Oriente Médio

Como espionagem britânica contribuiu para golpe na Síria

Consultoria Global Strategy Network, composta por veteranos do MI6, operou secretamente por anos em campo de refugiados central para a operação

Documentos vazados obtidos e analisados pela emissora libanesa Al Mayadeen revelam uma complexa operação coordenada pela inteligência britânica dentro do campo de refugiados de al-Hol, no nordeste da Síria. A reportagem, assinada pelo jornalista investigativo Kit Klarenberg, detalha como a consultoria Global Strategy Network, composta por veteranos do MI6, operou secretamente por anos no local com o objetivo de influenciar milhares de detentos e pavimentar o caminho para a ascensão do grupo Hayat Tahrir al-Sham (HTS) após um golpe de Estado. O campo, anteriormente sob controle das Forças Democráticas Sírias (SDF) apoiadas pelos Estados Unidos, passou recentemente para o domínio do novo governo sírio após uma ofensiva militar que resultou na dissolução da região autônoma de Rojava.

A matéria destaca que, desde o início da ofensiva em meados de janeiro de 2026, o Exército Árabe Sírio, agora reconstituído e sob influência direta do HTS, tem realizado o que Klarenberg descreve como uma tentativa de apagar permanentemente todos os vestígios de Rojava. Um dos pontos centrais da estratégia foi o ataque deliberado a centros de detenção para provocar fugas em massa, permitindo que ex-integrantes do Estado Islâmico se juntassem às forças governamentais. No caso específico de al-Hol, que abriga cerca de 30 mil mulheres e crianças, a investigação sugere que a população foi preparada antecipadamente para acolher as forças de Ahmed al-Sharaa por meio de uma infraestrutura de propaganda financiada pelo Reino Unido.

Segundo os arquivos vazados, a Global Strategy Network estabeleceu uma presença em tempo integral no campo logo após a derrota territorial do Estado Islâmico em 2019. A organização utilizou a rádio local ARTA para transmitir programas que incluíam desde entretenimento e horóscopos até conteúdos religiosos que promoviam uma versão moderada do Islã. De acordo com o texto da Al Mayadeen, esses centros serviam como espaços de convivência onde detentos podiam socializar enquanto eram expostos a mensagens aprovadas pelo governo britânico. O documento cita indiretamente que o objetivo oficial era a “desradicalização”, mas os resultados práticos sugerem que a operação pode ter servido para converter os detentos ao tipo de ação considerada adequada aos interesses do imperialismo britânico.

A reportagem vincula diretamente essa política ao primeiro-ministro britânico Keir Starmer, mencionando que seu conselheiro de segurança nacional, Jonathan Powell, dirige a firma Inter-Mediate, que teria “preparado” o HTS para o seu golpe de Estado. Klarenberg afirma que a queda de Bashar al-Assad foi celebrada por Starmer como uma oportunidade para o Reino Unido desempenhar um papel mais presente na região.

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