Economia

Enquanto endividamento bate recorde, cartel bancário lucra horrores

Itaú, Bradesco e Santander lucraram R$22,6 bilhões em apenas três meses, enquanto 84,2 milhões de brasileiros acumulam dívidas atrasadas

Os três maiores bancos privados do Brasil, Itaú, Bradesco e Santander, registraram lucro líquido de R$22,61 bilhões no terceiro trimestre de 2026. O resultado representa um crescimento de 2,4% em relação ao mesmo período do ano passado. Enquanto os banqueiros acumulam fortunas, 84,2 milhões de brasileiros estão inadimplentes, o maior número já registrado pela Serasa.

Os balanços, divulgados no início de novembro, mostram que o Itaú lucrou R$12,6 bilhões entre julho e setembro, o Bradesco, R$7,1 bilhões, e o Santander, R$2,9 bilhões. Juntas, as três instituições arrecadaram R$70,9 bilhões em margem financeira, resultado das operações de crédito e outras atividades financeiras, descontados os respectivos custos de captação.

Somente o Itaú obteve um retorno sobre o patrimônio líquido de 23,6%. O Bradesco registrou 15,6% e o Santander, 11,9%. São números que revelam a extraordinária rentabilidade do sistema bancário brasileiro, mesmo diante das dificuldades econômicas enfrentadas pela população.

O contraste com a situação dos trabalhadores é brutal. Segundo levantamento da Serasa, divulgado em 2 de novembro, o País chegou a 84,2 milhões de pessoas com dívidas atrasadas em setembro. Esse contingente corresponde a 51,1% da população adulta, ultrapassando pela primeira vez a metade dos brasileiros nessa faixa etária.

As dívidas em atraso alcançaram R$ 597,4 bilhões. Cada inadimplente deve, em média, R$7.093,83, valor equivalente a mais de quatro salários mínimos. Desde 2020, o número de brasileiros negativados cresceu 34,17%.

Os próprios bancos aparecem entre os principais responsáveis por esse endividamento. Cartões de crédito e instituições bancárias concentram 27,16% dos débitos registrados, enquanto as financeiras respondem por outros 20,66%. Juntas, essas categorias representam quase metade das pendências.

O povo trabalha para pagar os bancos

A Confederação Nacional do Comércio (CNC) divulgou, na quinta-feira (5), que 81,6% das famílias brasileiras estavam endividadas em outubro. Embora tenha havido uma pequena redução em relação a setembro, o percentual permanece em patamar historicamente elevado.

A inadimplência atinge 29,3% das famílias, chegando a 38,6% entre aquelas com renda de até três salários mínimos. Nesse grupo, 18,3% afirmam não ter condições de quitar suas contas atrasadas.

A situação é agravada pela política monetária do Banco Central. Na quarta-feira (4), o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu manter a taxa Selic em 13,75% ao ano. Trata-se de uma das taxas básicas de juros mais elevadas do mundo.

Entre junho de 2025 e março de 2026, a Selic permaneceu em 15% ao ano. Mesmo depois dos cortes realizados pelo Banco Central, os juros continuam impondo enormes dificuldades ao consumo, à produção e ao pagamento das dívidas.

O problema não se resume aos cartões de crédito. As pequenas empresas também enfrentam o encarecimento dos empréstimos, enquanto as instituições financeiras restringem o crédito para os consumidores de menor renda.

Os dados sociais mostram as consequências das dificuldades enfrentadas pela população. Segundo o IBGE, em 2024, 23,1% dos brasileiros viviam abaixo da linha de pobreza e 3,5% estavam na extrema pobreza. Embora esses índices tenham recuado nos últimos anos, dezenas de milhões de pessoas continuavam sem rendimentos suficientes para atender às necessidades básicas.

No mesmo ano, 18,9 milhões de domicílios enfrentavam algum grau de insegurança alimentar. Em 3,2% dos lares, a situação era grave, caracterizada pela privação de alimentos.

O orçamento público a serviço dos banqueiros

A exploração financeira não se limita ao endividamento das famílias. O Estado brasileiro também destina uma parcela gigantesca de seus recursos ao pagamento da dívida pública.

Somente em 2024 foram gastos R$ 950,4 bilhões com juros da dívida pública, o equivalente a 8,72% do Produto Interno Bruto. Esse dinheiro, apropriado pelos detentores dos títulos públicos, poderia financiar investimentos em saúde, educação, moradia e infraestrutura.

Enquanto os banqueiros recebem remuneração pela dívida pública, a população é submetida às restrições orçamentárias impostas pela política de ajuste fiscal. O governo Lula mantém mecanismos destinados a limitar os gastos públicos, procurando atender às exigências do capital financeiro.

O capital financeiro exerce uma influência decisiva sobre a política econômica brasileira. A autonomia do Banco Central, aprovada em 2021, retirou do governo eleito o controle direto sobre a instituição responsável pela definição da taxa básica de juros. O resultado é a preservação de uma política monetária favorável aos banqueiros, mesmo quando a população enfrenta graves dificuldades.

A política neoliberal, mantida por sucessivos governos desde Fernando Henrique Cardoso, colocou o sistema financeiro no centro da economia nacional. A produção industrial, o desenvolvimento econômico e as necessidades populares ficam subordinados aos interesses de um pequeno grupo de grandes capitalistas.

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