Desde o fim de 2023, o Mar Vermelho deixou de ser tratado, pelas grandes marinhas, como um corredor “administrável” e previsível. A partir da costa ocidental do Iêmen, as Forças Armadas iemenitas, por meio de sua Marinha e das Forças de Defesa Costeira, colocaram em prática uma campanha naval que passou a condicionar a navegação na região a objetivos políticos declarados: pressionar “Israel” por um cessar-fogo incondicional em Gaza e impor o fim do bloqueio contra a Faixa.
O resultado ultrapassou a esfera regional. O que se consolidou entre 2023 e 2025 foi uma alteração total nas regras de funcionamento do tráfego marítimo internacional, com impacto direto sobre rotas, seguros, fretes e sobre a própria avaliação de risco por armadores e Estados. “O Iêmen se transformou de um Estado fraco e sitiado em um ator decisivo capaz de remodelar regras marítimas no Mar Vermelho e além”, afirmou o ativista iemenita-norte-americano Ahmad Alyabri.
Babelmândebe, o ponto de estrangulamento
No centro da crise está o estreito de Babelmândebe, passagem estreita por onde, em condições normais, circulam cerca de 12% do petróleo transportado por via marítima no mundo e quase um terço do comércio global de contêineres. A intervenção iemenita demonstrou que o controle efetivo de pontos de estrangulamento não depende, necessariamente, de porta-aviões ou de grandes frotas oceânicas. Persistência operacional, precisão de ataque e capacidade de impor incerteza bastam para elevar o custo do trânsito e forçar uma reconfiguração do comércio.
Um combatente iemenita resumiu a posição em declaração reproduzida pela Al Mayadeen English: “Babelmândebe é um dos estreitos marítimos mais críticos do mundo. Qualquer tentativa de fechá-lo sufoca o comércio global. Por isso a opção de proibição marítima foi ativada”.
Da seleção de alvos à ampliação da campanha
As operações iemenitas no Mar Vermelho começaram no fim de 2023, após o início da nova fase do genocídio de “Israel” contra Gaza em outubro daquele ano. Em novembro, os primeiros alvos foram embarcações associadas a “Israel”. A campanha, depois, se ampliou e passou a incluir navios em trânsito pelo Mar Vermelho e águas adjacentes, além de ativos navais norte-americanos que atuavam na região.
Organismos de monitoramento registraram, rapidamente, o tamanho da crise. O escritório britânico UK Maritime Trade Operations (UKMTO) contabilizou 69 incidentes de segurança apenas em novembro e dezembro de 2023, seguidos de outros 55 entre janeiro e março de 2024, patamar descrito como muito acima do padrão histórico. Já o ACLED apontou 164 lançamentos de mísseis e 265 drones armados direcionados ao transporte comercial entre outubro de 2023 e abril de 2024, atingindo ao menos 79 embarcações e acertando diretamente 29.
A partir do fim de 2024 e ao longo de 2025, foram registrados mais de 130 novos incidentes ou tentativas de interceptação contra navios ligados a “Israel” e contra meios navais dos EUA que transitavam pelo Mar Vermelho e pelo Golfo de Ádem, segundo levantamentos atribuídos a fontes como ACLED, The Washington Institute e o Parlamento britânico.
Meios ‘modestos’, custo desproporcional
Um dos aspectos centrais do período foi o emprego combinado de mísseis, drones de longo alcance, embarcações de ataque rápido e vigilância em tempo real. Em depoimento também à Al Mayadeen English, um combatente da Resistência iemenita descreveu um arsenal em expansão: mísseis antinavio e de ataque terrestre, embarcações de superfície carregadas com explosivos e plataformas subaquáticas não tripuladas, parte delas de produção local. Segundo o mesmo relato, essas capacidades foram demonstradas publicamente em Sanaã e testadas em exercícios, antes de serem empregadas em operações no mar.
Entre os episódios citados no material reunido, aparece o afundamento, em julho de 2025, de dois navios operados por empresa grega, Magic Seas e Eternity C, em ações de solidariedade a Gaza.
O mesmo combatente apontou ainda declarações do líder do Ansar Alá, Saied Abdul-Malik al-Houthi, sobre a existência de armamentos adicionais ainda não revelados. A manutenção dessa indefinição funcionou como elemento de dissuasão, ao aumentar a incerteza sobre as capacidades efetivamente disponíveis.
Informação e vulnerabilidades de navegação
O professor Abdulmalik M. Eissa, da Universidade de Saná, descreveu a mudança como um deslocamento estrutural no poder marítimo: a autoridade no mar deixou de ser determinada apenas por força convencional. Segundo ele, atores menores impõem influência ao tornar a “liberdade de navegação” dependente de condições políticas, o que força o sistema internacional a tratá-los como atores relevantes na segurança regional.
Eissa destaca que as operações modernas incorporam instrumentos informacionais, como interferência cibernética, inteligência obtida em bases abertas e rastreamento de embarcações, e que vulnerabilidades em sistemas como GPS e AIS podem ser exploradas para avaliar alvos e cronometrar ações. O efeito prático é elevar o risco operacional do transporte comercial sem exigir confronto naval direto em igualdade de condições.
Rotas redesenhadas: Suez perde tráfego, o Cabo vira padrão
Com a escalada dos ataques e do risco, grandes conglomerados de navegação redesenharam rotas. Em 2024, estimou-se que 2.000 navios já tinham desviado do Mar Vermelho. A circulação pelo Canal de Suez caiu de cerca de 2.068 travessias em novembro de 2023 para aproximadamente 877 em outubro de 2024.
A partir de meados de 2025, mais da metade do tráfego de contêineres entre Ásia e Europa passou a contornar a África pelo Cabo da Boa Esperança, adicionando semanas de viagem e milhares de milhas náuticas por percurso. Em alguns casos, remessas de petróleo e gás passaram a somar até 4.000 milhas náuticas extras, reduzindo a vantagem de custo de exportações do Oriente Médio.
Os efeitos financeiros apareceram no seguro e no frete. Prêmios de risco de guerra saíram de níveis praticamente nulos e chegaram a até 1% do valor segurado do navio por travessia, centenas de milhares de dólares em embarcações de grande porte. As tarifas à vista de contêineres na rota Ásia–Europa subiram até 68% e as rotas Ásia–EUA chegaram perto de 60% no pico.
A interrupção, no entanto, não foi “indiscriminada”. Comunicados navais iemenitas enquadraram repetidamente as ações como condicionais, associando alvos a vínculos com “Israel” e vinculando a suspensão das operações a exigências ligadas a Gaza. Um combatente citado afirmou que a opção naval ficou como último recurso por um período, e que, quando foi acionada, as capacidades já tinham maturidade para transformar ameaça em ação.
EUA atacam, não derrotam e recuam
A reação norte-americana envolveu o deslocamento de grupos de porta-aviões e uma sequência de ataques contra o território iemenita. Ainda assim, os dados citados apontam que cerca de 75% da capacidade de mísseis e drones do Iêmen permaneceu intacta, apesar da ofensiva.
Em maio de 2025, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou a interrupção imediata dos ataques norte-americanos contra o Iêmen, após negociações mediadas por Omã. Na mesma ocasião, as Forças Armadas iemenitas esclareceram que o cessar-fogo com Washington não encerrava as operações contra alvos ligados a “Israel”, reafirmando o enquadramento inicial da campanha.
O escritor político iemenita Ali Sharaf al-Mahatwary declarou à Al Mayadeen English que o confronto no Mar Vermelho levou a Marinha dos EUA a um grau de desgaste que forçou Washington a aceitar um cessar-fogo mútuo. Uma enorme vitória do povo iemenita contra o imperialismo.




