A prisão da ativista marroquina residente na França, Zineb Kharoubi, assim que chegou ao Aeroporto de Marrakech, e sua convocação para julgamento em 26 de fevereiro em Casablanca, não representam um procedimento judicial comum, como o poder tenta fazer parecer. Para opositores, é uma prova clara da lógica de um regime que não vê o cidadão como titular de direitos, mas sim como um súdito. A acusação oficial é de “incitação nas redes sociais”; mas a acusação real é a de ter ousado falar.
O que acontece hoje no Marrocos não é a aplicação neutra da lei, mas uma demonstração de força. Há mais de mil detidos em decorrência de um movimento juvenil em outubro de 2025 que não pediu a queda do regime nem o caos, mas sim três coisas básicas: educação, saúde e emprego. Não são exigências revolucionárias; são exigências de sobrevivência. Ainda assim, a resposta foi repressiva, judicial e intimidatória.
O defensor de direitos humanos Omar Arabib, da Associação Marroquina de Direitos Humanos, afirmou que o processo contra Zineb Kharoubi se baseia em publicações nas redes sociais. A contradição salta aos olhos: um Estado incapaz de resolver o desemprego e a desigualdade mostra uma eficiência notável quando se trata de perseguir militantes.
Um poder que confia em si mesmo não teme frases nem publicações. Apenas regimes autoritários tremem diante de opiniões. Por isso, opositores afirmam que a escalada repressiva não demonstra força, mas um medo político profundo — sobretudo com a circulação de especulações sobre o futuro do poder e a possibilidade de transferência ao príncipe herdeiro Hassan III. Momentos assim costumam vir acompanhados do fechamento do espaço público e do silenciamento preventivo.
O julgamento de Zineb não é um aviso apenas para ativistas; é um recado para toda uma geração: “não fale”. Mas cada prisão transmite outra mensagem involuntária: há algo que o poder teme. Um Estado legítimo não precisa calar vozes; a própria população o defende. Quando tribunais substituem o diálogo, significa que a política fracassou.
Conclusão
Não se trata de um processo por publicações, mas de um sistema que não tolera críticas. Não é apenas o caso de uma ativista, mas o retrato de um país onde jovens pedem escola, hospital e trabalho — e recebem processos e detenções. O julgamento de Zineb Kharoubi não é um episódio isolado; é um teste decisivo: o Estado serve ao povo ou o povo é obrigado a servir em silêncio?




