Alexandre de Moraes chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) para ocupar a cadeira aberta pela morte de Teori Zavascki em um acidente de avião extremamente suspeito. Nove anos depois, um vídeo do ministro e de sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, em um jatinho de Daniel Vorcaro é simbólico do fim de uma ditadura pessoal.
As imagens, divulgadas no domingo (20), mostram o casal desembarcando no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, em 22 de agosto de 2025. O avião, um Legacy 650 de prefixo PP-NLR, estava registrado em nome de uma empresa ligada ao então controlador do Banco Master.
Em abril, o gabinete de Moraes havia afirmado que o ministro “jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro”. Depois da divulgação das imagens, o escritório Barci de Moraes declarou que contratou um serviço regular de táxi aéreo da Prime Aviation. Segundo a banca, a empresa escolhia as aeronaves e Vorcaro não participou dos voos. A nota admite que Moraes acompanhou a mulher em algumas viagens.
Moraes, portanto, mentiu ao dizer que nunca viajou em avião de Vorcaro.
O voo não é um fato isolado. Documentos e mensagens analisados pela Polícia Filial indicam encontros privados entre Moraes e Vorcaro. O Banco Master também assinou um contrato de aproximadamente R$131 milhões com o escritório de Viviane Barci.
Dados da Receita Federal apontam que a banca recebeu R$80,2 milhões entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025. A PF identificou ainda o usuário “Ministro Alexandre de Moraes” como responsável pela última edição de duas minutas desse contrato. O escritório afirma que consultou Moraes somente para verificar se havia algum impedimento legal para a contratação, o que não retira o caráter irregular da atuação de Moraes, que, como ministro do STF, não poderia ter feito isso.
Os investigadores também encontraram minutas de um segundo acordo, no valor de 50 milhões de reais. A proposta previa o pagamento de 40 milhões em cotas de um jatinho e de um helicóptero, além de 10 milhões para despesas com voos.
Mensagens extraídas do telefone de Vorcaro mostram o banqueiro procurando Moraes quando temia ser preso. Dois dias antes da prisão, ele perguntou se deveria deixar o País. No dia da operação, quis saber se o ministro havia conseguido obter alguma notícia ou bloquear a medida. A extração feita pela PF recuperou as mensagens enviadas por Vorcaro, mas não eventuais respostas de Moraes, porque ele as apagou para não ser incriminado.
Um funcionário público correto pediria demissão. Se houvesse justiça no Brasil, Moraes já teria saído do STF. Pelos critérios que empregou contra os acusados pelos acontecimentos de 8 de Janeiro — prisões prolongadas, interpretação extensiva dos indícios e imputações coletivas —, já estaria no xadrez. O primeiro réu daqueles processos foi condenado a 17 anos de prisão com base em seu voto.
Moraes alçou voo após uma tragédia ainda não explicada
A vaga entregue a Moraes pertencia a Teori Zavascki, morto em 19 de janeiro de 2017 na queda de um avião em Paraty, no litoral do Rio de Janeiro. Teori era o relator da Lava Jato no STF e tinha sob sua responsabilidade as delações da Odebrecht. Sua morte ocorreu poucos meses depois do golpe contra Dilma Rousseff, quando as disputas em torno da operação atingiam os principais partidos burgueses.
Na época, o presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, lembrou que Teori havia sido uma peça fundamental da Lava Jato e do golpe. “Ele foi o homem chave do golpe, porque o golpe foi montado em cima da Operação Lava Jato”, declarou na Análise Política da Semana de janeiro de 2017. Na mesma análise, disse que o papel central de Teori na operação levantava a suspeita de assassinato.
No Brasil, personagens-chave de acontecimentos políticos importantes já morreram em acidente de avião. Casos emblemáticos são os de Ulysses Guimarães, dois meses antes do impeachment de Fernando Collor, e Eduardo Campos, às vésperas das eleições de 2014, sendo substituído pela então irrelevante Marina Silva.
Menos de três semanas depois da morte de Teori, Michel Temer indicou Moraes para a vaga. O escolhido era ministro da Justiça do governo golpista. Antes disso, fora secretário da Segurança Pública (chefe da PM) de São Paulo no governo de Geraldo Alckmin. Era filiado ao PSDB e estava ligado havia anos ao aparelho burocrático controlado pelos tucanos em São Paulo.
Moraes não chegou ao Supremo como um jurista independente. Era um homem de confiança dos grandes capitalistas, levado à Corte pelo governo formado após o golpe de 2016. Sua função era assegurar a continuidade do regime golpista, proteger a aplicação da política neoliberal, fechar o regime político e restringir as liberdades democráticas.
Ele cumpriu essa função. Decisões individuais passaram a valer como leis nacionais. Inquéritos, bloqueios de perfis, censura, prisões preventivas e condenações exemplares deram ao STF poderes de polícia. Sob a justificativa de combater o bolsonarismo, Moraes concentrou os papéis de investigador, acusador e juiz. Ele impôs uma ditadura no Brasil contra os mais elementares direitos democráticos de todo o povo.
Durante anos, a burguesia apoiou esses abusos porque eles serviam à estabilização do regime. Moraes começou a se tornar um problema quando sua atuação provocou conflitos com setores poderosos ligados ao bolsonarismo, ampliou a insatisfação popular e deu origem a retaliações do governo de Donald Trump.
A crescente instabilidade criada pelos excessos do ministro-ditador mostraram que manter Moraes como chefe informal do regime político tinha se tornado caro para os próprios capitalistas.
Com o caso Vorcaro, setores da própria burguesia passaram a agir para se desfazer de Moraes. Mesmo que ele permaneça formalmente no STF, sua ditadura dentro da Corte acabou. Quem aparece no jatinho do banqueiro responsável pelo maior escândalo da Nova República, e que lhe pagou mais de R$200 milhões, não tem mais autoridade para manter a sua ditadura da mesma forma de antes.





