54ª Universidade de Férias

Décima aula encerra curso sobre O Capital com dúvidas do público

Na sessão de perguntas e respostas, Rui Costa Pimenta abordou temas trazidos em perguntas pelos participantes nos grupos de discussão e aulas anteriores

Na décima e última aula do curso sobre O Capital, de Karl Marx, realizado na Universidade de Férias, Rui Costa Pimenta dedicou o tempo integral a responder dúvidas acumuladas do público, dos grupos de discussão e das aulas anteriores e dos grupos de discussão. Com o conteúdo programático concluído na nona aula, a sessão serviu como momento de consolidação e esclarecimento de conceitos que geram controvérsias frequentes entre os participantes.

Uma das questões centrais tratou da definição do lumpemproletariado. Rui Costa Pimenta esclareceu que não se trata simplesmente do setor sem consciência de classe ou que não exerce trabalho produtivo. Pimenta explicou que a classe operária não tem consciência de classe em situações que não sejam revolucionárias e votar na esquerda não faz alguém ter consciência de classe. 

O lumpemproletário diferencia-se da pequena-burguesia por não ser proprietário e por estar, em geral, abaixo da classe operária. Exemplos atuais incluem trabalhadores de aplicativos como Uber e iFood, cuja situação os caracteriza como lumpemproletários. Pimenta diz que os entregadores e motoristas de aplicativo são lumpemproletários, porque a situação deles é muito precária, porque a falta de trabalhos produtivos os empurra a trabalhos extenuantes e desnecessários. Nesse sentido, Pimenta também apontou sobre o crescimento do lumpemproletariado. Ele afirma que, quando o lumpemproletariado é numeroso, uma proporção maior desse segmento social tende a ser atraída pela classe operária.

Sobre a ideologia e sua influência na relação capital-trabalho, Rui Costa Pimenta explicou que a exploração independe da consciência dos envolvidos no processo produtivo. Pimenta apontou que a relação independe do que os participantes do processo produtivo pensam. A forma, por excelência, de acobertar a exploração capitalista é o fetichismo da mercadoria, destacou Pimenta.

Perguntas sobre trabalho qualificado levaram à distinção de que ele não altera a natureza da mercadoria força de trabalho, mas eleva seu valor ao considerar o tempo de qualificação: o valor da força de trabalho se multiplica.

No terreno histórico, Rui Costa Pimenta definiu o modo de produção asiático como aquele em que a divisão do trabalho permite a uma classe apoderar-se dos meios de produção agrícola, como na civilização egípcia. Sobre as civilizações inca, maia e asteca, afirmou que não soube responder com precisão, mas indicou proximidade com o modo asiático.

A discussão sobre moeda e lastro abordou a natureza do papel-moeda, que vale pouco em si mesmo e precisa de lastro externo, tradicionalmente em metais preciosos. Com a volatilidade cambial, o lastro torna-se indefinido, mas o dólar circula globalmente com contrapartida na sociedade norte-americana. A moeda brasileira está lastreada em outra moeda, o dólar, explicou Pimenta. Não há impedimento em nenhuma lei para lastrear em outras mercadorias, como petróleo, embora o ouro seja o mais tradicional. Quanto ao Bitcoin, Rui Costa Pimenta negou seu caráter de moeda, porque não tem quem garanta essa moeda. Não há um país, um banco central, que garanta o Bitcoin. A confiança é fundamental. Além disso, uma vez que ficar sem expansão possível, o Bitcoin se inviabiliza.

Outros pontos incluíram o caixa de supermercado, que vende força de trabalho com natureza distinta, sem produzir mercadoria diretamente. O comércio primitivo, como escambo indígena, representa troca de bens e divisão inicial do trabalho. A burguesia vive segundo as aparências sociais, assim como os demais entes da sociedade, sem existir uma “burguesia marxista”, que enxergue a luta de classes e defenda o lado da burguesia. 

Respondendo a outra dúvida, Pimenta afirmou que a dependência permanente de Bolsa Família caracteriza lumpemproletariado; esporádica, indica proletário desempregado. 

O conceito de alienação foi resumido por Pimenta, que explicou que o trabalhador vê o produto de seu trabalho como uma coisa alheia e hostil a ele.

Rui Costa Pimenta observou que algumas perguntas extrapolaram os conceitos fundamentais de O Capital tratados no curso. Foi proposto manter o estudo por vias complementares, como grupos de estudo permanentes, garantindo a continuidade da formação marxista iniciada no curso. A aula reforçou a importância de compreender rigorosamente as categorias marxistas para a luta política.

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