Em artigo publicado em 21 de outubro por A Terra É Redonda, a advogada Estéfany Rocha Monteiro procura explicar a votação de mais de 56 milhões de brasileiros em Flávio Bolsonaro no primeiro turno das eleições presidenciais. O texto, intitulado Ainda somos os mesmos?, recorre à ditadura militar e à pandemia para discutir por que a lembrança de episódios tão graves não impediu o crescimento eleitoral do bolsonarismo.
A autora pergunta: “O que exatamente esperávamos que o Brasil tivesse aprendido com sua própria história?” Mas deveria se perguntar sobre a atuação das direções que se apresentam como adversárias da direita.
Monteiro reconhece que o descontentamento econômico influencia o voto, mas não examina como a política petista alimentou a rejeição ao partido. O trabalhador deve lembrar o golpe; o PT não deve ser responsabilizar por suas próprias decisões?
O PT aprendeu o quê com o golpe?
O golpe de 2016, apoiado por partidos da burguesia e pela grande imprensa, entregou a Presidência a Michel Temer e abriu caminho para a reforma trabalhista e a eleição de Jair Bolsonaro. A perseguição judicial, a prisão de Lula e a proibição de sua candidatura em 2018 integraram a mesma ofensiva.
Dez anos depois, o PT governa ao lado de dirigentes ligados à mesma direita. Geraldo Alckmin, antigo dirigente do PSDB, tornou-se vice de Lula. Simone Tebet, que votou pela cassação de Dilma no Senado, foi ministra do Planejamento. Tudo foi justificado pela necessidade da frente ampla.
Um levantamento publicado por este Diário em 31 de agosto identificou 10 políticos que votaram pela derrubada de Dilma e disputaram as eleições de 2026 com apoio de Lula. Entre eles estão Renan Calheiros, Omar Aziz, Veneziano Vital do Rêgo e Eliziane Gama, esta última agora filiada ao próprio PT.
Enquanto cobra memória histórica da população, o PT apresenta os responsáveis por sua derrubada como defensores da democracia.
Alexandre de Moraes, indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo golpista Temer, transformou-se em símbolo da democracia para grande parte da esquerda. Até a censura e a repressão judicial passaram a ser defendidas sob o pretexto de combater o fascismo.
Quem abandonou as lições de 2016? O eleitor que não confia mais no PT ou a direção petista que se uniu às forças que o derrubaram?
Na pandemia, a esquerda mandou o povo ficar em casa
Monteiro também recorda as mais de 700 mil mortes oficialmente registradas por covid-19, as declarações criminosas de Jair Bolsonaro e a defesa que Flávio fez do pai. O balanço, entretanto, não pode limitar-se ao comportamento do governo. É preciso examinar o que fizeram as organizações da esquerda quando a população precisava de uma resposta política.
Em 2020 e 2021, direções sindicais e partidárias adotaram o “fique em casa”. Sindicatos suspenderam atividades presenciais e a luta contra Bolsonaro ficou paralisada.
Enquanto uma parcela da classe média podia permanecer em casa, milhões de trabalhadores continuavam em ônibus lotados, fábricas e supermercados, sem isolamento remunerado ou proteção suficiente.
O PCO foi o único partido a sair às ruas para exigir medidas sanitárias de massa. Defendeu testagem em massa, equipamentos de proteção, ampliação dos leitos e dos investimentos na saúde, contratação de profissionais, quebra das patentes das vacinas e vacinação gratuita para todos. Exigiu também auxílio emergencial de pelo menos um salário mínimo, proibição das demissões e redução da jornada sem redução salarial.
Era necessário organizar manifestações para obrigar os governos a atender essas reivindicações, adotando máscaras e outros cuidados sanitários. A paralisia política não protegia quem continuava trabalhando.
Nas eleições municipais de 2020, dirigentes que condenavam atos contra Bolsonaro foram às ruas pedir votos. Este Diário denunciou sindicatos fechados cujos dirigentes participaram da campanha eleitoral.
Se era possível sair de casa para eleger vereadores e prefeitos, por que não organizar manifestações exigindo testagem em massa, vacinação e auxílio emergencial? O que impedia a luta contra Bolsonaro, mas não impedia a propaganda eleitoral? Para essas direções, as eleições eram prioridade; a luta operária, um inconveniente.
O PCO convocou um ato presencial no 1º de maio de 2021, em São Paulo, enquanto as grandes centrais sindicais ainda preferiam comemorações virtuais. O ato reuniu cerca de 2 mil pessoas, como publicamos à época. Em 29 de maio, manifestações por vacina, auxílio e Fora Bolsonaro chegaram a centenas de cidades. Havia disposição popular para lutar.
O povo não é responsável pela capitulação da esquerda
A referência à canção Como nossos pais, de Belchior, na voz de Elis Regina, deveria levar a autora a examinar a transformação da própria esquerda.
O PT nasceu das greves do ABC e da organização sindical. Hoje, seus dirigentes defendem o extermínio do Hamas (principal membro da Resistência Palestina), a responsabilidade fiscal, os acordos com banqueiros, a conciliação com a direita e a preservação das instituições responsáveis pelo golpe. As reivindicações de reversão das privatizações e das reformas trabalhista e previdenciária foram abandonadas.
A aproximação com a direita já aparece até nas propostas eleitorais. Em 15 de outubro, Lula declarou na TV Globo ser favorável a reduzir a maioridade penal para 16 anos nos crimes hediondos: “Eu sou favorável a reduzir para 16, mas não discutindo nessa PEC.” É uma reivindicação tradicional da direita.
A classe trabalhadora enfrenta salários baixos, transporte caro e serviços sucateados, enquanto o governo preserva as exigências dos banqueiros. A direita explora o descontentamento; a esquerda oficial pede novamente o voto no mal menor.
É fácil censurar milhões de pessoas por não tirarem da história a conclusão desejada por uma parcela da classe média. Mais difícil é explicar por que os partidos que conhecem a história do golpe se aliaram aos golpistas e por que os que condenavam Bolsonaro preferiram suspender as manifestações a organizar a luta pela saúde da população.
A pergunta “Ainda somos os mesmos?” deve ser dirigida às direções que trocaram a mobilização pela administração dos interesses capitalistas. Não foram os trabalhadores que fizeram a frente ampla, defenderam os poderes do STF ou paralisaram sindicatos durante a pandemia. Foram os dirigentes da esquerda que agora exigem os votos de uma população desiludida com sua política.





