Em reunião ocorrida nesta quarta-feira (11), o Comitê Central Nacional (CCN) do Partido da Causa Operária (PCO) aprovou a convocação do seu 12º Congresso Nacional ordinário. O mais importante evento da organização partidária ocorrerá entre os dias 4 e 7 de junho, na cidade de São Paulo, em local a ser ainda definido.
O Congresso Nacional do PCO é a instância máxima de deliberação partidária, na qual os militantes realizam um balanço da atividade do Partido no último período e decidem as diretrizes políticas e as principais medidas organizativas que nortearão o trabalho partidário até o 13º Congresso Nacional. É também no Congresso Nacional que são eleitos os integrantes do CCN.
O evento de quatro dias debaterá e deliberará resoluções sobre os seguintes temas:
- Informe de atividades do Partido
- Situação política internacional
- Situação política nacional
- Organização partidária
- Campanhas
- Eleição dos membros efetivos e suplentes do CCN
De acordo com um membro do CCN ouvido por este Diário, o Partido publicará uma Tribuna de Debates com os informes da direção partidária, contribuições dos militantes e informes da Comissão Organizadora do Congresso.
“Em momentos como o Congresso Nacional, fica claro que o PCO é, de longe, o partido mais democrático do País”, declarou o mesmo membro do CCN. “Todas as células partidárias participam do evento a partir de delegados eleitos pelos próprios militantes. Todos os delegados têm pleno direito a voz e voto e decidem os rumos do Partido por meio de uma discussão política franca e profunda.”
O último Congresso Nacional foi realizado no ano de 2022, na Academia Paulista de Letras. À época, o Partido definiu a lista de candidatos operários de 15 estados da federação. Diferenciando-se de outros partidos da própria esquerda dita revolucionária, o PCO lançou em todo Brasil trabalhadores do campo e da cidade, operários, sem terra e índios.
Durante o informe político, o presidente nacional do PCO, Rui Costa Pimenta, fez um balanço da situação nacional e internacional, destacando que a crise mundial do capitalismo apontava para uma nova etapa de agitação política.
Logo no início, Pimenta disse que o objetivo era fixar uma interpretação política dos acontecimentos recentes e evitar que, com o passar do tempo, os fatos fossem reinterpretados de maneira distorcida. “Temos que publicar esse balanço para fora do partido para deixar claro, pois à medida que o tempo passa, a história, na cabeça das pessoas, vai se modificando e vai se tornando outra história”, afirmou.
Ainda na parte inicial, o dirigente citou a aproximação entre setores do PT e o ex-governador Geraldo Alckmin como exemplo de como a memória política poderia ser alterada. Ao mencionar a repressão de 2013 em São Paulo, atribuiu a Alckmin papel central naquele processo e sustentou que o Partido deveria manter “um fio de continuidade na análise da situação política”, sem mudar de posição conforme a conjuntura.
Ao passar ao cenário internacional, Pimenta apresentou como eixo central de sua análise a retirada norte-americana do Afeganistão. Para ele, aquele episódio marcou o início de uma nova etapa da crise do imperialismo. Diante dos participantes, declarou que “o ponto de partida fundamental é a derrota do imperialismo norte-americano no Afeganistão”, acrescentando que parte da esquerda não compreendia o significado daquele acontecimento.
Pimenta comparou o episódio a derrotas anteriores do imperialismo, como no Vietnã e no Iraque, mas afirmou que o caso afegão teria sido ainda mais grave. Para ele, a retirada dos Estados Unidos ocorreu em condições de “colapso total” e revelou “um despreparo e uma incapacidade total e completa do imperialismo”. Em sua formulação, a exibição de fraqueza por parte da principal potência mundial tenderia a estimular resistências em várias partes do planeta.
Na sequência, conectou o Afeganistão aos acontecimentos na Ucrânia e à crise em torno de Taiuã. Sustentou que a ofensiva russa e a pressão chinesa mostravam que alguns países haviam decidido desafiar militarmente a ordem internacional liderada pelos Estados Unidos.
“Temos no mundo uma ordem internacional que, ao contrário do que muita gente pensa, não é uma democracia, é uma ditadura dos poderes políticos e militares mais importantes do mundo”, declarou. Para ele, Rússia e China não disputavam a chefia da ordem mundial, mas demonstravam, cada uma a seu modo, que era possível enfrentá-la em pontos específicos.
Ao desenvolver esse raciocínio, Pimenta argumentou que o imperialismo já não conseguia responder militarmente da mesma forma aos desafios recebidos. Disse que, no caso da Ucrânia, a principal reação do bloco imperialista tinha sido econômica, por meio de sanções e envio de armas, o que serviria para prolongar o conflito, mas não para assegurar uma vitória militar sobre a Rússia. A partir daí, concluiu que a crise mundial do imperialismo atingia um “grau inédito”.
Foi nesse cenário que Pimenta afirmou que o mundo se aproximava do limiar de uma etapa pré-revolucionária — isto é, uma etapa em que “as massas começam a se agitar, o Estado se enfraquece, a relação de forças começa a mudar, mas ainda não se colocou o problema do poder político”.
Ao abordar a questão identitária, Pimenta afirmou que ela assumia um caráter antioperário e estava voltada contra os setores mais pobres da população. Defendeu uma ruptura política com a esquerda pequeno-burguesa pró-imperialista e cravou: “é preciso rejeitar a política da esquerda pequeno burguesa pró-imperialista de maneira cortante”.
Em seguida, o dirigente tratou da orientação de frente única com todos os setores considerados verdadeiramente anti-imperialistas. “A questão da luta anti-imperialista é superior a qualquer coincidência retórica ou ideológica com a esquerda”, afirmou. A partir dessa formulação, explicou por que o partido aceitava convites para debater com setores de direita em determinadas circunstâncias.
Nesse trecho, Pimenta insistiu que o PCO não deveria se considerar automaticamente mais próximo de partidos de esquerda adaptados ao imperialismo do que de setores de direita que, em determinadas questões, assumissem posição anti-imperialista.
A parte nacional do informe concentrou-se na situação do PT, nas eleições de 2022 e nas perspectivas da luta de classes no Brasil. Pimenta descreveu o País como uma expressão particular da crise internacional e afirmou que, diferentemente de casos como o do Chile e o da Colômbia, no Brasil havia um fenômeno mais complexo em razão do peso social e histórico do PT. Disse que o partido mantinha uma base ampla de ativistas, apesar de sua política de capitulação, e avaliou que o golpe de 2016 não havia sido plenamente bem-sucedido justamente por causa da existência dessa base.
Ao tratar da direção petista, afirmou que, sempre que se sente confortável, o PT “desliza velozmente para a direita”. Nessa parte, criticou a adesão de setores petistas à chamada “carta da democracia” e ironizou o entusiasmo com o ato da Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco.
Pimenta sustentou que, tanto em caso de vitória quanto de derrota de Lula, a tendência seria de aprofundamento da crise política. Afirmou que, se Lula perdesse, a crise dentro do PT seria imediata e gigantesca; se vencesse, o mesmo processo ocorreria “em câmera lenta”, sob pressão simultânea da burguesia, do imperialismo e das massas trabalhadoras.





