Em artigo publicado no Brasil 247, assinado por Eduardo Guimarães, sob o título Mídias e ‘PF do B’ se encontram no golpismo, no dia 7 de março de 2026, o autor procura denunciar uma suposta articulação entre setores da imprensa e da Polícia Federal (PF) contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). No entanto, ao longo do texto, acaba escancarando um dos principais desvios políticos da esquerda pequeno-burguesa no último período: a defesa aberta do STF como se o tribunal fosse um instrumento de combate ao bolsonarismo.
Logo no início, Guimarães afirma que “A Polícia Federal se dividiu em duas: a oficial, comandada pelo doutor Andrei Rodrigues, e a ‘PF do B’ (B de bolsonarismo), comandada por André ‘Terrivelmente Evangélico’ Mendonça”. A formulação já revela o problema central de seu raciocínio. Em vez de explicar a crise do ponto de vista da luta entre classes e da disputa entre setores da burguesia dentro do Estado, ele apresenta a situação como se houvesse uma ala “legítima”, quase republicana, da PF, e outra ala desviada, bolsonarista, que estaria conspirando contra a “democracia”.
É precisamente aí que o autor se perde. A Polícia Federal não é uma instituição neutra, nem democrática, nem pode ser dividida de modo simplista entre uma parte “boa” e outra “má”. A PF é um órgão do Estado capitalista, com longa tradição de perseguição política, operações dirigidas e intervenção na luta política nacional. A ideia de que existe uma PF “oficial” merecedora de confiança política é uma ilusão completa. A experiência da Lava Jato já deveria ter vacinado toda a esquerda contra esse tipo de fantasia.
Ao longo do artigo, a defesa do STF se torna ainda mais explícita. Guimarães escreve que “a ‘PF do B’ foi criada quando Edson Fachin, o pavão que desgoverna o STF, jogou no colo de André Mendonça a arma com a qual ele pretende justificar a dancinha que encenou com Michelle”. Embora procure apresentar isso como uma crítica a Fachin e Mendonça, o centro da argumentação é outro: a necessidade de defender determinados ministros do Supremo contra uma ofensiva de outros setores do regime.
Isso aparece de maneira cristalina quando ele afirma que a investigação “passa longe de Jair Bolsonaro” e que o alvo seria “Lula, Lulinha, Moraes e Toffoli. E, nos próximos capítulos, Flávio Dino e Gilmar Mendes”. Ou seja, o autor deixa de lado qualquer análise independente da esquerda e passa a enquadrar o problema em termos de defesa de figuras centrais do aparelho de Estado. A mensagem é clara: diante da ofensiva de uma ala reacionária, seria preciso cerrar fileiras com a outra ala, a ala do STF, de Moraes, Toffoli, Dino, Gilmar.
Em nome do combate ao bolsonarismo, setores da esquerda passaram a tratar o STF como uma espécie de trincheira democrática. Abandonaram qualquer política de independência de classe para se converter em linha auxiliar de uma facção da burguesia contra a outra. O resultado é desastroso: a esquerda deixa de mobilizar os trabalhadores com seu próprio programa e passa a servir de escudo político para instituições profundamente antipopulares.
O ponto culminante dessa capitulação aparece quando Guimarães escreve: “Agora, finalmente, o STF acordou e vai começar a jogar. Aguardem”. A frase é extremamente reveladora. O autor não chama a mobilização popular, não chama os trabalhadores a intervir com seus próprios meios, não denuncia o conjunto do regime. Ao contrário: deposita sua esperança no fato de que o STF “vai começar a jogar”. Isto é, espera uma reação de cúpula, uma contraofensiva palaciana dentro do próprio aparelho de Estado.
Trata-se de uma posição totalmente alheia aos interesses dos trabalhadores. Desde quando cabe à esquerda comemorar que o STF “entre em jogo”? O Supremo é um dos pilares do Estado, uma instituição sem controle popular, composta por figuras indicadas a portas fechadas e investidas de poderes extraordinários. Quando o STF “joga”, não joga em favor do povo, mas em favor da estabilidade do regime e dos interesses gerais da classe dominante. Pode, em determinado momento, entrar em choque com Bolsonaro ou com o bolsonarismo, mas isso não o transforma em aliado do movimento operário.
O mesmo problema aparece quando Guimarães critica o fato de a suposta “PF do B” “não presta contas a ninguém, a não ser a ele”, referindo-se a André Mendonça. A crítica parece correta à primeira vista, mas embute uma ideia ainda pior: a de que seria desejável uma PF funcionando com “autonomia”, desde que submetida ao comando “certo” ou à orientação “correta”. Quanto maior a autonomia da Polícia Federal, maior o poder de uma polícia de agir como força política sem qualquer controle popular.
A posição verdadeiramente democrática é a oposta da sugerida no texto. Não se trata de defender autonomia nenhuma para a PF. Trata-se de defender mais fiscalização, mais controle, mais limitação de poderes sobre a Polícia Federal. Depois de tudo o que aconteceu no País, desde o golpe de 2016 à prisão de Lula, é espantoso que ainda haja gente na esquerda disposta a tratar um setor da PF como reserva moral da República.
O mesmo vale, de maneira ainda mais forte, para o STF. Quanto mais fiscalização houver sobre o Supremo, melhor. Quanto mais seus poderes forem limitados, melhor. Quanto menos a vida política nacional ficar submetida às manobras de ministros não eleitos e blindados contra qualquer controle popular, melhor. Defender o STF em nome do combate ao bolsonarismo é fortalecer uma das instituições mais arbitrárias do regime político brasileiro.
No fundo, o artigo de Guimarães expressa a adaptação completa de um setor da esquerda à política das instituições. O autor vê uma disputa entre aparelhos do Estado e escolhe um lado: o lado do STF contra a ala bolsonarista da PF e da imprensa. Mas esse não é o papel da esquerda. O papel da esquerda é denunciar ambas as alas, mostrando que se trata de uma luta interna entre setores da burguesia e do aparato estatal, diante da qual os trabalhadores não podem abrir mão de sua independência política.




