O governo do Reino Unido, dirigido por Keir Starmer, do Partido Trabalhista, oficializou os planos para a implementação de um sistema nacional de identidade digital obrigatório até 2029. A medida, que exige que cidadãos apresentem credenciais eletrônicas para trabalhar, alugar imóveis ou acessar serviços online, coloca fim a uma histórica tradição britânica de ausência de um registro civil centralizado. Enquanto o gabinete defende a proposta como uma modernização necessária para combater fraudes e a imigração ilegal, a esquerda denuncia a criação de um “fichamento” digital que transforma a liberdade em uma concessão estatal.
Diferente do Brasil, onde o RG é um acessório cotidiano, no Reino Unido a ideia de um documento de identidade sempre foi vista com profunda desconfiança, associada a regimes autoritários. Sob o novo sistema, atos triviais da vida civil — como iniciar um emprego ou alugar um apartamento — passarão a depender de uma validação via smartphone na plataforma GOV.UK Wallet.
A resistência ao projeto ganha força especialmente entre as alas que defendem as liberdades civis. A deputada Zarah Sultana, do Seu Partido, tornou-se uma das vozes mais incisivas contra a medida, alertando para o viés autoritário da proposta. Para Sultana, o plano é uma infraestrutura de vigilância que criará “checkpoints digitais” na rotina dos britânicos. Ela destaca que o impacto será desproporcional: minorias, imigrantes e os cerca de 2 milhões de cidadãos digitalmente excluídos enfrentarão barreiras inéditas para exercer direitos básicos, sendo empurrados para as margens da legalidade por não possuírem um código QR ou um smartphone compatível.
A crítica central reside na natureza do “fichamento”. Ao contrário do antigo RG de papel, o RG digital é dinâmico e rastreável. Especialistas em privacidade alertam que o governo terá, na prática, um “mapa de metadados” da vida do cidadão, sabendo exatamente quando e onde a identidade foi verificada. Isso abre precedentes perigosos para o controle policial e para o monitoramento da atividade na internet, aproximando o regime britânico do pesadelo orwelliano de vigilância total.





