A Central Operária Boliviana (COB) declarou, nesta quarta-feira (25), estado de emergência contra um conjunto de medidas adotadas nas últimas semanas pelo governo do presidente golpista Rodrigo Paz. Em declaração à imprensa, a direção sindical afirmou que as iniciativas são contrárias aos interesses da classe trabalhadora e estão ligadas à queda das condições de vida da população.
Segundo a COB, há ao menos seis medidas consideradas “inaceitáveis”. Entre elas, a central citou a modificação da Lei Geral do Trabalho e a tentativa de despojo de terras por meio da reforma da Lei 157. A entidade também rejeitou um projeto de lei que prevê pena de até 12 anos de prisão para o uso do bloqueio de estradas como forma de protesto, exigindo o arquivamento “imediato e definitivo” do que chamou de projeto “antibloqueios”. A COB advertiu que poderá iniciar ações de pressão caso as decisões não sejam anuladas.
Outro ponto levantado pela direção sindical foi a exigência de atuação transparente do Ministério Público, conforme a Lei 260, no caso das “narcomaletas” e em novos episódios de narcotráfico identificados no aeroporto de Viru Viru. O caso diz respeito a um carregamento de 32 maletas retiradas em um voo privado, vindo dos Estados Unidos para Santa Cruz, há mais de dois meses, por uma ex-deputada da extrema direita. De acordo com a COB, as bagagens desapareceram e o conteúdo exato permanece desconhecido.
O secretário executivo da COB, Mario Argollo, afirmou que uma preocupação central é o “exagerado endividamento externo” da Bolívia. Ele declarou que o país registra hoje uma dívida de US$14.131 milhões e que, nas projeções apresentadas pela central, o montante pode chegar a US$15.600 milhões. Argollo disse ainda que, ao fim do mandato de Rodrigo Paz, a dívida poderia rondar US$30.000 milhões. Para o dirigente, a Bolívia está sendo “hipotecada” sob condições que não foram esclarecidas à população.
A COB também denunciou violação da Constituição após um decreto que subordina a Vice-Presidência ao Ministério da Presidência, chefiado por José Luis Lupo. Argollo declarou que um ocupante de cargo eleito não pode depender de uma função indicada “a dedo”.
Outro eixo das críticas foi o combustível. A central exigiu responsabilização por danos relatados em milhares de veículos, devido à baixa qualidade da gasolina, e apontou que houve aumento de quase 90% no preço do combustível. A direção sindical também condenou o fato de o Executivo governar por decreto e desconsiderar as funções da Assembleia Legislativa.
A declaração de emergência se soma a mobilizações que, desde 2025, vinham ocorrendo contra a política econômica do governo. Mais de 60 sindicatos nacionais e organizações camponesas já se manifestaram contra as primeiras medidas do presidente Rodrigo Paz, afirmando que os decretos aprovados favorecem os ricos às custas da população pobre. Argollo afirmou que a classe trabalhadora está cansada de políticas que ignoram as necessidades do povo e cobrou que o Estado legisle “em favor das grandes maiorias”.
Organizações de bairro e entidades sindicais também alertaram para a ausência de medidas contra o aumento das tarifas de água e eletricidade e para a alta do preço do pão, associada à eliminação de subsídios estatais. As entidades contrastaram essas decisões com a eliminação de impostos sobre grandes fortunas.
Denúncias do setor agrário
No setor agrário, o vice-presidente da Confederação Única de Camponeses, Vicente Choque, denunciou abandono após a perda de mais de 3.000 hectares de cultivos no Chapare em razão das chuvas. Choque afirmou que, enquanto o governo atende de imediato o empresariado, os camponeses não receberam fertilizantes nem ajuda para recuperar a produção. Segundo ele, a afirmação oficial de que o país seria “um cadáver” estaria sendo usada para justificar privatizações e a entrega de recursos naturais ao setor privado.
Já Feliciano Vegamonte, dirigente da Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses, declarou que o retorno ao livre mercado defendido por Paz trará prejuízos para pequenos produtores e para o setor manufatureiro. A direção sindical afirmou que a rota das privatizações e a desatenção social tendem a aprofundar o conflito com as bases, que cobram uma política “soberana e justa”.





