O artigo Igualdade de gênero se aprende na escola, de Raissa Rossiter, publicado no portal Poder360, é mais uma daquelas falas mansas de pessoas preocupadas com o bem da humanidade, com os direitos, que terminam em invasão de privacidade, leis repressivas e prisão. Foi assim com a lei contra o racismo e contra o feminicídio.
Aumento de pena para quem mate mulheres não surtiu efeito, assassinato de mulheres aumentou. A lei contra o racismo anda servindo para proteger os genocidas em Gaza. Tudo isso foi criado para o nosso bem.
Rossiter inicia dizendo que passava perto de uma escola e observou “um jogo de futebol em que apenas meninos corriam atrás da bola, de um lado a outro. Um pouco mais afastadas, meninas conversavam em pequenas rodas”. Para ela “a cena dizia muito sobre a educação sexista que naturaliza estereótipos desde cedo”.
Trata-se de uma distorção. “Sexismo” não é um problema de educação. Diz respeito a como as mulheres são inseridas no setor produtivo da sociedade. Historicamente, as mulheres estão relegadas a serviços domésticos, à criação dos filhos. A criação de creches pelo Estado, serviços médicos especializados, fariam muito mais pelas mulheres do que um milhão de leis do “bem”. Nenhuma educação resolverá a discriminação se as condições materiais das mulheres continuarem as mesmas.
Ditadura do bem
Como era de se esperar, Raissa Rossiter informa que “a partir de setembro de 2026, com o início do ano letivo no Reino Unido, estudantes do ensino fundamental e médio terão aulas obrigatórias voltadas ao enfrentamento da misoginia”.
O Reino Unido é um ótimo exemplo. Em nome do bem, já existem ali mais de 14 mil presos. Qual é o motivo? Apoiar a Palestina e denunciar o genocídio em Gaza, mas que o governo gosta de chamar de discurso de ódio, racismo, apoio ao terrorismo etc.
O cidadão britânico está sendo preso por postagens nas redes sociais. Querem aprovar leis que permitam que programas nos celulares coletem as informações digitadas pelos usuários e os denunciem, a depender do conteúdo.
Rossiter acha positivo que se dê aulas para “enfrentar a misoginia”. Para ela, “igualdade de gênero também se aprende na escola. Políticas de prevenção são decisivas. Ainda não desenvolvemos, como sociedade, uma cultura consistente de enfrentamento dos problemas na sua origem”.
Como foi dito acima, políticas de prevenção não resolveram nada para a segurança das mulheres. “Misoginia”, além de não dever ser considerado crime, pois é uma condição subjetiva, não são corrigíveis pela educação. O escritor Bernard Shaw, por exemplo, era conhecido por sua misoginia. Uma de suas teorias, grosso modo, rezava que a mulher tinha o único propósito de atrair os homens para a procriação. Ao mesmo tempo, Shaw defendia os direitos das mulheres, o que mostra que o ser humano é contraditório e não deveria ter suas contradições tratadas como crime.
A malvada internet
Apesar dos rodeios, toda a conversa que visa o “bem geral” vai, invariavelmente, atirar contra um alvo:
“O ambiente tóxico da internet e o crescimento vertiginoso da misoginia digital, sustentada por movimentos como redpills e incels, levaram o governo britânico a uma decisão histórica. Foi anunciado um plano de 11 milhões de libras esterlinas, cerca de R$ 80 milhões, para apoiar escolas no enfrentamento precoce de atitudes nocivas, como misoginia, controle coercitivo e abusos no ambiente digital”.
O governo britânico, que ajudou os sionistas a matarem dezenas de milhares de mulheres em Gaza, deve estar mesmo muito preocupado com a misoginia.
Chega a ser comovente que “a ministra de Mulheres e Igualdades e secretária de Educação do Reino Unido, Bridget Phillipson, [tenha apresentado] o reforço de recursos como parte de uma estratégia mais ampla para reduzir pela metade a violência contra mulheres e meninas”.
O que dizer de “controle coercitivo” quando a polícia espanca nas ruas e arrasta para a prisão pessoas, inclusive mulheres, que utilizem algum adereço relacionado à Palestina?
Para quem considera a Internet um “ambiente tóxico”, nada mais justo que censurar e restringir o acesso de jovens às plataformas digitais. O objetivo dos governos não é a proteção de ninguém, mas impedir que os cidadãos (crianças e adolescentes são cidadãs) tenham acesso à verdade. Existem milhões de vídeos nas redes mostrando as atrocidades na Palestina, os gastos com guerras. Com as pessoas se inteirando desses assuntos, fica muito mais difícil para o Estado continuar participando de genocídios e gastando dinheiro público em guerras para defender os interesses do grande capital.
O medo como recurso
O texto de Raissa Rossiter é recheado de palavras como violência, bullying, assédio, saúde mental, deepfakes, cultura machista, sexista etc. A ideia é convencer o leitor de que são necessárias medidas urgentes para acabar com isso. A proposta, embora pareça positiva: a eduação, é inócua, pois nenhuma escola resolve as diferenças sociais.
As mulheres precisam de salários equiparados aos dos homens, precisam de aparelhos públicos que deem suporte à maternidade, restaurantes e lavanderias públicos para que não fique presa às tarefas domésticas. Enquanto as mulheres forem submetidas a posições subalternas na sociedade, não serão leis ou educação que resolverão temas ligados à violência, e o que se queira.
É completamente falsa a ideia de que igualdade de gênero “começa, ou deveria começar, na escola”. Colocar a questão dessa perspectiva serve apenas como desculpas de para políticas repressivas que, em vez de promover e educar, esmagam as pessoas.



