A sessão do Supremo Tribunal Federal de terça-feira (15) provocou reação também fora do tribunal. Em Brasília, houve protesto contra o ditador Moraes. Nas redes sociais, usuários passaram a citar as manifestações ocorridas no Nepal em 2025 como exemplo de reação contra instituições desacreditadas.
O ato em frente ao Congresso reuniu apoiadores da direita e parlamentares bolsonaristas. Manifestantes exibiram uma montanha de dinheiro falso, cartazes sobre os R$131 milhões do contrato firmado entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes (embora tenham sido mais de R$200 mi) e uma bandeira em que o ministro aparecia preso.
Ao mesmo tempo, “Nepal” entrou entre os assuntos mais comentados do X no Brasil. A comparação apareceu em publicações sobre a crise do STF e sobre as trocas de mensagens entre os sócios Vorcaro e Moraes.
O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) também incentivou novas manifestações:
“Próxima sessão do STF o Brasil deveria parar e ir pras ruas. De preto, em luto por esse país. Um telão e a indignação das pessoas. E só.”
Os episódios ainda não configuram uma mobilização nacional. Mostram, porém, que setores bolsonaristas perceberam a possibilidade de transformar o desgaste do Supremo em bandeira de mobilização política de massas.
Um terreno abandonado pela esquerda
A indignação contra o STF não nasce de um problema artificial.
O caso Banco Master expôs como a Corte Suprema é um verdadeiro balcão de negócios. A própria sessão desta terça foi implodida pela quadrilha de Moraes na tentativa de postergar as investigações contra ele.
Esse episódio evidencia um problema mais amplo: STF, Procuradoria-Geral da República, Polícia Filial, Ministério Público e o Judiciário de conjunto formam parte de um aparelho estatal ilegítimo que concentra grande poder sem o menor controle popular, ficando, portanto, totalmente à mercê dos interesses capitalistas.
A posição histórica de uma esquerda de classe deveria ser a oposição a esse poder e a defesa das liberdades democráticas contra qualquer setor do Estado.
É justamente essa posição que a esquerda brasileira jogou na lata do lixo.
Ao apoiar medidas judiciais contra o bolsonarismo, a maioria esmagadora da esquerda passou a defender ações do STF que deveria condenar como abusivas e combater. Prisões, bloqueios de contas, retirada de publicações e restrições à liberdade de expressão receberam apoio porque atingiam adversários da direita.
Com isso, abriu-se um espaço político evidente.
Quem passou a aparecer como adversário do arbítrio judicial foi a própria extrema direita.
O problema do Nepal
As referências ao Nepal também revelam outro risco.
Em 2025, protestos derrubaram o governo de Khadga Prasad Oli depois de uma explosão de descontentamento que envolvia corrupção, desigualdade, falta de oportunidades e o bloqueio de redes sociais.
Aquele processo foi revolução colorida, isto é, uma mobilização social manipulada pelo imperialismo para atender aos seus próprios interesses, e não aos da população nepalesa.
Essa caracterização é importante porque mostra que uma revolta popular pode nascer de problemas reais e, ainda assim, ser conduzida para uma saída que preserve no essencial a ordem existente.
O mesmo perigo existe no Brasil.
O bolsonarismo pode explorar o descontentamento com o STF, mas não representa uma política independente da burguesia nem do imperialismo. Por isso, uma mobilização dirigida por ele pode terminar em mudanças superficiais, troca de personagens ou medidas ainda mais reacionárias, sem alterar o poder das instituições contra as quais a população se revoltou.
O espaço que a direita ganhou
Esse é o custo da política adotada pela esquerda.
Em vez de organizar o descontentamento contra o poder do Judiciário com uma política própria, democrática e ligada aos interesses dos trabalhadores, a esquerda se associou ao STF porque o tribunal perseguia seus adversários.
A consequência é que uma revolta legítima contra instituições profundamente corrompidas, patronais e desgastadas começa a ser disputada pela extrema direita.
Se a insatisfação com o STF crescer e for organizada exclusivamente pela direita, não será porque faltou descontentamento entre os trabalhadores.
Será porque a esquerda deixou esse terreno livre.





