A polícia do condado de Thames Valley, na Inglaterra, informou na segunda-feira (9) que abriu uma avaliação preliminar após denúncia de que Andrew Mountbatten-Windsor teria repassado a Jeffrey Epstein documentos oficiais do governo britânico em 2010.
A apuração foi aberta depois que Graham Smith, dirigente do grupo Republic, contrário à monarquia, comunicou às autoridades a suspeita de “má conduta em cargo público” e possível violação da Lei de Segredos Oficiais. A corporação confirmou o recebimento da denúncia e afirmou à ITV que o caso está sendo analisado “de acordo com os procedimentos estabelecidos”.
A denúncia tem como base mensagens eletrônicas obtidas em um novo conjunto de arquivos do caso Epstein, publicado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos em 30 de janeiro. A agência Reuters informou que os e-mails apontam que Mountbatten-Windsor, à época atuando como enviado do governo britânico, teria encaminhado a Epstein documentos sobre comércio do governo do Reino Unido.
Os arquivos divulgados também voltam a expor a relação do irmão do rei Charles III com Epstein. Entre os documentos citados, há uma fotografia que mostra Mountbatten-Windsor agachado sobre uma mulher deitada no chão. As mensagens indicam ainda que ele teria convidado Epstein para o Palácio de Buckingham em setembro de 2010, dois anos após a condenação do financista.
Segundo a documentação, um mês antes desse convite, Epstein sugeriu organizar um jantar entre Mountbatten-Windsor e uma mulher russa de 26 anos descrita como “inteligente, bonita e confiável”. O então membro da família real disse que ficaria “feliz” em conhecê-la, além de perguntar se era “bom estar livre” da prisão domiciliar. Ainda em 2010, os dois foram fotografados caminhando juntos no Central Park, em Nova Iorque.
Em entrevista ao programa Newsnight, em 2019, Mountbatten-Windsor disse ter ido aos Estados Unidos para encerrar formalmente sua relação com Epstein. As novas mensagens, porém, indicam que a publicista Peggy Siegel, associada de Epstein, organizou um jantar em homenagem a Mountbatten-Windsor na residência do financista em Nova Iorque durante a mesma viagem. Entre os convidados citados estariam o diretor Woody Allen e o apresentador George Stephanopoulos. Os arquivos também mostram que Mountbatten-Windsor enviou continuamente fotos pessoais das filhas, as princesas Beatrice e Eugenie, para Epstein.
Jorge Paulo Lemann, o grande parceiro de negócios de Epstein no Brasil
Reação do governo britânico e pressão dos EUA
No início do mês, o primeiro-ministro Keir Starmer declarou, durante visita ao Japão, que Mountbatten-Windsor deveria depor ao Congresso dos EUA sobre o que sabe a respeito de Epstein. Questionado sobre um pedido de desculpas às vítimas, Starmer disse: “em primeiro lugar, eu sempre tratei essa questão tendo as vítimas de Epstein em mente. As vítimas têm de ser a primeira prioridade. Quanto a um pedido de desculpas, isso é algo para Andrew decidir”. Em seguida, acrescentou: “sim, sobre depor, eu sempre disse que qualquer pessoa que tenha informação deve estar disposta a compartilhar essa informação, na forma que lhe for solicitada. Você não pode dizer que coloca as vítimas no centro se não está disposto a fazer isso”.
Do lado da Casa Real, um porta-voz afirmou na segunda-feira (9) que o rei expressou “profunda preocupação” com as acusações envolvendo o irmão e que o Palácio está disposto a colaborar caso seja procurado pela polícia. “O rei deixou claro, em palavras e por ações sem precedentes, sua profunda preocupação com alegações que continuam vindo à tona sobre a conduta do sr. Mountbatten-Windsor”, disse o porta-voz. “Se formos procurados pela polícia de Thames Valley, estamos prontos para apoiá-la, como seria de se esperar”. O comunicado afirma ainda que “os pensamentos e simpatias de suas majestades estiveram e permanecem com as vítimas de toda e qualquer forma de abuso”.
A polícia de Thames Valley confirmou também que analisa ao menos duas novas queixas envolvendo Mountbatten-Windsor. Uma delas, revisada na semana passada, é baseada no relato de uma mulher que afirma ter sido enviada por Epstein ao Reino Unido para manter relações sexuais com ele em sua antiga residência, Royal Lodge, em Windsor. A outra é a denúncia sobre o envio de documentos sigilosos de comércio a Epstein.
Nos Estados Unidos, o deputado Ro Khanna (Partido Democrata, Califórnia), coautor do Epstein Transparency Act, disse à Sky News que o rei deveria responder publicamente o que sabia sobre a relação do irmão com Epstein. “Acho que este é o momento mais vulnerável que a monarquia britânica já viveu”, afirmou. “Eles deveriam fazer perguntas ao rei e à rainha e talvez isso seja o fim da monarquia. Se eles não tiverem respostas, se estiverem implicados no caso Epstein, isso não é bom para a monarquia. O rei tem de responder o que sabia, o que sabia sobre Andrew, e tirar um título de Andrew não é suficiente”.
Mountbatten-Windsor teve títulos e funções oficiais retirados no ano passado. Ele nega irregularidades relacionadas a Epstein e, até o momento, não comentou a denúncia sobre o repasse de documentos do governo britânico.





