A ocupação da Cisjordânia vem sendo aprofundada por uma combinação de violência direta de colonos, ação das tropas da entidade sionista e medidas administrativas que ampliam o controle territorial. Nas últimas semanas, ministros do governo sionista impuseram decisões que alteram regras de registro e disputa de terras e facilitam demolições, inclusive em áreas que, pelos acordos existentes, estariam sob administração palestina.
Um caso relatado na região de al-Mghayyer, no centro da Cisjordânia ocupada, expressa o método. Fidda Mohammad Naasan, de 50 anos, disse que foi atacada durante a madrugada de 7 de dezembro, quando colonos invadiram sua casa na área de al-Khalayel, nos arredores da aldeia. “Eu estava dormindo no meu quarto com meu neto de 13 anos ao meu lado. À 1h30, um grupo de cinco colonos entrou no quarto, todos mascarados e com tubos. Eles me bateram na testa até eu perder a consciência”, declarou.
Segundo Naasan, a agressão resultou em internação por dois dias e em um procedimento de cateterismo, após complicações cardíacas e forte alta de pressão. Um sobrinho teve cortes na cabeça e precisou levar seis pontos. Ela relatou ameaças durante a agressão: “enquanto me batia, o colono não parava de gritar: ‘você não quer ir embora? Se não for embora, nós vamos matar vocês’”. Naasan afirmou que respondeu apenas para interromper a violência: “eu menti e disse que ia embora, só para ele parar de me bater”.
A família foi expulsa duas vezes em quatro anos. Viviam em terras na área de Wadi Daliyeh, ao sul da aldeia de Fasayil, no vale central do Jordão, região com fonte de água e áreas de pasto utilizadas por criadores que dependem do rebanho para a renda. Dali, foram expulsos por colonos, indo para perto de Turmusayya, no centro da Cisjordânia. Pouco antes do aprofundamento do genocídio em Gaza, em outubro de 2023, Naasan relatou que um colono matou 15 ovelhas da família ao atropelá-las com um veículo, o que obrigou nova saída. A família então comprou um terreno nos arredores de al-Mghayyer, a leste de Ramala, onde vive hoje.
Mesmo após a mudança, ela descreveu ataques diários e pressões para abandonar a área. “Tanto os soldados quanto os colonos continuam mandando a gente ir embora”, disse. Segundo seu relato, após recusar a ordem, ouviu de um soldado: “você vai ver outra face minha”. A resposta, afirmou, foi: “nós já vimos essa face há muito tempo. Ninguém vai embora”. Naasan disse que incursões ocorrem “pelo menos três vezes por dia, inclusive à noite”.
Desde 7 de outubro de 2023, cerca de 10 mil palestinos foram deslocados internamente na Cisjordânia, com aldeias esvaziadas. Soma-se a isso o deslocamento de mais de 30 mil palestinos de campos de refugiados em Jenin, Tulcarém e Nur Shams, durante uma operação militar iniciada em janeiro de 2025, descrita como o maior deslocamento em uma única operação desde a guerra de 1967. No mesmo período, mais de 1.000 palestinos foram assassinados, quase um quarto deles crianças. Já no início de 2026, ainda segundo a OCHA, quase 700 palestinos foram deslocados, afetando nove aldeias e comunidades de pastores.
A divisão territorial imposta pelos Acordos de Oslo, assinados em 1993 e 1995, facilitou a expansão dos assentamentos. Com Oslo, a Cisjordânia foi fragmentada em Áreas A, B e C. A Autoridade Palestina (AP) passou a controlar, formalmente, assuntos civis e de segurança na Área A, e apenas civis na Área B, onde se concentra a maior parte dos cerca de três milhões de palestinos, comprimidos em cidades, vilas e aldeias. A entidade sionista manteve controle total da Área C, mais de 60% do território, onde estão a maior parte das terras agrícolas, áreas de pasto, recursos hídricos e fronteiras externas — e onde se encontra a maioria dos mais de 200 assentamentos ilegais, além de bases e infraestrutura militar. O resultado foi bloquear o desenvolvimento palestino e acelerar expulsões em comunidades rurais e de pastores.
A população de colonos na Cisjordânia triplicou em três décadas. Hoje, cerca de 750 mil israelenses vivem ilegalmente em assentamentos erguidos em e ao redor de cidades e aldeias palestinas, fragmentando o território em cantões.
Nos últimos meses, autoridades do governo sionista passaram a defender abertamente a anexação unilateral da Cisjordânia, com projetos de lei no parlamento. O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, defende a fórmula: “máximo território, mínima população”.
Jamal Jumaa, coordenador da campanha Stop the Wall e membro da secretaria do Comitê Nacional de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), afirmou que a Cisjordânia está sendo “limpa etnicamente, fragmentada e anexada em todos os sentidos”. “Neste momento, ‘Israel’ tenta anexar a maior área possível da Cisjordânia ocupada”, disse. “Eles fazem isso forçando os palestinos a se deslocar para centros de população. Estão empurrando as pessoas da Área C para as Áreas B e A”. Jumaa acrescentou que, após a guerra em Gaza, a política “se intensificou gravemente” e que ataques passaram a atingir não só a Área C, mas também a Área B e “até a Área A, às vezes”.
Na semana passada, Ajith Sunghay, chefe do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos nos Territórios Palestinos Ocupados, reafirmou que “o deslocamento forçado de palestinos dentro da Cisjordânia ocupada é um crime de guerra e pode constituir um crime contra a humanidade”.
Paralelamente às operações em campo, decisões recentes do gabinete de “segurança” foram criticadas por governos e blocos internacionais. Chanceleres de Egito, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Indonésia, Paquistão, Turquia, Arábia Saudita e Catar divulgaram uma condenação conjunta, alertando que as medidas visam expandir assentamentos e criar uma nova realidade legal e administrativa em território palestino ocupado. No texto, os ministros afirmam que essas decisões aceleram a anexação ilegal e o deslocamento da população, violando o direito internacional, e sustentam que “Israel” não tem soberania sobre os territórios ocupados. A declaração menciona a Resolução 2334 do Conselho de Segurança da ONU e a opinião consultiva de 2024 da Corte Internacional de Justiça (CIJ), que considerou ilegais as políticas e práticas da entidade sionista nos territórios ocupados e sua presença continuada ali, apontando a necessidade de encerrar a ocupação e rejeitar anexações.
Ministros como Israel Katz e Bezalel Smotrich promoveram um conjunto de decisões que fortalece uma anexação “de fato”, com mudanças em registro e aquisição de terras e ampliação de instrumentos para demolições, inclusive na Área A. Entre as medidas está a retirada de restrições de confidencialidade sobre registros fundiários, ampliando o acesso de autoridades sionistas a documentos de propriedade e facilitando intervenção estatal em disputas.




