Em entrevista ao portal UOL/Folha de S.Paulo, o presidente Lula fala como se tivesse conduzido o Brasil a um “primeiro mundo” — uma ideia que, aliás, nem se sustenta diante da crise internacional permanente. Mas, mesmo que existisse esse paraíso estatístico, a pergunta decisiva continua sendo a mesma: onde isso aparece na vida real do trabalhador? Porque, fora do palanque e das planilhas, o País que se vê nas ruas é outro.
Basta caminhar por São Paulo — a maior cidade do Brasil e termômetro do capitalismo nacional — para perceber o desmentido gritante dos índices oficiais. Comércios fechando, placas de “aluga-se” e “vende-se” por toda parte, bairros inteiros degradados, e um centro tomado pelo desemprego disfarçado, pela informalidade e pela miséria aberta. É a expressão concreta de uma economia que se desmancha para a maioria, enquanto uma minoria lucra com a especulação.
O retrato mais cruel dessa realidade está no que se tornou rotina: filas quilométricas por comida. No centro da cidade, a distribuição de alimentos atrai uma multidão. E o mais significativo é que não se trata apenas de moradores de rua: há trabalhador comum, gente que tem ocupação muito precária ou salário insuficiente, mas que precisa entrar na fila para comer. Este é o dado que desmonta toda propaganda: se a economia vai tão bem, por que o povo está pedindo comida?
É aí que a máxima volta com força: o povo não come PIB. Os números podem até subir, mas é preciso perguntar: o que cresceu, para quem cresceu, e em qual setor cresceu? O setor industrial brasileiro, por exemplo, não dá sinais de vitalidade proporcional a esse “milagre” anunciado. Já o setor financeiro, esse sim, costuma bater recordes: entrada de dólares, valorização de ações, especulação com juros e dívida pública — uma engrenagem que concentra renda e transfere riqueza do trabalho para o capital.
O próprio regime militar resumiu esse mecanismo numa frase famosa, atribuída a Emílio Garrastazu Médici: “a economia vai bem, mas o povo vai mal”. Se aceitarmos o “vai bem” do governo, sobra reconhecer o restante: o povo vai mal. E isso é ainda mais perturbador porque Lula iniciou sua trajetória denunciando a manipulação dos índices de inflação.
A estatística, vale lembrar, não é uma fotografia neutra da realidade. Depende do método, dos recortes, do que se inclui e do que se exclui. Falar em “queda do desemprego”, por exemplo, diz pouco quando a “ocupação” é bico, subemprego, aplicativo, jornada interminável e renda que não paga nem o básico.
E nada simboliza melhor esse descompasso do que a situação dos Correios. A maior empresa estatal que restou, depois da sanha privatista que destruiu setores inteiros do patrimônio público, aparece agora como “falida” e com anúncio de pacote de demissão de 15 mil funcionários. Onde isso entra no PIB comemorado? Onde entra na propaganda do “Brasil melhorando”? Para o trabalhador demitido e para sua família, o índice é irrelevante; o que existe é a geladeira vazia e o aluguel atrasado.
Se o governo quer ser medido por critérios concretos, que se comece pelo básico: emprego de verdade, salário que acompanhe o custo de vida, reindustrialização sob controle nacional, fortalecimento das estatais, reversão das privatizações e investimento público massivo. E, sobretudo, organização e mobilização dos trabalhadores para impor essas medidas, porque nenhum indicador substitui a luta política real.
No fim, a realidade é simples e brutal: PIB não enche prato. E um país onde cresce a fila da comida, cresce também a prova definitiva de que a economia, do jeito que está, não serve ao povo.





