A polícia do Reino Unido prendeu nesta quinta-feira (19) Andrew Mountbatten-Windsor, antigo príncipe Andrew e irmão do rei Charles III, sob suspeita de “má conduta em cargo público”. A detenção ocorreu por volta de oito horas, na propriedade privada do monarca em Sandringham, no condado de Norfolk, e foi seguida de buscas em endereços ligados ao investigado, inclusive em Berkshire.
Em nota breve, a Thames Valley Police informou que prendeu “um homem de sessenta e poucos anos de Norfolk sob suspeita de má conduta em cargo público” e que ele foi posteriormente liberado, permanecendo “sob investigação”. A corporação não divulgou o nome do detido, como é comum no país, mas a BBC identificou o investigado como Andrew Mountbatten-Windsor.
Ainda de acordo com a emissora britânica, a polícia realizou buscas em Wood Farm, dentro da área de Sandringham, e em outros endereços. A BBC também relatou que uma das propriedades vistoriadas seria a Royal Lodge, antiga residência do ex-príncipe no complexo real de Windsor, a oeste de Londres. Imagens divulgadas por jornais britânicos mostraram veículos descaracterizados chegando ao entorno de Sandringham nas primeiras horas da manhã.
Poucas horas depois, a polícia confirmou que os procedimentos em Norfolk haviam sido concluídos. O ex-príncipe foi visto deixando uma delegacia na cidade de Aylsham, de carro, após quase 12 horas de interrogatório, e acabou colocado em liberdade “sob investigação”.
Declaração de Charles III e fala de Starmer
O rei Charles III divulgou uma declaração rara, assinada pessoalmente, afirmando que “a lei deve seguir seu curso”, e acrescentou que a polícia teria seu “pleno e total apoio e cooperação”. Em outra mensagem, enviada à BBC, o monarca disse ter tomado conhecimento das alegações “com profunda preocupação” e defendeu “um processo completo, justo e adequado”, conduzido “de maneira apropriada e pelas autoridades competentes”.
Antes de a prisão se tornar pública, o primeiro-ministro Keir Starmer afirmou à BBC que “ninguém está acima da lei”.
Investigação aponta vazamento de informações a Epstein
O foco da apuração é a suspeita de que Andrew tenha compartilhado material potencialmente confidencial quando atuou como representante comercial do Reino Unido (trade envoy) entre 2001 e 2011. A BBC destacou que orientações oficiais exigem confidencialidade estrita sobre informações comerciais e políticas sensíveis obtidas em visitas oficiais.
A detenção ocorreu após novas revelações relacionadas ao caso Jeffrey Epstein, financista norte-americano condenado por crimes sexuais e que morreu na prisão em 2019, enquanto aguardava julgamento por acusações de tráfico sexual. No fim de janeiro, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos divulgou milhões de páginas ligadas à investigação do caso, incluindo e-mails e fotos que recolocaram Andrew no centro da controvérsia.
Entre os documentos citados, está um e-mail de novembro de 2010 no qual Andrew teria encaminhado a Epstein relatórios sobre países asiáticos após uma visita oficial à região. As acusações incluem ainda o envio de informações sobre oportunidades de investimento e detalhes de viagens nas quais teriam estado presentes associados de Epstein. Um dos trechos mencionados diz que Andrew incluiu Epstein em um informe sobre oportunidades na província de Helmand, no Afeganistão, em mensagem enviada na véspera do Natal de 2010.
Segundo a Crown Prosecution Service, a acusação de má conduta em cargo público pode levar à pena máxima de prisão perpétua.
Caso Giuffre e perda de títulos
Andrew vinha sendo alvo de rejeição popular desde que sua relação com Epstein se tornou pública. Em 2022, ele fez um acordo extrajudicial com Virginia Giuffre, que o acusou de agressão sexual e afirmou ter sido traficada por Epstein e Ghislaine Maxwell para ter relações com o ex-príncipe quando tinha 17 anos. Andrew negou as acusações e firmou o acordo sem admitir responsabilidade.
Giuffre morreu em 2025, supostamente por suicídio, e a divulgação de suas memórias póstumas intensificou a pressão sobre a monarquia. No ano passado, Charles III retirou os títulos do irmão e determinou que ele deixasse sua residência em Windsor. Ainda assim, Andrew permanece oitavo na linha de sucessão ao trono.
A BBC descreveu a detenção como um fato sem precedente na história recente do país, apontando que se trata do primeiro integrante graduado da família real a ser preso nos tempos modernos. O episódio foi qualificado por analistas britânicos como uma nova escalada da crise do Palácio de Buckingham em torno dos laços de Andrew com Epstein.
Rejeição à monarquia e novas apurações
A prisão ocorre em meio a queda do apoio popular à monarquia. Pesquisa do instituto Savanta, encomendada pelo grupo Republic e realizada entre 6 e 9 de fevereiro de 2026 com 2.132 adultos, indicou que 45% apoiam a manutenção da monarquia, enquanto 32% preferem um sistema com chefe de Estado eleito.
As apurações ligadas aos arquivos de Epstein não se limitam a Andrew. Pelo menos nove forças policiais britânicas confirmaram que revisam alegações relacionadas ao material divulgado nos Estados Unidos, algumas delas envolvendo o ex-príncipe. Separadamente, a Metropolitan Police de Londres abriu investigação sobre a relação entre o ex-embaixador britânico em Washington, Peter Mandelson, e Epstein, em meio a denúncias de vazamento de informações de governo ao financista durante a crise de 2008. Mandelson não foi preso, mas a polícia realizou buscas em propriedades ligadas ao ex-ministro.
Enquanto isso, o governo Starmer enfrenta desgaste político com o caso: houve renúncias no círculo próximo do primeiro-ministro após a controvérsia envolvendo a nomeação de Mandelson para a embaixada nos EUA, em meio à divulgação de mensagens que apontariam a manutenção de vínculos com Epstein mesmo depois da condenação de 2008.



