Polêmica

‘Educação não sexista’ é ladainha reacionária

Identitários fazem demagogia com educação contra “feminicídio”, mas não defendem as educadoras, que recebem péssimos salários e têm cargas exaustivas de trabalho

Sala de aula

O identitarismo, além de ser uma ideologia liberal, veio para se infiltrar e dividir a esquerda e suas lutas. Isso fica claro no artigo Pacto educação não sexista, da jornalista Cidinha Santos, publicado no sítio A Terra é Redonda nesta sexta-feira (27). Os identitários não lutam pela emancipação da classe trabalhadora e fim das classes sociais, o negócio deles são as “pautas civilizatórias”. Como se fosse possível falar em “civilizatório” em um mundo com abismos sociais que se aprofundam.

O texto inicia dizendo que “a implementação do Pacto Brasil ‘Todos por Todas’, lançado no início de fevereiro, surge em cenário de urgência absoluta. Para nós, mulheres que compomos a linha de frente dos movimentos sociais e do feminismo negro, o novo ordenamento conjurado pelos três poderes da República – Executivo, Judiciário e Legislativo – precisa ser compreendido não como ponto de chegada, mas como tentativa, ainda inicial, de responder a uma tragédia que se aprofunda a cada estatística, ou melhor, a cada segundo”. – grifo nosso.

“Feminismo negro”, eis aí uma divisão que se forma dentro do feminismo, o que só pode dividir e enfraquecer o movimento. A identitária Djamila Ribeiro é uma das pessoas que gosta de enfatizar que é “feminista negra”. Lembrando que ela mesma distingue graus de opressão para negros claros e negros retintos. Ou seja, não há divisão que não possa ser ainda mais dividida.

Chama a atenção também o uso do termo “pacto”, uma forma muito amena de propor soluções quando deveríamos estar falando em luta.

A violência

Segundo Cidinha Santos, “é fundamental observarmos o feminicídio não como o início da violência, mas como desfecho fatal de longa cadeia de negligências, silenciamentos e opressões que se iniciam muito antes do primeiro golpe físico. O feminicídio é a ponta visível e letal de um iceberg sustentado pelo machismo, pelo sexismo e pelo racismo; elementos estruturais, e não conjunturais, como defende o movimento feminista e negro há décadas”.

Enquanto o capitalismo joga a população na miséria para que um punhado de parasitas se apodere das riquezas, o que é uma questão objetiva, os identitários desviam a atenção para questões subjetivas, como machismo, sexismo e racismo.

Isso é feito de propósito, pois, enquanto as questões objetivas são palpáveis e demandam enfrentamento, as questões subjetivas são, em tese, solucionáveis por conversas, pactos… É uma abordagem que diminui o atrito entre a classe trabalhadora e a burguesia.

O assassinato de mulheres tem que ser compreendido dentro do quadro geral da violência produzida pela miséria social. Se nenhuma mulher for morta neste ano, ainda assim, 44 mil homens serão assassinados. E não estamos em guerra. Ou estamos?

Estruturas

Paradoxalmente, a jornalista diz que “quando se considera algo estrutural, isso significa que não nos referimos a comportamentos individuais isolados ou de ‘maçãs podres’ na sociedade. Mas estamos afirmando que a economia, o Estado, as leis e a cultura dominante foram desenhados para manter a subalternidade das mulheres e, especificamente, a vulnerabilidade dos corpos negros”. Se é assim, por que os identitários não criticam os bancos? Será porque estes, como o Itaú, financiam ONGs identitárias? Os identitários, como bons liberais, não querem mudar as estruturas econômicas; falam, no máximo, em colocar determinados grupos em “posições de poder”. Ou seja, a estrutura permanece intacta.

Quanto ao Estado, devemos acreditar que é possível reformá-lo, mudar sua estrutura para que deixe de privilegiar as classes dominantes e comece a atuar pelo povo?

No que diz respeito às leis, os identitários vivem pedindo, e conseguindo, leis mais repressivas e penas cada vez maiores. A cultura, de modo geral, responde aos interesses da classe dominante.

Outro truque identitário é falar em “corpos negros”, pois descaracteriza o trabalhador e oculta a luta de classes, o que serve apenas para proteger a burguesia.

Cidinha Santos escreve que “a estrutura é o alicerce; ela organiza a distribuição de poder e define quem tem o direito à vida e quem é empurrada para a morte. Por isso, projetos que não mexem na base dessa estrutura acabam sendo apenas paliativos em ferida que exige reconstrução profunda e radical”. E é exatamente essa a função do identitarismo, não mexer na base de nenhuma estrutura.

Recentemente, a própria jornalista postou uma fala da ministra do STF, Cármen Lúcia, em seu perfil no Instagram, fazendo demagogia identitária. A ministra, indicada por Lula para o Supremo, e mesmo assim votou por sua prisão (ainda em segunda instância), o que pavimentou o caminho de Bolsonaro à presidência, fica falando na condição da mulher, que não são respeitadas. O que as mulheres ganharam com a indicação dessa senhora a esse cargo?

Os identitários não querem mudar as estruturas. Uma instituição do Estado, como o Supremo Tribunal Federal, que tem ignorado a Constituição e abolido garantias democráticas dos trabalhadores e da população, não é questionado. Em vez disso, essa gente fica fazendo campanha para se colocar uma mulher negra no STF. O que isso muda? Absolutamente nada para as mulheres e muito menos para os negros.

Os Estados Unidos já tiveram presidente negro e o Barack Obama, como qualquer outro, bombardeou todo mundo, destruiu a Líbia. Linda Thomas-Greenfield é embaixadora negra que votou repetidamente contra resoluções favoráveis à Palestina no Conselho de Segurança da ONU. O identitarismo é uma fraude.

Feminicídio

A jornalista escreve que “o Brasil registrou um novo recorde de feminicídios em 2025, com 1.518 vítimas, marcando uma média de quatro mulheres mortas por dia e superando o recorde anterior de 2024 (1.458 casos), segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e Ministério da Justiça e Segurança Pública.”.

Vejamos: em 2025, dados preliminares apontam que houve no Brasil 34 mil assassinatos, dentre esses, 31 mil homens. Uma média de 85 por dia. A média dos últimos dez anos é de 50 mil, com os homens correspondendo a 92%. Algo como 126 mortos por dia.

Esses números não estão aí para diminuir a gravidade do assassinato de mulheres, mas para mostrar o problema da violência no País, que é fruto da profunda desigualdade social.

É falso dizer que, na questão do assassinato de mulheres, “a alta reflete uma falha estrutural do Estado e persistência da violência de gênero”. Se a falta de investimento em proteção das mulheres do governo de São Paulo resultou em 266 de mulheres mortas; apenas na Baixada Santista, a polícia assassina de Tarcísio trucidou (oficialmente) 84 pessoas. Apenas uma era mulher, Edneia Fernandes Silva, vítima de uma bala perdida disparada pela polícia, que alegou perseguir dois suspeitos.

Falsas medidas

Os identitários recorrem a Paulo Freire, dizem que educação é processo libertador, falam em diálogo e problematização, fomentar atitudes de simpatia, “educomunicação”, necessidade de mudança na postura dos homens… Nada disso vai alterar o quadro de violência no Brasil.

Esse tipo de discussão, na verdade, apenas atrapalha. Antes de falar em “educação sexista”, é preciso denunciar o salário do professorado, cuja categoria é formada por 82% de mulheres.

A opressão contra as mulheres começa ali, dentro da sala de aula, quando elas ganham salários baixíssimos, trabalham em condições precárias, e são obrigadas a extensas jornadas para receberem um pouco mais.

Falar em educação sem cuidar de quem educa não passa de demagogia e isso precisa ser desmascarado.

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