Um encontro realizado em Quito entre altas autoridades do governo do Equador e Joseph M. Humire, subsecretário adjunto de Defesa dos Estados Unidos para Assuntos do Hemisfério Ocidental, evidenciou o aprofundamento da presença norte-americana no país sul-americano sob o discurso de “apoio em matéria de segurança”.
Em comunicado divulgado nas redes sociais, a Chancelaria equatoriana destacou que Humire supervisionou o “firme compromisso” do Equador e reafirmou o país como “sócio estratégico” de Washington na região. A delegação equatoriana foi liderada pela chanceler Gabriela Sommerfeld e contou com a presença dos ministros da Defesa, Gian Carlo Loffredo, e do Interior, John Reimberg, além de integrantes do chamado Gabinete de Segurança.
Segundo a versão oficial, o encontro se deu no marco da cooperação bilateral em “segurança e combate ao crime organizado transnacional”. Após a reunião, Loffredo e Reimberg ressaltaram a disposição dos Estados Unidos em “proteger” o Equador, fortalecendo mecanismos de controle do narcotráfico e do crime organizado, especialmente em portos e aeroportos. Reimberg chegou a afirmar que aqueles que tentarem utilizar essas estruturas para atividades ilícitas “serão atacados”.
Apesar da retórica de cooperação, o fortalecimento dos laços militares com Washington ocorre em um contexto de forte controvérsia interna. Em novembro passado, um referendo e consulta popular no Equador expressaram o rechaço da população à reativação de bases militares norte-americanas no país. Ainda assim, as autoridades avançam em acordos e entendimentos que ampliam a presença dos Estados Unidos no território equatoriano.
A postura do governo contrasta com a manifestação popular contrária à ingerência externa e reforça críticas sobre a subordinação da política de segurança nacional aos interesses estratégicos de Washington. Para conter o desgaste público, a Chancelaria afirmou que ambos os países reiteraram o compromisso de fortalecer a relação bilateral respeitando a soberania e as particularidades constitucionais do Equador. Para setores críticos, essa justificativa não dissipa as preocupações sobre a crescente influência militar dos Estados Unidos na América do Sul.
O Equador não é um caso isolado
Nos últimos anos, os Estados Unidos intensificaram a assinatura de acordos de “cooperação em segurança” com países da América Latina, apresentados oficialmente como instrumentos de combate ao crime organizado, ao narcotráfico e ao tráfico de pessoas. Na prática, esses entendimentos têm servido para ampliar a presença militar e de inteligência norte-americana no continente, aprofundando uma lógica histórica de dominação e ingerência sobre países dependentes.
Entre 2024 e 2025, Washington passou a adotar uma abordagem ainda mais agressiva e militarizada, centrada no compartilhamento de dados sensíveis, no uso de tecnologias de vigilância e na ampliação de operações conjuntas. No México, foi lançada a chamada “Mission Firewall”, iniciativa bilateral que, sob o pretexto de conter o fluxo de armas e drogas, fortalece investigações conjuntas e o uso de tecnologia fornecida pelos Estados Unidos, ampliando a influência direta de suas agências de segurança sobre o território mexicano.
Na Colômbia, um memorando de entendimento assinado em março de 2025 autorizou a troca de dados biométricos de migrantes, supostamente para combater redes de tráfico humano. O acordo, no entanto, avançou em meio a pressões políticas de Washington, que posteriormente chegou a “descertificar” o país como parceiro na chamada guerra às drogas, evidenciando o caráter coercitivo dessas parcerias.
O Equador tornou-se outro elo fundamental dessa estratégia. Em julho de 2025, foi firmado um acordo para facilitar a troca de informações sobre criminosos e mercadorias ilícitas, além do reforço da cooperação em segurança marítima no Pacífico. Medidas semelhantes foram adotadas no Chile, onde um acordo de compartilhamento de dados biométricos foi apresentado como ferramenta para rastrear indivíduos considerados “perigosos”, ampliando a vigilância transnacional sob coordenação norte-americana.
No Caribe, a chamada Operação Poseidón 2025, com apoio do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), envolveu países como República Dominicana, Jamaica e Bahamas em ações navais contra o crime transnacional, consolidando a presença militar dos Estados Unidos em rotas estratégicas da região. Já no Panamá, um pacto firmado em 2024 vinculou a política migratória à segurança, com financiamento norte-americano para a repatriação de migrantes que cruzam a selva do Darién, área supostamente explorada por grupos criminosos, mas sobretudo estratégica para o controle geopolítico da região.
Esses acordos não surgem de forma isolada. Eles se inserem em um contexto mais amplo de atuação imperialista, no qual os Estados Unidos têm historicamente apoiado golpes de Estado, interferido em processos eleitorais e sustentado governos alinhados a seus interesses, capazes de assinar tratados que abrem caminho para a atuação de forças militares e serviços de inteligência estrangeiros. A propaganda do combate ao crime organizado funciona como justificativa para aprofundar mecanismos de controle sobre os países latino-americanos.





