Nos últimos tempos, a cantilena de salvar a democracia ante um suposto perigo fascista foi o pretexto para boa parte da esquerda aceitar (e até defender) toda sorte de idiossincrasias judiciárias. A política identitária, que depende da justiça da burguesia para se concretizar, também contribuiu para a situação de insegurança a que estamos todos submetidos, ao rifar a liberdade de expressão, o primeiro de todos os direitos democráticos.
Na última eleição, chegou-se ao cúmulo de criminalizar quem fizesse críticas ao uso de urna eletrônica ou meramente dissesse que o sistema pode falhar ou ser fraudado. O motivo era que Bolsonaro e sua turma propalavam desconfiança sobre o equipamento supostamente para justificar um golpe. Se as urnas caíssem em descrédito, poderia haver uma convulsão social e o povo se levantaria contra o resultado da eleição, facilitando a tomada de poder pelos fascistas. Essa era a “narrativa”.
O ex-presidente, no entanto, objetivamente, queria apenas instituir o recibo de papel a ser depositado em urna física como medida de segurança, tornando o processo auditável por qualquer pessoa. Diga-se que esse é o procedimento-padrão nos países que usam a máquina. Do modo como é hoje no Brasil, somente técnicos especializados têm acesso ao seu funcionamento. É claro que nós acreditamos que estejam todos agindo de boa-fé. Nem se trata disso aqui. O problema é cercear o direito de questionar qualquer coisa, que é legítimo. Ah, mas os bolsonaristas querem tumultuar a eleição, então temos de dar um jeito de impedi-los. Simples: para deter meia dúzia de bolsonaristas, cria-se um veto a qualquer dúvida que se levante sobre o funcionamento de um sistema de computador.
Essa é a mesma lógica de suspender uma rede social porque alguns a usaram para fazer coisas erradas. Pune-se a sociedade inteira para conseguir capturar alguns. A cada dia, surge uma nova proibição. Os identitários conseguiram a proeza de criminalizar letra de música, programa humorístico e obras literárias. Ninguém sabe o que pode ser dito e o que não pode. Sempre existe a possibilidade de incorrer em crime de injúria racial, que se estende a muitos outros grupos que nada têm que ver com os negros, em nome dos quais foi aprovada a lei, aliás, hoje frequentemente usada para “proteger” sionistas contra críticas políticas.
A situação tende a escalar cada vez mais. O processo de Bolsonaro e a sua prisão foram um estratagema para tirá-lo da eleição, como já tinha sido feito com Lula. Lula era corrupto e Bolsonaro é golpista. A burguesia rotula seus inimigos e põe em ação a sua máquina de propaganda e o judiciário. “Com STF, com tudo”. A esquerda que se escandalizou com a Lava Jato e a deposição de Dilma Rousseff hoje acha normal perseguir inimigos políticos – ah, mas são os bolsonaristas… Eram os bolsonaristas. Agora é qualquer um. Perseguir e intimidar virou regra.
Falar tornou-se um ato muito arriscado. Nosso companheiro Rui Costa Pimenta lançou sua candidatura no último fim de semana em São Paulo dizendo que a eleição não vai mudar o Brasil. Três dias depois, a Polícia Federal, numa fria madrugada paulistana, aparece em sua casa chutando a porta, a pretexto de investigar suposto desvio de recursos do fundo eleitoral, como se não houvesse mais oficial de justiça para intimar alguém a prestar esclarecimentos.
Fica a pergunta aos nossos companheiros da esquerda: é essa a democracia que queremos salvaguardar do perigo fascista?





