O governo cubano denunciou a nova investida do imperialismo norte-americano para apertar o bloqueio econômico contra a ilha, após Donald Trump assinar, na quinta-feira (29), uma ordem executiva que ameaça impor tarifas a países que forneçam petróleo a Cuba. O texto afirma que Cuba seria uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança nacional dos Estados Unidos e declara uma suposta emergência nacional para sustentar a medida.
Na sexta-feira (30), o presidente Miguel Díaz-Canel reagiu nas redes sociais e afirmou que, “sob um pretexto falso e sem fundamento”, Trump planeja “sufocar” a economia cubana ao ameaçar com tarifas “países que, soberanamente, comercializam petróleo” com Cuba. O presidente cubano caracterizou a ofensiva como expressão do caráter “fascista, criminoso e genocida” de um grupo que atua contra os interesses do próprio povo norte-americano, em referência ao secretário de Estado Marco Rubio, conhecido pela política agressiva contra Cuba.
A escalada ocorre enquanto a população cubana enfrenta apagões e dificuldades de abastecimento, consequência direta do bloqueio econômico e do cerco aos suprimentos de combustível. Moradores relataram que a ofensiva tende a agravar a situação: “minha comida está estragando. Não temos eletricidade desde as 6h… você tem de comprar comida todo dia. Não há solução para a situação da energia”, disse Yenia Leon em Havana, em declaração à emissora catarense Al Jazeera. À Associated Press, o aposentado Lazaro Alfonso, de 89 anos, afirmou: “isto é uma guerra”, chamando Trump de “xerife do mundo” e comparando o cenário ao “Velho Oeste, onde tudo é permitido”..
Diante da nova ordem executiva, o ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, declarou “emergência internacional”, afirmando que a medida constitui uma “ameaça incomum e extraordinária”. O governo venezuelano também condenou a iniciativa e declarou que ela viola o direito internacional e princípios básicos do comércio entre nações.
No México, a presidenta Claudia Sheinbaum declarou que procura alternativas para manter apoio energético a Cuba após o anúncio de Trump. Sheinbaum advertiu que cortar o fornecimento pode desencadear “uma crise humanitária de longo alcance” na ilha, afetando transporte, hospitais e acesso a alimentos. A presidenta afirmou que o envio mexicano equivale a cerca de 1% da produção do país e disse ter orientado a chancelaria a buscar esclarecimentos formais junto ao Departamento de Estado dos Estados Unidos.
Em números citados pelo Financial Times, o México respondia por 44% das importações de petróleo de Cuba, e a Venezuela por 33% até o mês anterior; cerca de 10% do petróleo teria origem russa, além de remessas menores de outros países. Em novembro do ano passado, a relatora especial da ONU Alena Douhan voltou a denunciar o caráter prolongado e destrutivo das medidas coercitivas unilaterais dos Estados Unidos contra Cuba, afirmando que o bloqueio provoca falta de alimentos, remédios, eletricidade, água, máquinas e peças, além de estimular a emigração de profissionais qualificados.
O bloqueio econômico contra Cuba foi imposto em 1962, com o objetivo declarado de derrubar o governo estabelecido após a Revolução de 1959, liderada por Fidel Castro. Ao longo de décadas, a política de asfixia foi acompanhada por agressões e operações clandestinas, incluindo tentativas de assassinato contra a liderança cubana, amplamente documentadas.
Governo cubano denuncia ‘cerco absoluto’
Em nota divulgada em 30 de janeiro de 2026, o Governo Revolucionário de Cuba condenou “nos termos mais enérgicos” a ordem executiva assinada por Trump, afirmando que o objetivo é impor um “cerco absoluto” aos suprimentos de combustível do país. O texto denuncia que a Casa Branca usa “chantagem, ameaça e coerção direta” contra terceiros países para aprofundar a asfixia econômica iniciada no primeiro mandato de Trump, e acusa os Estados Unidos de pretender ditar a Estados soberanos “com quais nações podem comerciar”.
A nota também classifica a ordem executiva como “violação flagrante do Direito Internacional” e afirma que o governo dos Estados Unidos, e não Cuba, é quem atenta contra “a segurança, a estabilidade e a paz da região e do mundo”, além de violar a Proclamação da América Latina e do Caribe como Zona de Paz. Por fim, o governo cubano sustenta que Cuba “não constitui ameaça alguma” aos Estados Unidos, reafirma disposição histórica para diálogo em bases de igualdade soberana e adverte que o povo cubano não se dobra à pressão econômica.
Leia, abaixo, a nota na íntegra conforme tradução feita por este Diário:
Cuba condena e denuncia nova escalada do cerco econômico dos Estados Unidos
O Governo Revolucionário condena, nos termos mais enérgicos, a nova escalada do governo dos Estados Unidos contra Cuba, em seu empenho de impor um cerco absoluto aos suprimentos de combustível para nosso país.
A ordem executiva do presidente norte-americano, anunciada em 29 de janeiro de 2026, declara uma suposta emergência nacional, em virtude da qual seu governo poderá impor tarifas comerciais às importações de produtos provenientes de países que forneçam petróleo a Cuba.
Para justificar uma ação tão extrema, o texto da referida ordem apresenta uma extensa lista de mentiras e acusações difamatórias contra Cuba. Destaca-se entre elas a absurda afirmação de que Cuba constitui uma “ameaça incomum e extraordinária” para a segurança nacional dos Estados Unidos. O próprio presidente e seu governo estão conscientes de que ninguém, ou muito poucos, podem acreditar em argumentos tão mentirosos, mas isso não lhes importa. Esse é o seu desprezo pela verdade, pela opinião pública e pela ética governamental quando se trata de avalizar sua agressão contra Cuba.
Com essa decisão, o governo dos Estados Unidos, por meio da chantagem, da ameaça e da coerção direta a terceiros países, tenta impor componentes adicionais de pressão às ações de asfixia econômica que, desde o primeiro mandato de Trump, foram adotadas para impedir a entrada de combustíveis em nosso país. Consolida uma forma perigosa de conduzir a política externa dos Estados Unidos pela via da força e de exercer suas ambições para garantir seu hegemonismo imperialista. Conforme anunciado, esse país se atribui o direito de ditar a Estados soberanos com quais nações podem comerciar e para quais podem exportar seus produtos nacionais.
A ordem executiva do presidente dos Estados Unidos constitui, portanto, uma violação flagrante do Direito Internacional e atenta, além disso, contra a Proclamação da América Latina e do Caribe como Zona de Paz. Ratifica que é o governo desse país que atenta contra a segurança, a estabilidade e a paz da região e do mundo.
O governo dos Estados Unidos chega a esse ponto após ter fracassado durante 67 anos em render e destruir um processo político e revolucionário genuíno e legítimo, de plena soberania, justiça social e promoção da paz e da solidariedade com o restante do mundo.
Está amplamente documentada a disposição histórica de Cuba de sustentar com o governo dos Estados Unidos um diálogo sério, responsável, baseado no Direito Internacional, na igualdade soberana, no respeito mútuo, no benefício recíproco, sem ingerência nos assuntos internos e com absoluto respeito à independência e à soberania dos Estados.
Como todo o mundo conhece, incluindo o próprio governo norte-americano, Cuba não constitui ameaça alguma para os Estados Unidos, seus interesses nacionais ou o bem-estar dos cidadãos desse país que, além disso, sempre foram tratados com respeito e hospitalidade quando seu governo lhes permitiu visitar a ilha. Cuba não ameaça nem agride país algum. Não é alvo de medidas coercitivas por parte da comunidade internacional. É um país de paz, solidário e cooperativo, disposto a ajudar e contribuir com outros Estados.
É também o país de um povo aguerrido e combatente. Confunde-se o imperialismo quando confia em que, com a pressão econômica e o empenho em provocar sofrimento a milhões de pessoas, vai dobrar sua determinação de defender a soberania nacional e de impedir que Cuba caia, uma vez mais, sob o domínio norte-americano.
A comunidade internacional tem diante de si o desafio inescapável de definir se um crime dessa natureza poderá ser o sinal do que está por vir ou se prevalecerão a sensatez, a solidariedade e a rejeição à agressão, à impunidade e ao abuso.
Enfrentaremos a nova investida com firmeza, equilíbrio e a certeza de que a razão está absolutamente do nosso lado. A decisão é uma: Pátria ou Morte, Venceremos!
Havana, 30 de janeiro de 2026




