Polêmica

Defesa da Venezuela ou do Partido Democrata?

UP diz defender Venezuela, mas usa texto para atacar a Rússia, e para criar a ideia de que o imperialismo é, na verdade, apenas o governo Trump

No dia 24 de novembro do ano passado, foi publicada uma matéria no sítio do partido Unidade Popular pelo Socialismo (UP) no qual é possível ter uma ideia do que pensam seus militantes sobre a luta de classes na Venezuela. Embora tenha se passado cerca de um mês meio desde sua publicação, o texto traz pontos importantes que precisam ser discutidos.

A matéria se inicia com um panorama do mundo nos dias de hoje:

Os países imperialistas avançam na sanha de repartir o mundo. Saqueiam matérias-primas, dominam áreas de influência e territórios, se preparando com grande velocidade para a 3ª guerra mundial.

Até esse ponto, podemos dizer que a análise está correta. No entanto, parece haver uma confusão sobre o que é o imperialismo e quais seriam os países imperialistas, como vemos logo na sequência:

Os EUA seguem saqueando o petróleo do Oriente Médio e a Rússia avança para ocupar a Ucrânia, onde pretende controlar o petróleo e o gás natural. Israel, com apoio dos EUA, massacra o povo palestino para dominar o território de Gaza. Além disso, os países imperialistas promovem inúmeros golpes institucionais e militares por toda América Latina, África e Ásia, com o objetivo de submeter os governos e a soberania dos países.

Ou seja, para a UP, a Rússia seria um país imperialista que teria invadido a Ucrânia atrás de seus recursos naturais e que representaria um perigo para o mundo tanto quanto os EUA. É interessante notar que, apesar de citar nominalmente a Rússia, a matéria não menciona nem os países da Europa, nem o Japão, o que daria a entender que o mundo estaria dividido entre a Rússia e os EUA.

É uma interpretação baseada nas interpretações da imprensa burguesa, que vem atacando a Rússia desde antes da operação militar na Ucrânia e que ignora a presença da OTAN e do imperialismo de verdade contra os russos.

O imperialismo, como observa Vladimir Lênin, é a ditadura dos monopólios daqueles países que chegaram ao desenvolvimento pleno do capitalismo, não sendo possível, após sua consolidação entre o final do século XIX e a Primeira Guerra Mundial, que outro país se eleve ao posto de país imperialista.

A Rússia nunca foi um país plenamente desenvolvido, não possui monopólios em nenhum setor do comércio mundial e não controla, diferente dos países imperialista, o Estado dos demais países atrasados. Apesar de ser um país com um território imenso, com amplos recursos naturais e com tecnologia avançada em alguns setores, como é o caso da indústria bélica, o país vive da exportação de matérias-primas, como o gás, não podendo, portanto, ser um país imperialista.

A posição da UP aparece como uma tentativa de manter a capitulação diante do principal setor da burguesia imperialista, mas com alguma coisa que ainda lembre um partido radical de esquerda e anti-imperialista, uma espécie de linha dura da esquerda do Partido Democrata dos EUA.

Isso, porque, além de atacar a Rússia, como faz o partido de Joe Biden – quem de fato começou a guerra na Ucrânia ao tentar colocar o país na OTAN e ao ameaçar a Rússia com bombas atômicas, a UP tem uma crença quase cega no “direito internacional”, ou seja, o direito dos países imperialistas na operação de rapina do mundo, como vemos no parágrafo a seguir:

Todos esses casos não ocorrem de maneira isolada, são parte dos planos de dominação imperialista, para saquear matérias-primas, disputar mercados para seus monopólios e dominar territórios estratégicos em todo o mundo. Agora os Estados Unidos se preparam para invadir a Venezuela, derrubar o governo eleito de Nicolás Maduro, violando o direito internacional que assegura a autodeterminação aos povos.

O direito internacional nunca garantiu, a não ser com palavras, a autodeterminação de ninguém. Onde está o direito internacional no genocídio na Palestina? Onde estava o direito internacional durante o bombardeio da Iugoslávia, a invasão do Iraque, do Afeganistão, da Líbia, da Síria, durante o genocídio na Argélia, durante todas as ditaduras na América Latina, durante o apartheid da África do Sul e todos os atos criminosos do imperialismo?

No entanto, podemos ver como o direito internacional com apenas alguns dias da Operação Militar Especial na Ucrânia agiu para isolar a Rússia e condenar Putin, mesmo com quase dez anos de genocídio ininterrupto da Ucrânia contra a população do Donbas, justamente um povo que queria a autodeterminação impressa nas leis do direito internacional.

No entanto, nenhum ponto mostra mais como a “luta anti-imperialista” é, na verdade, apenas propaganda do Partido Democrata do que as citações sobre Donald Trump:

Tudo isso com a velha justificativa de combate as drogas, mas a verdade é que Trump tem como objetivo real garantir aos poderosos monopólios capitalistas o controle sobre a Venezuela, país detentor da maior reserva de petróleo do mundo. Além disso, pretendem roubar deste país grandes volumes de terras raras e metais preciosos, estratégicos para fabricação de tecnologia de ponta.

Como se não bastasse, o fascista Donald Trump anunciou uma recompensa pela cabeça do presidente venezuelano no valor de US$ 50 milhões (aproximadamente R$ 270 milhões) e atacou com mísseis sete barcos venezuelanos, matando 32 pessoas. Além disso, o imperialismo estadunidense mobilizou força máxima do Comando do Sul dos EUA, deslocando vários barcos de guerra, incluindo o maior porta-aviões do mundo, e posicionando para guerra mais de 12 mil militares. O grande volume de investimento deixa claro que pretendem, de fato, derrubar o governo, mesmo que tenham que assassinar o presidente, invadir e ocupar o país.

E nas palavras de ordem do final do documento:

TRUMP, TIRE AS PATAS DA VENEZUELA!

Em defesa da Soberania do povo Venezuelano!

Pela construção do poder popular e do Socialismo!

Ou seja, o problema é Donald Trump, já que em dois anos de genocídio na Palestina a UP jamais chegou a dizer “Joe Biden, tire as patas de Gaza!” ou algo similar.

Por fim, apenas mais um comentário teórico sobre o texto, tomando como base o parágrafo a seguir:

Defendemos à autodeterminação do povo venezuelano que tem o direito à autodefesa de seu território contra os invasores. Sabemos que a luta anti-imperialista precisa estar ligada à luta contra o capitalismo. Muitos dos problemas econômicos e políticos enfrentados pelo povo venezuelano nos últimos anos aconteceram não por conta do “socialismo” como acusa a extrema-direita, mas justamente pela não socialização das terras, bancos e fábricas.

É estranho que se diga “a luta anti-imperialista precisa estar ligada à luta contra o capitalismo.”, pois, como diz o próprio título do livro de Lênin Imperialismo, fase superior do capitalismo, o imperialismo não é algo em separado do capitalismo, mas sim, uma etapa deste, na qual as grandes empresas e os bancos se fundiram ao Estado e formaram grandes monopólios que controlam os Estados dos países atrasados.

O que o trecho parece querer dizer, portanto, é que a luta contra o imperialismo precisa necessariamente ter uma carga ideológica pseudocomunista, o que pode ser descartado. Vemos, por exemplo, como o Partido Comunista da Venezuela age a serviço do imperialismo, mesmo após o sequestro de Maduro, dizendo lutar pelo socialismo em oposição ao governo bolivariano, quando na realidade quem de fato luta contra o imperialismo é justamente o governo chavista. Por outro lado, vale mais a dedicação de partidos e movimentos como o Hamas, o Hesbolá, o Ansaralá os governos de Irã, Rússia, China e o próprio governo bolivariano na Venezuela, que não fazem demagogia alguma, mas de fato enfrentam o imperialismo.

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