O artigo Estamos sendo mortas como moscas, nos precisamos vivas como nunca, de Dani Conte, publicando no sítio Esquerda Online no sábado (31), revela, sem o saber o impasse no qual se colocou a esquerda pequeno-burguesa na luta pelos direitos das mulheres, a começar pela nomenclatura. O que era antes o Dia Internacional da Mulher virou 8M, a palavra ‘mulher’ sumiu.
Desde a infiltração do identitarismo na esquerda as mulheres têm perdido espaço. Mulher, para alguns, é um construto social (um tipo de ‘invenção’), já se confunde com pessoas que menstruam, pessoas que engravidam, ou coisa que o valha. Em alguns lugares, até mesmo os banheiros femininos deixaram de ser privativos, basta que qualquer pessoa se identifique como mulher para obter o direito de frequentá-los.
No primeiro parágrafo, a articulista diz o seguinte: “estamos sendo mortas como moscas. Essa é a única frase que descreve a epidemia de feminicídios que vive o Brasil. No Rio Grande do Sul, uma mulher foi assassinada a cada dois dias no mês de janeiro, quase todas com facadas, o que sublinha a motivação de gênero. Talvez possamos considerar que não há nenhuma novidade até aqui”. – grifo nosso.
A pretensa segurança das mulheres foi utilizada para desarmar a população. À época, dissemos que não era isso que diminuiria a violência. Alguns pacifistas incorrigíveis de plantão virão dizer que se houvesse mais armas de fogo circulando a coisa seria pior. Não conseguem enxergar que o problema é de outra natureza, é social.
Os mesmos que militavam pelo desarmamento pediam penas mais duras, a tipificação de feminicídio como agravante e o resultado foi que isso não resolveu porque, de novo, a questão é outra.
Direitização
A campanha por aumento de penas é típica da direita, tanto é verdade que a extrema direita já está se sentindo à vontade para defender a bandeira. Conte reclama que no “no 8 de março de Porto Alegre, partidos com PL e NOVO estão na organização de um ato contra os feminicídios, que ocorrerá no mesmo dia que o ato da esquerda”. Diz ainda que “o candidato ao governo do estado, deputado federal Zucco, do PL, entrou no debate com um vídeo com a consigna ‘Chega de luto, é preciso coragem’. Uma frase vazia, mas que prepara o território para o processo eleitoral”.
Essa esquerda não pode reclamar de frase vazia, pois costuma utilizar outras do tipo “Ele não”, sem especificar ‘ele quem’. O que deixou a porta aberta para a direita.
No mesmo parágrafo a autora diz que “A ausência de proposta concreta de Zucco não se contradiz com o aspecto mobilizador da mesma [da frase]”. E que “o prefeito Sebastião Mello também se inseriu no debate com um chamado a romper o ciclo de violência. Vídeos coordenados, com poucas horas de intervalo um do outro. A deputada Delegada Nadine (PSDB), ex-chefe de polícia do Estado, apresentou projeto na ALRS para que as mulheres possam acessar os dados judiciais das pessoas com quem se relacionam”. O que, segundo a articulista, é “uma política que individualiza o problema, que fere um conjunto de direitos de proteção de dados pessoais e que só tem efeito para a agitação de uma lógica policialesca, de endurecimento penal, sem combater a raiz da violência que é estrutural”. Mas, em que isso difere das propostas da esquerda identitária? É a mesma política.
Tanto são similares que a própria Dani Conte foi obrigada a admitir que “alguns setores progressistas viram a proposta com bons olhos”. Ela diz que “no meio do caos e da violência diária, das notícias de mais uma assassinada a cada abrir de olhos, o primeiro efeito pode ser de suposta proteção”. Exatamente a política reativa da maioria da esquerda.
Para tentar fugir da contradição, a articulista precisa se abrigar na falácia identitarista, diz que “não podemos perder o foco de que a violência de gênero é estrutural e é apoiada por esses partidos, que invalidam as pautas históricas das mulheres, que alimentam a misoginia e a LGTBfobia”. Misogina, “fobia”, nada mais são que subterfúgios para se aumentar a repressão.
Disputa eleitoral
Para o Esquerda Online, o que moveria a extrema direita em direção às mulheres é que estas supostamente teriam produzido “um ‘cordão sanitário’ ao avanço da extrema-direita, há um giro deste setor para a disputa político-programática das mulheres”.
Enquanto essa gente se preocupa com eleições, a direita vem comendo pelas beiradas há tempos, principalmente porque existe uma grande rejeição ao identitarismo na sociedade.
Esquerda sem programa
O texto reclama que Michele Bolsonaro e a extrema direita se apropriaram de “pautas históricas do movimento feminista”, mas a verdade é que foi essa esquerda, sob influência do identitarismo, que abandonou suas bandeiras.
Para piorar, não estamos vendo um movimento para a retomada das reivindicações pelos direitos das mulheres, em vez disso, a esquerda pequeno-burguesa recua e faz propostas inócuas e que não mobilizam as mulheres trabalhadoras.
A “proposta”, segundo a autora, é que “os atos do 8M da esquerda têm que dialogar com as mulheres não organizadas em coletivos políticos. É hora de denunciar o assassinato e todas as perdas que tivemos e de celebrar a vida. Nossos atos não podem ser marchas fúnebres. Precisam mostrar que a luta política não reproduz as agruras da vida cotidiana e que ela tem espaço para a alegria. Nosso projeto não é apenas lembrar nossos mortos, mas de celebrar todas nós que seguimos vivas (…) Nosso programa é encontrar nessa relação a vida que queremos ter”.
Como se pode ver, uma reivindicação abstrata que não vai ser atropelada pela extrema direita que está dizendo que a mulher tem “direito ao trabalho, à realização pessoal, [e] à evolução profissional”.
Uma esqueda aburguesada, medrosa, não tem a menor chance de conquistar a classe trabalhadora.




