França

Deputada é vítima de conluio do governo Macron com jornais sionistas

Caso serviu para aumentar o cerco contra a militância pró-Palestina e também atingir eleitoralmente o partido de esquerda França Insubmissa

Uma investigação do programa Complément d’enquête, da France 2, acusa o ministro do Interior francês, Laurent Nuñez, de ter repassado a jornalistas informações falsas sobre supostas drogas encontradas com a eurodeputada Rima Hassan. Os produtos eram CBD, e a investigação aberta contra ela foi arquivada. A França Insubmissa (LFI) exige a renúncia do ministro.

Hassan foi detida em abril, depois de compartilhar uma publicação que citava Kozo Okamoto, integrante do Exército Vermelho Japonês condenado pelo ataque ao aeroporto de Lod, em Tel Aviv, em 1972. A polícia a colocou sob investigação por “apologia do terrorismo”, acusação que pode levar a sete anos de prisão.

Na delegacia, os agentes encontraram dois recipientes entre os pertences da deputada. Havia uma substância marrom e cristais brancos. Hassan informou que os produtos tinham sido comprados legalmente na Bélgica e eram usados por razões médicas.

Um exame inicial indicou a possibilidade de catinonas sintéticas. Antes que o laboratório concluísse a análise, jornais passaram a noticiar que Hassan carregava drogas sintéticas e um derivado de cocaína. A Procuradoria de Paris abriu então uma investigação por uso, transporte e posse de entorpecentes.

O exame definitivo identificou CBD nas substâncias. Sem prova de crime, a investigação foi arquivada. Mesmo assim, a acusação já havia sido usada para atingir a imagem de uma deputada conhecida por defender a Palestina.

O ministro e a divulgação da acusação

A equipe do Complément d’enquête ouviu jornalistas que conversaram com Nuñez em um trem, durante seu retorno de uma viagem oficial a Bordéus. Um deles relatou que o ministro respondeu: “É possível que seja verdade”. Depois, teria descrito o material como uma substância sintética e um derivado da cocaína.

Outro repórter afirmou que Nuñez mencionou a versão de Hassan sobre a compra dos produtos na Bélgica. A conversa foi repassada às redações e acabou dando origem à informação de que drogas sintéticas haviam sido encontradas com a deputada.

O gabinete do ministro declarou à Agência France-Presse que o encontro ocorreu de forma reservada, depois de os jornalistas perguntarem sobre informações já publicadas. No dia seguinte, porém, Nuñez declarou à BFMTV: “Também lamento que tenham ocorrido vazamentos”.

Na quinta-feira (17), durante audiência na Assembleia Nacional, Nuñez reconheceu que havia conversado com os jornalistas, mas negou ter organizado a divulgação das informações. “Não organizei vazamento algum”, afirmou. Disse ainda que apenas havia pedido cautela aos repórteres.

A LFI acusou o governo de manipular a imprensa para atingir uma adversária política. Em comunicado, o partido afirmou que “a divulgação de informações protegidas pelo sigilo da investigação e seu uso pela imprensa são incompatíveis com os princípios do Estado de Direito”.

Jean-Luc Mélenchon disse que um “ministro manipulador” havia recorrido a jornalistas “sem escrúpulos” para produzir horas de calúnias. O coordenador da LFI, Manuel Bompard, afirmou que Nuñez violou o sigilo da investigação e depois foi à televisão lamentar os vazamentos.

Hassan também pediu a demissão do ministro. “Essa manipulação política grosseira já durou demais. Ele deve tirar as consequências e renunciar!”, escreveu. A deputada e seu advogado apresentaram uma denúncia por violação do sigilo da investigação. A Procuradoria de Paris abriu um inquérito sobre a origem das informações.

Estado francês persegue a defesa da Palestina

Rima Hassan é neta de palestinos expulsos de suas terras, nasceu em um campo de refugiados em Alepo e chegou à França ainda criança. No Parlamento Europeu, defende a suspensão do acordo entre a União Europeia e “Israel” e participa de iniciativas de ajuda a Gaza.

A deputada também enfrenta uma sequência de processos e convocações policiais. Reportagem da RT registra mais de 20 procedimentos contra ela até meados de 2026, muitos arquivados ou rejeitados. As autoridades rastrearam seu telefone e obtiveram registros de viagens anteriores à abertura formal do caso.

A legislação francesa facilita esse tipo de perseguição. Em 2014, o crime de “apologia do terrorismo” saiu da legislação de imprensa e passou ao Código Penal. A mudança permitiu que declarações publicadas na Internet fossem tratadas como caso policial, com penas de até sete anos.

A lei foi usada contra Hassan, contra a deputada Mathilde Panot e contra o pesquisador François Burgat. Em 2026, a iraniana Mahdieh Esfandiari foi condenada por publicações relacionadas à Palestina.

O governo francês também dissolveu, em 2025, o coletivo Urgence Palestine, acusado pelo então ministro do Interior Bruno Retailleau de incitar a violência. A entidade contestou a decisão e denunciou uma tentativa de impedir manifestações de solidariedade aos palestinos. É um verdadeiro Estado policial e ditatorial.

A política externa e a repressão interna obedecem à mesma orientação. Em 2019, Emmanuel Macron declarou, durante um jantar do Conselho Representativo das Instituições Judaicas da França, que o antissionismo seria uma “forma moderna de antissemitismo” e anunciou a adoção da definição da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto, a mesma que o lóbi sionista está impondo Brasil afora.

O “mal menor” da burguesia

A imprensa burguesa costuma apresentar Macron como um governante moderno e progressista, capaz de servir de contraponto ao imperialismo norte-americano de Donald Trump. Marine Le Pen, aliada política de Trump na França, é apresentada como o perigo maior; Macron aparece como o “mal menor”. A esquerda compatível e totalmente adaptada ao regime burguês cai nessa laia.

Os fatos envolvendo Rima Hassan desmentem essa imagem. O governo que fala em democracia usou o Ministério do Interior para espalhar uma acusação sem prova contra uma deputada eleita, vigiar seus deslocamentos e submetê-la a uma investigação por defender a Palestina.

Uma pesquisa do instituto Elabe para a BFMTV mostrou que 63% dos entrevistados estariam dispostos a fazer “barreira” à LFI em um segundo turno, contra 45% que fariam o mesmo contra o Reagrupamento Nacional. Entre os simpatizantes do campo presidencial, os índices foram de 81% contra a LFI e 66% contra o RN. Trata-se de uma pesquisa claramente manipulada por um instituto da burguesia, como os institutos de pesquisa eleitoral no Brasil, para tentar fazer a cabeça da população.

Isso porque a burguesia “liberal” que colocou Macron no poder e o sustenta até hoje teme uma vitória da França Insubmissa, mesmo sendo um partido moderado. A burguesia e o imperialismo estão mostrando que preferem a extrema-direita à possibilidade de radicalização e mobilização dos trabalhadores.

Quando a França Insubmissa ameaça crescer, com possibilidades de vencer as eleições do ano que vem, a burguesia “liberal”, os “democratas”, abandona a aparência de oposição à extrema direita e busca bloquear a esquerda mais radicalizada.

A burguesia que se apresenta como “democrática” e “civilizada” é inimiga da verdadeira esquerda e se une à extrema direita para defender o sionismo e impedir a organização popular.

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