Três universidades, três estados e uma mesma campanha eleitoral produziram episódios semelhantes contra candidatos do Partido da Causa Operária (PCO). Em São Paulo, Brasília e Santa Catarina, militantes ligados à política identitária reagiram às posições do PCO sobre sexo, cotas trans e livre ingresso nas universidades não apenas com divergência política, mas com tentativas de interromper falas, acusações públicas de “transfobia”, ameaça de intervenção policial ou exclusão de espaços de debate.
O caso mais recente ocorreu na Universidade de Brasília (UnB). Na quarta-feira (30), Expedito Mendonça, candidato do PCO ao Governo do Distrito Federal, participava de um debate organizado pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE), pelo Sindicato dos Trabalhadores da Fundação Universidade de Brasília (Sintfub) e pela Associação dos Docentes da UnB (ADUnB). O encontro reuniu também candidaturas do PT, PSTU, UP, PSDB e Agir.
Uma pergunta enviada pelo público exigia que Expedito se explicasse sobre as críticas do PCO às cotas trans e perguntava se ele concordava com a posição do Partido.
Expedito começou a responder. Defendeu os direitos das pessoas transexuais, explicou a posição do PCO sobre as cotas e procurou apresentar a política de livre ingresso nas universidades. Antes que pudesse desenvolver o raciocínio, veio o método adotado por parte da plateia.
“Ah, vai tomar no cu!”, gritou uma pessoa.
Expedito continuou. Vieram então os gritos de “transfóbico”. Depois “pífio”. Novamente “transfóbico”. Por fim, enquanto o candidato ainda estava com a palavra, formou-se um coro:
“As cotas trans vão existir! A UnB vai ser toda travesti!”
O episódio não depende da interpretação de terceiros. A gravação registra as interrupções e o conteúdo da resposta. Expedito afirmou expressamente que defendia os direitos das pessoas trans, mas não considerava necessária uma reserva universitária específica. Apresentou, em oposição ao sistema de distribuição das poucas vagas existentes, a proposta do PCO de acabar com o vestibular e permitir o ingresso de todos os estudantes.
“Defendemos o fim do vestibular e o livre ingresso nas universidades! Acabar com o funil do vestibular e garantir livre ingresso na universidade a todos os segmentos!”, afirmou.
A discordância sobre as cotas é real. A UnB atualmente possui um sistema específico de vagas reservadas para pessoas trans. A universidade recebeu em março a primeira turma ingressante por essa modalidade e o Vestibular de 2027 mantém quatro sistemas de acesso: universal, escola pública, cotas para negros e cotas para pessoas trans.
Nada disso, porém, impede a discussão da política. A universidade deveria ser justamente um dos lugares onde uma medida pudesse ser defendida, combatida, examinada e submetida a argumentos. O que ocorreu durante a resposta de Expedito foi o contrário: uma tentativa de transformar uma divergência política em acusação moral e o debate numa disputa para ver quem conseguia berrar mais alto.
O caso não foi isolado.
Dois dias antes, na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), Izadora Dias, candidata do PCO ao governo paulista, enfrentou situação ainda mais grave.
Durante um debate sobre saúde, Izadora foi questionada sobre a situação das mulheres no sistema penitenciário. A candidata defendeu que os presídios continuassem separados segundo o sexo e mencionou denúncias de conflitos envolvendo mulheres e presas transexuais.
“Os presídios precisam ser definidos pelo sexo. Há muita denúncia de mulheres que estão sendo ameaçadas, que estão sofrendo com a presença de mulheres trans”, afirmou.
Izadora acrescentou que, para discutir políticas específicas para as mulheres, seria preciso definir o próprio objeto da política. “Todo mundo fala em defender a mulher, mas o que é mulher? O que estamos definindo como mulher?”, questionou.
A reação veio de uma representante do Centro Acadêmico Emílio Ribas (CAER), entidade que apoiava a organização do encontro. A estudante declarou considerar a fala “muito grave”, anunciou o “repúdio” do centro acadêmico e afirmou que “fobia é crime”.
Quando Izadora teve a oportunidade de responder, afirmou que o PCO não mudaria suas posições para adaptá-las ao ambiente em que estivesse.
“O Partido da Causa Operária não muda sua opinião para ficar a reboque da opinião pública.”
Vieram então os gritos de “transfóbica”. Segundo Izadora relatou posteriormente ao DCO, estudantes chegaram a anunciar que ela não sairia do local porque haviam chamado a polícia.
“Ao encerrar o debate, estudantes deram o alarme de que eu não ia sair, porque chamaram a polícia para mim”, relatou.
O DCO publicou a denúncia em 1º de outubro. A matéria registra que a confusão começou precisamente depois de Izadora defender a divisão dos presídios por sexo e contestar a transformação de divergências desse tipo em crime.
Passa-se, portanto, de uma acusação política para uma coisa muito mais séria. Não se trata mais de alguém dizer que considera a posição de Izadora errada. Trata-se de chamar a polícia contra uma candidata porque ela expressou uma posição política num debate eleitoral dentro de uma universidade.
A operação é reveladora. Primeiro, uma determinada política é declarada indiscutível. Depois, quem discorda recebe um rótulo. Em seguida, o rótulo deixa de servir apenas para atacar politicamente o adversário e começa a ser apresentado como justificativa para impedir sua fala, expulsá-lo de determinado ambiente ou submetê-lo à repressão.
Em Santa Catarina, o mecanismo apareceu antes mesmo de Bruno Pedreiro chegar à mesa do debate.
Bruno, candidato do PCO ao governo catarinense e trabalhador da construção civil, denunciou em setembro que havia sido deixado de fora de um encontro organizado pelo DCE da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Segundo seu relato, ele sequer havia sido informado da atividade e só descobriu que existiria um debate depois que um estudante lhe enviou a divulgação e perguntou por que não participaria.
Bruno cobrou publicamente uma explicação. A publicação passou a receber dezenas de comentários exigindo a presença do candidato. Segundo ele, os comentários foram fechados, reabertos e, posteriormente, a própria publicação foi apagada. O DCO registrou a denúncia em 19 de setembro.
A contradição apontada pelo candidato era direta: políticos de partidos burgueses haviam recebido espaço enquanto um pedreiro candidato a governador dizia estar sendo impedido de debater dentro de uma universidade pública.
“O pessoal da esquerda revolucionária que comanda o DCE prefere discutir política com o cara do PL do que com o operário do PCO”, afirmou Bruno.
A gestão do DCE da UFSC havia se destacado justamente pela defesa de políticas específicas para estudantes trans. Segundo levantamento publicado pelo DCO, a entidade participou de campanhas pela aplicação das cotas trans e de outras medidas chamadas de “transinclusivas”. A partir disso, o jornal relacionou o boicote denunciado por Bruno à disputa política travada pelo PCO contra o identitarismo.
Não há, no entanto, prova pública apresentada até agora de que a posição sobre cotas tenha sido formalmente declarada pelos organizadores como a razão da exclusão de Bruno. O que existe é a denúncia concreta de exclusão e uma disputa política anterior e aberta entre o PCO e os grupos que dirigem parte do movimento estudantil sobre essa questão.
Os acontecimentos de São Paulo e Brasília tornam essa disputa ainda mais explícita.
Na UnB, o candidato foi perguntado diretamente sobre o assunto e recebeu xingamentos enquanto respondia. Na USP, Izadora foi acusada publicamente e, segundo seu relato, chegaram a chamar a polícia. Em Santa Catarina, o candidato denunciou que não conseguia sequer chegar ao debate.
A campanha também possui um antecedente no Rio de Janeiro. Em 28 de agosto, durante debate na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Luan Monteiro, candidato do PCO ao governo fluminense, foi interrompido depois de se declarar contrário às cotas trans. Militantes gritaram “transfóbico” e “vai ser preso”. O próprio DCO registrou que a discussão começou quando Ciro Garcia, do PSTU, perguntou a Luan sobre a política de cotas.
Forma-se assim uma sequência que já ultrapassa qualquer incidente particular: UFRJ, UFSC, USP e UnB.
Em todos esses episódios, o centro da divergência aparece ligado à política universitária e à tentativa do PCO de substituir o sistema de disputa por um número reduzido de vagas pela defesa do livre ingresso. O Partido sustenta que a universidade deveria ser aberta a toda a população, acompanhada de políticas que permitam aos estudantes pobres permanecerem nos cursos.
É possível defender as cotas trans. É possível atacar politicamente a proposta do PCO. É possível apresentar estatísticas, organizar manifestações, fazer perguntas aos candidatos e exigir que expliquem suas posições. No próprio debate da UnB, a organização recorreu a dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) para contestar a afirmação de Expedito de que a maioria das pessoas trans pertenceria à classe média. Essa é uma disputa política e factual normal.
O que não pode ser disfarçado de debate é impedir que a outra posição seja apresentada.
Quando uma resposta é recebida com “vai tomar no cu”; quando o candidato precisa falar enquanto dezenas gritam “transfóbico”; quando uma candidata relata que a polícia foi chamada depois de uma divergência; quando outro candidato denuncia que nem sequer foi convidado para a mesa, já não se está diante de uma campanha para convencer politicamente o adversário.
Está-se diante de uma disputa pelo direito de falar.
E é precisamente aí que a campanha contra o PCO nas universidades assume seu caráter mais perigoso. A acusação de “transfobia” passa a funcionar não como argumento, mas como instrumento para retirar do adversário a condição de interlocutor. Ele não estaria simplesmente errado: sua posição seria ilegítima, sua presença intolerável e sua própria fala passível de repressão.
Na USP, a frase de Izadora resumiu onde esse método pode chegar:
“Defender as mulheres virou caso de polícia.”





