira (14) no Brasil 247, Moisés Mendes sustenta que Jair Bolsonaro continuará sendo protagonista da eleição “vivo, na cadeia, em casa, ou já morto e cremado”, e transforma toda a discussão política em torno de um apelo quase supersticioso: não deixar Bolsonaro morrer antes do pleito. O texto aparece no momento em que Flávio Bolsonaro voltava a defender um novo pedido de prisão domiciliar “humanitária” para o ex-presidente, após a internação.

O problema do artigo não está apenas no tom. Está, antes de tudo, na completa incompreensão do que seja o bolsonarismo. Moisés Mendes escreve como se estivesse diante de um fenômeno absurdo, meio grotesco, quase inexplicável, que sobrevive por capricho da história, pela esperteza da família Bolsonaro ou pela morbidez da conjuntura. Trata tudo com um ar de deboche, como se a persistência do bolsonarismo fosse uma anomalia que desafia a razão. Mas não há mistério nenhum aí.

O bolsonarismo é perfeitamente explicável. Não se trata de um delírio individual de Bolsonaro, nem de uma patologia social sem causa. Trata-se de um movimento de massas de direita, com base social real, linguagem própria, lideranças reconhecidas e capacidade de mobilização.

E por que um movimento assim cresce? Porque a esquerda, em vez de organizar os trabalhadores em torno de um programa independente, foi se adaptando cada vez mais à política neoliberal, às instituições do regime e à pressão do imperialismo. Quando a esquerda abandona a luta consequente contra a burguesia, contra a destruição dos direitos sociais e contra a submissão nacional, abre espaço para que a extrema direita apareça, fraudulentamente, como força “anti-sistema”. Esse é o terreno onde o bolsonarismo se desenvolve. Não é um raio em céu azul. É produto de uma crise política profunda, agravada pela capitulação da esquerda.

Por isso o deboche de Moisés Mendes é tão revelador. Ele ironiza o fenômeno porque não o compreende. E não o compreende porque encara a política do alto, como disputa de personagens, operações policiais, decisões de gabinete e humores eleitorais. O povo entra no texto apenas como plateia, e não como principal agente político, muito menos como classe social ou força que possa ser organizada, mobilizada e colocada em movimento contra a extrema direita.

No lugar disso, surge a sua grande “política”: a política do torcedor. É preciso torcer para que Bolsonaro não morra. Torcer para que Moraes não erre a mão. Torcer para que a prisão não produza comoção. Torcer para que a eleição não se complique. Torcer, torcer e torcer. A política deixa de ser ação organizada e vira administração nervosa dos efeitos do inimigo.

Esse é o ponto mais grave do artigo. Moisés Mendes reconhece, na prática, que Bolsonaro ainda inspira, lidera e comanda setores amplos da direita, mesmo preso e doente, exatamente como ele próprio escreve. Mas, diante disso, sua conclusão não é a necessidade de uma ofensiva política da esquerda sobre as massas. Não é denunciar o regime que alimentou a extrema direita. Não é mobilizar a população trabalhadora com um programa próprio. Sua conclusão é quase clínica: mantenham o paciente respirando, porque sua morte pode atrapalhar o jogo.

Uma esquerda reduzida a esse papel já desistiu de disputar as massas. Passou a enxergar a luta política como quem acompanha uma partida da arquibancada, rezando para que o placar não piore.

É justamente essa ausência da esquerda como força militante que ajuda a entender a força persistente do bolsonarismo. Quando a esquerda renuncia a dirigir o descontentamento popular contra os verdadeiros responsáveis pela crise, a burguesia, o imperialismo, os grandes monopólios, a direita ocupa esse espaço à sua maneira, com muita demagogia.

Moisés Mendes parece escandalizado com o fato de Bolsonaro continuar politicamente vivo. Mas isso só parece inexplicável para quem passou anos acreditando que decisões judiciais, desgaste pela imprensa e deterioração física bastariam para acabar com um movimento de massas. Não bastam. Um fenômeno dessa natureza não é eliminado por acidente biológico, por decisão monocrática ou por torcida eleitoral. Ele só pode ser derrotado politicamente por uma esquerda que exista de fato, que fale com o povo e que enfrente a burguesia sem se adaptar a ela.

No fundo, o artigo de Moisés Mendes é o retrato de uma esquerda desarmada. Ela não sabe explicar o inimigo, por isso zomba dele. Ela não sabe combatê-lo, por isso teme seus reflexos. Ela não confia na mobilização popular, por isso se apega às manobras do alto. E, incapaz de oferecer uma saída, transforma a política em torcida para que Bolsonaro não morra antes da hora.

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