Ricardo Machado

É dirigente do Sindicato dos Bancários de Brasília e ex-dirigente da CUT-DF. Integra a Coordenação dos Comitês de Luta do DF e Membro do Partido da Causa Operária (PCO)

Coluna

Dia 20 haverá paralisação dos bancários

Para que os trabalhadores sejam vitoriosos em suas campanhas, nem que seja parcialmente, é necessário que haja uma efetiva participação do trabalhador

Nesta segunda-feira (17), através de votações virtuais, foi aprovada a paralisação de 24h dos bancários, contra a intransigência dos banqueiros.

Devido a negativa dos banqueiros, nas sucessivas mesas de negociações entre o Comando Nacional dos Bancários e a Fenaban (Federação Nacional dos Bancos) de apresentar propostas ou mesmo contra propostas às pautas de reivindicações da categoria bancária, que se encontra em Campanha Salarial, a executiva da Contraf/CUT (Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro), deliberou em defender uma paralisação de 24h no próximo dia 20 de agosto, em resposta aos banqueiros, que se negaram a atender às reivindicações dos bancários e, pior, retroceder nos seus direitos com o congelamento do piso de ingresso e de estabelecer reajustes diferenciados para três faixas salariais. Além disso, se recusaram a apresentar qualquer índice de reajuste, sendo que a reivindicação da categoria é o INPC + 5% de ganho real.

Porém, todo mundo sabe, e a categoria mais ainda, que em momento algum os patrões,  no caso os banqueiros, setor mais parasitário da economia, irão abrir mão de acatar os trabalhadores e a população para beneficiar quem quer que seja, são uns verdadeiros vampiros, preparados para pular no pescoço do trabalhador para arrancar até a última gota de sangue dos trabalhadores e da população, para garantir os seus lucros. 

Mas, infelizmente, da forma que a burocracia está organizando a Campanha Salarial, com certeza a categoria irá amargar, mais uma vez, uma derrota.

Para que os trabalhadores sejam vitoriosos em suas campanhas, nem que seja parcialmente, é necessário que haja uma efetiva participação do trabalhador, nas assembleias, comandos de base, piquetes etc., mas não é assim que as coisas acontecem. A burocracia sindical se utiliza de instrumentos que inviabilizam a participação dos trabalhadores. 

A “paralisação” de 24h, “aprovada” no dia de ontem, foi feita de forma virtual, ou seja, a Contraf disponibilizou um link (um tal de Votabem) e ali os bancários votaram se aceitavam ou não a proposta dos banqueiros e se eram a favor da “paralisação de 24h”. 

Segundo a Contraf, 50 mil bancários votaram dessa forma, sendo que 97% foram contra a proposta da Fenaban e 90% disseram sim para a “paralisação”. Ou seja, apenas 11% da categoria bancária, que conta com cerca de 450 mil trabalhadores, em todo o território nacional participaram da votação.

Essa forma burocrática de assembleia engessa completamente as discussões nas assembleias de verdade com a presença em carne e osso do trabalhador (em algumas localidades chamaram plenárias, sem nenhum poder de decisão) com propostas já fechadas pelas direções do movimento, sem que outras correntes políticas do movimento, ou mesmo, aquele bancário de base pudesse defender e ter votada a sua proposta.

Aí fica a indagação: se as assembleias são virtuais, conforme delibera a burocracia sindical, não será que a participação, na paralisação dos bancários, também seja virtual!? Nos parece bem lógico.

Esses burocratas querem jogar no colo a responsabilidade no trabalhador da sua não participação na greve, nos piquetes etc., mas dessa forma como conduzem o movimento é mais do que claro que a consequência será um movimento esvaziado.

Nas plenárias, que aconteceram antecedendo a tal assembleia virtual, foi quase unânime, nas falações da burocracia, clamando para que os bancários participem da greve, que não trabalhem etc. e tal para, logo em seguida, quando a burocracia aceitar a primeira migalha dos banqueiros jogada nas mesas de negociações, culpar o trabalhador que não se mobiliza, não quer lutar, que a gente chamou mas o bancário não comparece ou coisas que o valham.

A assembleia virtual nada mais é do que uma assembleia de faz de conta, que anula a participação e a manifestação livre do trabalhador que deveria estar presente. Nada de concreto virá dessa política de faz de conta. Essa inoperância sindical está trazendo consequências devastadoras para os bancários e para todos os trabalhadores, tanto no que diz respeito à perda de benefícios e direitos como também na perda de poder aquisitivo dos salários e do próprio emprego.

E ataques contra os bancários ainda mais duros virão, pois continuam na pauta as privatizações dos bancos públicos, o fim da jornada de 6 horas, a extinção dos planos de saúde vinculados à empresa. 

Na pandemia, foi usado como argumento fajuto para as assembleias virtuais, mas agora, não há argumento para tal política. 

Alijar os trabalhadores de um direito fundamental que é participar e fazer a luta real, debater, se reunir, é um verdadeiro crime, o que falta é o interesse mesmo da burocracia sindical, visando preservar outros objetivos, que não o dos trabalhadores.

Não há outro caminho, apenas indo às ruas, estando lado a lado com a classe operária, é que se poderá efetivar um combate real aos banqueiros, que não descansará enquanto não acabar com os direitos dos bancários conquistados na luta de décadas. 

Com essa política de reuniões e assembleias virtuais, as lideranças sindicais adotaram ainda mais uma postura capituladora diante dos banqueiros, vimos isso claramente no desfecho da campanha salarial passada, onde outras reivindicações importantes como o reajuste das perdas salariais diante da inflação, o aumento real, a estabilidade no emprego, regulação do teletrabalho dentre outras, embora constasse na pauta, foram solenemente ignoradas pelos banqueiros. A política clara dos sindicatos foi pelo aceite ao que foi oferecido.

É preciso que a categoria exija dos dirigentes sindicais uma postura real de luta. Que as reuniões presenciais sejam incrementadas em todos os lugares, cidades do interior também, e as decisões de pauta sejam consolidadas presencialmente nas sedes. Assim, é preciso combater essa política de capitulação e atuação virtual das atuais direções das organizações sindicais, exigir mobilização nas ruas, com uma política de união de classe e de luta que representa realmente os interesses da categoria e assim aproximar a base ao sindicato.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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