Driss Mrani

Fundador e presidente do Movimento Progressista Marroquino, que visa promover princípios progressistas no Marrocos derrubando a monarquia totalitária que serve ao imperialismo e, então, estabelecer uma república democrática na qual todos os segmentos do povo marroquino participem sem descriminação

Coluna

Detenção no Brasil evidencia caça a opositores fora do País

“A história de Mohamed Bouchana e Ibtissam Wiklandour transformou-se, assim, em símbolo de uma luta maior”

A detenção do ativista saaraui Mohamed Bouchana no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, a pedido de Marrocos, revela um capítulo alarmante de perseguição política além-fronteiras contra defensores do direito de autodeterminação do povo saaraui. Natural de Laayoune, na República Árabe Saarauí Democrática, Bouchana tornou-se alvo de um alerta internacional que, em princípio, deveria ser usado apenas para crimes comuns graves — e não para disputas políticas.

Uso político de mecanismos internacionais

A defesa sustenta que o alerta possui motivação política, o que, se confirmado, violaria diretamente o estatuto da Interpol, que proíbe intervenções em questões políticas. Ainda assim, Mohamed Bouchana permanece retido enquanto as autoridades analisam o caso, evidenciando como instrumentos jurídicos globais podem ser manipulados para atingir opositores.

Segundo a professora Monica Fonseca Severo, integrante de um comitê de solidariedade ao povo saaraui, as acusações seriam fabricadas. A posição é reforçada pela Fundação Ativistas da Mídia e dos Direitos Humanos do Canadá, que afirma tratar-se de um ativista pacífico perseguido exclusivamente por suas opiniões e participação em manifestações não violentas, inclusive durante os protestos de Gdeim Izik, reprimidos com severidade.

Histórico de repressão

Relatos indicam que a perseguição começou ainda na juventude, com detenções, intimidações e violência policial. Mesmo após deixar a região, as pressões teriam continuado, sugerindo um padrão de vigilância e coerção que ultrapassa fronteiras nacionais.

O presidente do Movimento Progressista Marroquino, Driss Mrani, já havia alertado, em artigo publicado no Diário Causa Operária, sobre a existência de perseguição transnacional contra opositores do regime. O caso atual do casal parece materializar esse aviso, indicando possível uso de cooperação policial internacional para alcançar dissidentes no exterior.

A esposa marroquina e o sacrifício da lealdade

A esposa de Mohamed, Ibtissam Wiklandour, cidadã marroquina, representa um símbolo de compromisso humano e pessoal. Permanecer ao lado do marido diante de pressões políticas, riscos legais e incertezas migratórias demonstra um sacrifício significativo. Sua decisão de não se afastar dele, mesmo sendo de nacionalidade diferente e potencialmente exposta a consequências, revela não apenas fidelidade conjugal, mas também coragem moral e solidariedade que transcendem fronteiras nacionais e disputas políticas.

Dimensão jurídica e humanitária

O casal está inscrito no sistema do CONARE, aguardando decisão sobre o pedido de refúgio. Pelo direito internacional, solicitantes de asilo não podem ser devolvidos a países onde correm risco de perseguição política — princípio conhecido como não devolução. Qualquer extradição nessas circunstâncias poderia configurar grave violação de compromissos humanitários.

Um teste para a credibilidade internacional

Mais do que um caso individual, a situação tornou-se um teste para a capacidade das instituições internacionais de resistirem a pressões políticas. Se confirmada a instrumentalização de mecanismos legais globais para fins repressivos, não será apenas uma irregularidade pontual, mas um precedente perigoso para ativistas e dissidentes em todo o mundo.

A história de Mohamed Bouchana e Ibtissam Wiklandour transformou-se, assim, em símbolo de uma luta maior: a defesa do direito de expressão, de refúgio e de proteção internacional contra perseguições políticas. O desfecho poderá determinar não só o destino do casal, mas também a credibilidade do sistema internacional de proteção aos perseguidos.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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