Motoristas de ônibus aprovaram paralisação por tempo indeterminado no município fluminense na madrugada de segunda-feira (29), após assembleia no domingo (28). A categoria reivindica aumento salarial, redução da jornada, manutenção do passe livre e melhores benefícios, enquanto os empresários ofereceram apenas reajuste pela inflação.
A greve atinge o serviço na capital, onde o sindicato patronal Rio Ônibus afirma que 32 milhões de passageiros são transportados por mês. A Justiça do Trabalho determinou que, durante o movimento, ao menos 50% da frota operacional ativa seja mantida em circulação por linha e itinerário. A liminar prevê multa diária de R$ 50 mil em caso de descumprimento, aplicada de forma independente às entidades sindicais envolvidas.
A decisão foi proferida pelo Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (TRT-1), em dissídio coletivo. A exigência de frota mínima é apresentada como forma de reduzir impacto à população, mas na realidade só serve para reduzir o impacto nos patrões e para proibir a greve, forçando a categoria a trabalhar como se não houvesse paralisação. Em transportes, a paralisação só ganha força quando afeta o funcionamento regular do serviço. Ao impor metade da frota nas ruas, a Justiça destrói a capacidade de pressão dos trabalhadores sobre os empresários.
Dados de GPS coletados pelo Diário do Rio sobre a circulação dos ônibus da capital fluminense mostram que a categoria resistiu à proibição da greve e manteve apenas 25% da frota funcionando normalmente até o fechamento da matéria. 274 das 365 linhas de condução funcionaram menos que programado, e 124 linhas não tiveram um único ônibus em circulação.
Segundo os dados, a paralisação atingiu principalmente a Zona Oeste e Jacarepaguá. Na segunda-feira, bairros como Barra de Guaratiba, Pedra de Guaratiba, Sepetiba e Guaratiba ficaram sem qualquer circulação de ônibus. Em outros pontos, a operação foi apenas residual: Inhoaíba teve 3% da frota nas ruas, Recreio 4% e Padre Miguel 7%. Na terça-feira, a redução ainda afetava Tanque, Pechincha, Taquara, Cidade de Deus e Paciência. Já o Centro e a Zona Sul preservaram parte do serviço, mostrando que o corte na frota pesou sobretudo sobre os bairros mais pobres e mais dependentes do transporte público.
Os rodoviários reivindicam mudança da data-base para 1º de março, piso salarial de R$ 5 mil para motoristas de ônibus articulados e R$ 4 mil para os demais. Também pedem fim do contrato temporário, vale-alimentação de R$ 1.000, jornada 5×2, manutenção do passe livre, indenização dos 30 minutos do tempo de almoço e planos de saúde e odontológico.
A proposta patronal foi recusada integralmente. Os empresários ofereceram reposição de 4,39%, correspondente ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Com isso, o piso dos motoristas comuns passaria de R$ 3.420 para R$ 3.570. Para quem dirige ônibus articulado, o piso subiria de R$ 4.104,18 para R$ 4.285,35. O auxílio-alimentação passaria de R$ 660 para R$ 689. A distância entre a pauta da categoria e a oferta das empresas explica a deflagração do movimento.
O sistema de Ônibus de Trânsito Rápido (BRT) foi anunciado como operação normal, com plano regular de dias úteis. A Trens Urbanos do Rio de Janeiro (TrensRJ) reforçou a circulação de trens devido à greve e também ao jogo da seleção brasileira contra o Japão, marcado para as 14h pela Copa do Mundo de 2026. A empresa informou que viagens extras estavam previstas para todos os ramais pela manhã e por volta do meio-dia, com monitoramento pelo Centro de Controle Operacional (CCO).
A prefeitura e o governo do estado decretaram ponto facultativo no mesmo dia por causa do jogo do Brasil. Mesmo assim, o impacto potencial da greve é grande. A paralisação envolve uma categoria responsável pelo deslocamento diário de trabalhadores, estudantes e usuários que dependem do transporte coletivo. A reivindicação por salários maiores e jornada menos pesada aparece em um setor marcado por desgaste físico, cobrança permanente e responsabilidade transferida das empresas a seus empregados pela segurança de passageiros.
A greve dos rodoviários expõe a contradição do transporte urbano administrado por empresas privadas. Os empresários resistem a melhorar salários e benefícios, enquanto os trabalhadores são pressionados pela Justiça a manter parte significativa da operação.
Trabalhadores chegaram a organizar piquetes no centro do Rio de Janeiro, impedindo que ônibus circulassem durante a greve, nesta terça-feira (30).


