O artigo Combate à poluição sonora em São Paulo parece capaz de unir esquerda e direita, de Mauro Calliari, publicado na Folha de São Paulo nesta sexta-feira (6), revela a mentalidade repressora que toma conta tanto da esquerda quanto da direita.
Calliari escreve que se espantou com a repercussão de uma coluna que teria escrito em 2025 sobre o barulho, onde aproveitou para fazer um ranking e saiu para “andar na rua com um decibelímetro por uma semana”. Na infância, enquanto outros garotos sonhavam em ser jogadores de futebol, é provável que o articulista sonhasse em ser fiscal. Nunca o saberemos.
Segundo ele, mais gente do que imaginava “narrou experiências cotidianas de convívio com o barulho diário em São Paulo: escapamentos de motos, buzinas incessantes, obras intermináveis, shows, pancadões, bares com música de madrugada, vizinhos, exaustores e motores. Todo mundo, em todas as regiões da cidade, tem alguma história de incômodo para contar”.
Caso conhecesse um pouco a vida da classe trabalhadora, Calliari se daria conta de existem inúmeras funções onde o barulho é ensurdecedor e, muitas das vezes, as empresas nem mesmo fornecem proteção auricular (EPI). Ou então, quando as empresas forneciam o EPI, os trabalhadores ficavam sujeitos a longas jornadas de trabalho sem poder conversar com ninguém, o que causava danos psicológicos devido ao isolamento forçado.
O colunista fala de dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) dando conta “Vários estudos independentes associam a poluição sonora a doenças que vão desde o distúrbio do sono até o infarto, passando por ansiedade, depressão e hipertensão”. Certo, mas o que é feito para melhorar a vida das pessoas?
Uma solução, por exemplo, seria as casas terem janelas anti ruído, mas o valor para quem vive de salário é proibitivo. A indústria poderia desenvolver veículos mais silenciosos, mas o investimento diminuiria os lucros.
Callieri diz que “no cotidiano, os barulhos da rua estão sempre próximos do limite de irritação e qualquer coisa adicional – uma acelerada, uma buzinada, eleva os decibéis até o nível de risco à saúde”. O que apenas prova que o cotidiano das pessoas é massacrante.
Todos reclamam dos motoqueiros que andam pelos corredores entre os carros em alta velocidade e buzinando. Mas arriscam suas vidas dessa maneira porque, caso contrário, nem poderiam pagar suas contas. É a baixa remuneração a fonte real desse barulho que tanto incomoda.
Na cidade de São Paulo, morre mais de um motociclista por dia. Em 2025, a capital paulista registrou 475 mortes de motociclistas, o que dá uma média de 1,3 óbitos por dia.
Estimativas baseadas em dados da CET e Infosiga indicam que ocorrem, em média, de 60 a 80 acidentes de moto com vítimas por dia na capital (considerando apenas os registrados oficialmente.
Cerca de 47% (quase metade) dos motociclistas internados após acidentes ficam com algum tipo de sequela permanente.
Aproximadamente 15% dos acidentados graves ficam totalmente inválidos ou perdem definitivamente os movimentos (inabilitados). E o estudo aponta que 82% dos motociclistas internados não conseguem retornar ao trabalho em até seis meses após o acidente.
Repressão
Segundo Calliari, “parece que esse barulho todo acordou a sociedade. Nos últimos meses, começaram a pipocar iniciativas de todos os lados sobre a poluição sonora”. E que “uma delas parece se sobressair, a ‘Frente Cidadã pela Despoluição Sonora’, idealizada por um filósofo, Marcelo Sando. A iniciativa está conseguindo o apoio de associações de moradores tanto em bairros centrais quanto em periféricos e, surpreendentemente, de políticos de todo o espectro. Vereadores de partidos de esquerda e direita parecem estar confortáveis em se unir em torno de um problema comum a qualquer um que more em São Paulo – o incômodo com a poluição sonora”.
Na falta de coisa melhor para fazer, ou devido a um senso de oportunidade, “a iniciativa encontra apoio também no Congresso Nacional, onde a deputada Tabata Amaral (PSB-SP) formulou um projeto para tratar do assunto”.
A resposta, é claro, não poderia ser outra: repressão. Segundo o jornalista, “é surpreendente que sejam necessárias uma nova política federal e uma nova lei para tratar de um assunto tão local.” Pare ele, “falta apenas fiscalizar o que já é regulamentado”.
Adiante, o colunista escreve que “moradores de alguns bairros não fazem denúncias contra pancadões de madrugada por medo de represálias”. Certo, e quais equipamentos de lazer existem nas periferias? Não existem casas de show, museus, quadras de esporte, nada. As pessoas vivem empilhadas nas favelas, ou melhor, comunidades, a palava “favela” está proibida porque pode ferir as pessoas. Morar em lugares insalubres, tudo bem; agora, chamar de favela… isso é demais.
Reclamação
O texto de Calliari é um amontoado de reclamações, a única solução que apresenta é o aumento da fiscalização e da repressão. Quer motos e carros apreendidos. “O mapa de ruído da cidade atrasou”. Diz que “falta a prioridade, os parâmetros e as ferramentas para obrigar gestores municipais a lidarem com isso”.
De modo que sua conclusão não poderia ser outra: “é necessária mais uma lei nacional para dar prioridade ao combate à poluição sonora, que seja.” E alega que “a pauta da redução do barulho não tem ideologia”. Tem ideologia, o problema é que existe uma esquerda pequeno-burguesa que só se move por temas laterais.





