Como já era de se esperar, parte da esquerda se colocou contra o Irã após os ataques criminosos dos EUA e do sionismo contra a República Islâmica. Não importa que o ataque tenha sido feito de forma totalmente ilegal, com base exclusivamente na vontade de destruir o Irã e colonizar todo o Oriente Médio. Para a esquerda pequeno-burguesa, o que mais importa é que o Irã seja um regime religioso.
O que disse a deputada federal Erika Hilton em entrevista concedida ao Opera Mundi no dia 02/03/2026 é revelador. Quando perguntada de que lado ela estava na guerra entre EUA e Irã ela disse: “estou do lado dos direitos humanos, das pessoas, de quem sofre com um governo ditatorial, um governo opressor como eram os aiatolás, mas também de um governo imperialista que se sente dono do globo, que mata pessoas”. Ela continuou: “Os iranianos, que estavam ali diante de um regime bárbaro, um regime extremamente bárbaro, não podem ser entregues à mão dos Estados Unidos, precisam ter soberania, precisam ter sua própria legislação respeitada, precisam conseguir eleger um representante que as represente de fato.”
O que ela não falou é que o regime dos aiatolás foi formalmente estabelecido após um referendo nacional em 1979. As leis que existem hoje derivam disso. Elas não devem ser respeitadas? Só as leis propostas por Erika Hilton merecem ser cumpridas? É ridículo.
A fala da deputada é reveladora porque mostra o impasse da esquerda pequeno-burguesa. Eles se dizem contra tudo, a favor da democracia, e qualquer outro chavão ideológico que lhes venha à cabeça. Entretanto, não analisam a situação concreta dos países e o que está em jogo com a vitória de cada lado. Por exemplo, se o regime dos aiatolás for derrubado, quem assumirá o governo? Não há nenhuma força política no Irã que seja capaz de fazer um governo como Erika Hilton quer. Pelo contrário, o que há são forças reacionárias, títeres do sionismo e do governo norte-americano que querem reestabelecer um regime similar ao dos Xás, que existia até a década de 1970 e enviava toda a riqueza petrolífera do país para os países imperialistas.
É preciso entender que, na ausência de uma força política alternativa concreta, não adianta ficar propondo a derrubada de regimes em abstrato. Já vimos esse erro no Brasil, quando a palavra de ordem “fora todos” foi levada adiante por parte da esquerda em 2016 sob o pretexto de crescimento de forças supostamente revolucionárias e, concretamente, após a derrubada de Dilma, quem subiu ao governo foram os nada revolucionários Temer e Bolsonaro, piorando as condições de todos os brasileiros.
No caso específico do Irã, assim como no da Venezuela, há um governo que deve ser apoiado devido ao seu caráter explícito de oposição efetiva ao imperialismo. Diferentemente de Erika Hilton, o regime iraniano tomou medidas reais contra a dominação norte-americana no mundo: interrompeu o dreno de dinheiro do petróleo iraniano para os EUA, bombardeou bases e alvos norte-americanos espalhados pelo mundo, e contribuiu ativamente com armas, dinheiro e organização do Eixo da Resistência contra o genocídio na Palestina. O que pode ser mais anti-imperialista do que isso?
Precisamos sempre lembrar do que disse Trotsky em uma entrevista concedida no século passado. Ao ser perguntado ao lado de quem os revolucionários deveriam ficar em caso de uma guerra entre o Brasil sob ditadura de tipo fascista de Getúlio Vargas ou a Inglaterra “democrática”, ele respondeu sem hesitar: do lado do Brasil de Getúlio Vargas. O motivo era simples: a Inglaterra é um país imperialista, então ele ser derrotado na guerra implica um enfraquecimento do imperialismo, que é o inimigo principal dos povos do mundo. Essa deve ser a nossa chave de análise para os eventos globais, ontem e hoje.




