Nesta quarta-feira (4), a Editora Democritos iniciou o pré-lançamento em dois volumes da tradução para o português do romance O Espinho e o Cravo, escrito pelo revolucionário palestino Iahia Sinuar. O lançamento oficial da obra está marcado para 25 de abril. O pré-lançamento permite que leitores acessem antecipadamente trechos ou a edição digital preliminar da obra, escrita nas condições extremas de prisão perpétua em cárceres israelenses.
Sinuar, nascido em 1962 no campo de refugiados de Khan Iunis, na Faixa de Gaza, veio de uma família originária de Ascalão, expulsa durante a nakba de 1948. Formado em Língua e Literatura Árabe pela Universidade Islâmica de Gaza, ele se destacou como pioneiro da resistência islâmica palestina e foi preso em 1988, cumprindo sentença de prisão perpétua até sua saída do cárcere.
Redigido ao longo de anos no isolamento das prisões, especialmente na de Bersebá, o manuscrito foi preservado por meio de um esforço coletivo de prisioneiros. Dezenas de pessoas copiaram o texto manualmente, escondendo-o dos guardas e torturadores, em um processo comparado ao trabalho paciente e incansável de formigas que transportam grãos para fora do ninho. Esse esforço clandestino permitiu que a obra escapasse dos olhos dos torturadores e chegasse ao público.
O Espinho e o Cravo não é uma autobiografia estrita, mas uma narrativa ficcional que combina memórias pessoais do autor com a história coletiva do povo palestino. O título expressa a dualidade da existência sob ocupação: o espinho representa as dores, as feridas, os obstáculos impostos pela opressão, a violência cotidiana, as prisões, as demolições e as humilhações; já o cravo evoca a beleza da resistência, a esperança que floresce apesar da dor, a resiliência cultural e a determinação em manter a identidade e a luta pela liberdade. Essa metáfora captura a essência da narrativa: em uma mesma planta, espinhos protegem e ferem, enquanto flores perfumam e inspiram.
A trama cobre marcos cruciais da história palestina moderna, desde a naksa de 1967, a derrota árabe na Guerra de Junho de 1967, que resultou na ocupação de Gaza, Cisjordânia, Jerusalém Oriental, Sinai e Golã, até os primeiros estágios da Segunda Intifada, conhecida como Intifada de Al-Aqsa (iniciada em 2000). O romance aborda temas como a resistência armada e popular, o impacto da ocupação na vida diária, as divisões políticas entre organizações palestinas (incluindo referências aos blocos dos anos 1970), as prisões em massa, as torturas, as operações de inteligência israelenses e a formação de lideranças na luta.
Sinuar conta a história por meio de personagens majoritariamente fictícios, criados para atender às exigências da forma novelística, com arcos dramáticos, conflitos internos e relações interpessoais, mas ancorados em eventos reais. Algumas personagens inspiram-se em pessoas concretas que o autor conheceu ou ouviu falar. Assim, o livro torna-se a história de todo palestino e de todos os palestinos, capturando sentimentos coletivos e a busca por libertação em meio à barbárie sionista.
No prefácio, datado de 2004 na Prisão de Bersebá, o Sinuar explica com clareza sua abordagem:
“Esta não é minha história pessoal, nem é a história de nenhum indivíduo em particular, embora todos os seus eventos sejam reais. Cada evento, ou cada conjunto de eventos, pertence a este ou aquele palestino. A única ficção nesta obra é sua transformação em um romance girando em torno de personagens específicos, para cumprir a forma e os requisitos de uma obra novelística. Todo o resto é real; eu vivi isso, e muito disso ouvi da boca daqueles que, eles próprios, suas famílias e seus vizinhos, vivenciaram isso ao longo de décadas na amada terra da Palestina.”
Ele dedica a obra “àqueles cujos corações se apegam à terra de Isra e Miraj, do oceano ao Golfo, na verdade, de oceano a oceano”, uma referência à jornada noturna do Profeta Maomé (Isra e Miraj), expressando a conexão espiritual e histórica com a terra sagrada, estendendo o apelo à solidariedade árabe e muçulmana em escala global.
A publicação, em dois volumes, pela Editora Democritos, representa um marco importante para o Brasil, trazendo ao público lusófono uma edição impressa em português do livro pela primeira vez. Trata-se de uma das vozes mais importantes da resistência palestina, escrita em circunstâncias de extrema adversidade. A obra oferece não apenas um testemunho literário, mas um meio de compreensão da luta palestina, a formação da consciência política em meio a genocídio e perseguição.






