O artigo publicado por Liszt Vieira no Brasil 247, intitulado EUA – guerra civil ou tirania?, é mais um exemplo clássico da confusão política da esquerda pequeno-burguesa que, mesmo diante da decomposição do regime imperialista norte-americano, insiste em apresentar a figura de Donald Trump como o centro do mal absoluto. A tese é a de sempre: Trump seria um tirano, uma ameaça autoritária sem precedentes, que levaria os Estados Unidos rumo ao fascismo ou à guerra civil.
Segundo Vieira, Trump seria um caso único de degeneração moral e política. Um presidente “louco”, à beira do colapso psicológico, que ameaça transformar a democracia norte-americana numa tirania. Balela. Essa é a velha ladainha de que o problema do imperialismo é o “presidente errado”. Como se os Estados Unidos fossem um paraíso democrático que de tempos em tempos comete o deslize de eleger um “populista autoritário”.
Ora, essa é uma ilusão grotesca. Todo presidente dos Estados Unidos é, por definição, um agente do imperialismo. O que muda, no máximo, é o setor da burguesia a que ele responde. Trump não é mais nem menos autoritário do que seus antecessores. O que incomoda em Trump, na verdade, é que ele representa um setor da burguesia norte-americana que está em contradição com o bloco dominante do imperialismo.
Ao contrário do que Vieira sustenta, Trump não inventou a repressão, a violência estatal, os campos de detenção de imigrantes, a política externa agressiva. Tudo isso já existia muito antes de sua chegada ao poder. Barack Obama, o queridinho da “democracia liberal”, foi o campeão de deportações e um dos maiores bombardeadores da história recente. Biden seguiu a cartilha imperialista à risca, levando adiante a guerra na Ucrânia, iniciando a guerra contra Gaza, promovendo sanções e ameaçando diretamente a China.
A diferença de Trump é que ele representa setores da burguesia industrial norte-americana que estão sendo devorados pela política neoliberal . Por isso, ele se opôs à guerra na Ucrânia, intermediou um cessar-fogo em Gaza e defende uma política protecionista — não por amor à paz ou à justiça, mas porque essas políticas favorecem um setor mais fragilizado da economia dos EUA.
Vieira tenta pintar um cenário quase apocalíptico, falando em guerra civil, tropas nas ruas, colapso do Estado. Mas ignora que todos os sintomas que ele aponta — polarização, repressão, uso da força — já fazem parte do cotidiano do regime norte-americano há décadas. A repressão estatal é parte do regime nos EUA. O que se agrava agora não é a suposta “tirania trumpista”, mas as contradições internas de um império em crise.
A verdade é que os conflitos internos nos EUA expressam uma disputa feroz entre frações da burguesia norte-americana: de um lado, o setor financeiro, representado por Biden e o Partido Democrata; do outro, um setor industrial, representado por Trump e os republicanos “populistas”. Essa disputa é resultado da decadência do imperialismo, que já não consegue manter coesa a sua própria casa.
A histeria da esquerda liberal contra Trump é o reflexo da sua adaptação ao imperialismo “civilizado”. Trump, com seu estilo tosco, sua retórica agressiva e sua imprevisibilidade, rompe com o decoro hipócrita do imperialismo. Ele não é mais violento, nem mais autoritário. Ele apenas diz em público o que seus antecessores faziam em silêncio.
E mais: por representar um setor mais frágil da burguesia, Trump provoca mais resistência da parte do imperialismo dominante, que tenta desestabilizá-lo com campanhas de imprensa, processos judiciais, sabotagens institucionais. Quando Joe Biden bombardeia o Iêmen, é “defesa da democracia”. Quando Trump critica a guerra na Ucrânia, é “ameaça fascista”.





