Análise Política da Semana

Candidatura de Lula no olho do furacão

Rui Costa Pimenta disse que veto ao celular em universidades é “balão de ensaio” e cobrou mobilização popular contra política neoliberal

No programa Análise Política da Semana, exibido no sábado (7), Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), afirmou que a decisão de duas universidades de São Paulo de proibir celulares em sala de aula representa um novo passo de uma “progressão de um processo de censura generalizada”. Para ele, a justificativa apresentada por defensores da medida, com apelos a supostos danos “neurológicos” e à “saúde mental” dos estudantes, funciona como cobertura ideológica para ampliar restrições ao uso do aparelho e, sobretudo, ao acesso às redes sociais.

Pimenta comentou argumentos divulgados em reportagem do Estado de S. Paulo que atribuiu a proibição à perda de concentração e a mecanismos de “recompensa” associados às plataformas digitais. Ele ironizou a tese de que a restrição serve como “auxílio” externo para a “autorregulação” dos estudantes e afirmou: “isso é tudo conversa mole”. Na avaliação do dirigente, trata-se de “um discurso ideológico disfarçado de discurso científico”, semelhante ao que, em décadas anteriores, era dirigido contra a televisão e outros meios de comunicação.

Ao atacar a justificativa apresentada para a medida, Pimenta defendeu que a lógica permitiria estender o veto do ambiente universitário para a sociedade inteira. “Com esses argumentos aqui, você abre caminho para a proibição do celular pronto para todo mundo”, disse, acrescentando que, sob esse método, a restrição avança “passo a passo”: primeiro, o veto para jovens em sala de aula; depois, a proibição na escola; agora, a entrada nas universidades. “A pessoa que está na universidade já não é criança. Não cabe o argumento”, afirmou. Para ele, o uso da ideia de “maturação” cerebral até os 24 anos serve para “transformar a pessoa de 24 anos numa pessoa de 14 anos”.

O presidente do PCO classificou a iniciativa como “balão de ensaio” para medir a reação pública e disse esperar que, sem resistência, surjam normas mais amplas. “Daqui a pouco aparece uma lei que está proibido o celular na sala de aula em todas as universidades públicas do país”, afirmou, indicando que, na sequência, haveria pressão para ampliar o veto para outros locais. Na leitura apresentada no programa, esse movimento integra uma “engrenagem gigantesca contra a transmissão de informações pela internet”, que ele descreveu como um dos fenômenos técnicos mais revolucionários das últimas décadas.

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Campanhas punitivas e restrições às redes

Ao ampliar a análise, Pimenta afirmou que outras mobilizações recentes seguem o mesmo rumo: aumento de penas, mais prisões, mais repressão e mais censura nas redes. Ele citou o caso do cão Orelha, tratado em protestos e debates públicos, e criticou o uso do episódio como pretexto para novas proibições. Segundo ele, a deputada Erika Hilton aproveitou a repercussão para propor o veto ao Discord. “Apesar de que o Discord não tem nada a ver com o cachorro em si, mas aproveitou a onda: ‘torturaram o cachorro… vamos proibir alguma rede social então’”, disse.

No mesmo trecho, Pimenta comparou a comoção com o caso do animal aos números de letalidade policial no país. Ele citou estatística de seis mil pessoas assassinadas pela polícia no ano anterior, o que, no cálculo apresentado, equivaleria a cerca de 20 mortes por dia, e observou que o tema não gera mobilização proporcional. “Ninguém sai às ruas por essa monstruosidade”, afirmou. Em outro momento, ao tratar da violência geral, mencionou a cifra de 60 mil mortes por ano no país e a colocou em contraste com a campanha sobre feminicídio.

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Sobre o pacto anunciado pelo governo federal contra o feminicídio, Pimenta disse que a iniciativa integra o mesmo repertório de políticas punitivas e de controle da Internet. Ele afirmou que a campanha se sustenta na ideia de que o Brasil seria o país que mais mata mulheres e citou o dado de aproximadamente 1.500 casos, contrapondo-o ao volume total de mortes violentas. Para ele, o conteúdo do pacto aponta para “educação das crianças”, mas, na prática, teria como desfecho “mais censura da Internet”. “Esse que é o grande negócio do feminicídio: mais censura”, declarou.

Na avaliação apresentada, “todas as campanhas levam a um único lugar: mais prisões, mais repressão, mais censura”. Pimenta disse que a “mentalidade de extrema direita” se espalhou por setores da classe média conservadora e também por segmentos liberais e identitários, e atribuiu a episódios recentes, como a chamada “lei Felca”, um papel na escalada de restrições que começou nas escolas e chegou às universidades.

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Crise do capitalismo e repressão contra trabalhadores

Pimenta vinculou a escalada de proibições e medidas punitivas à crise do capitalismo e ao que descreveu como preparação da burguesia para conter revoltas sociais. Ele afirmou que a censura costuma ser apresentada com justificativas “boas”, como proteção de crianças, combate a crimes e outras bandeiras, mas teria função de colocar a população “na defensiva” e criar uma barreira ideológica contra protestos. Caso essa barreira fosse ultrapassada, disse, a burguesia recorreria à repressão aberta e à extrema direita para “botar ordem na casa”.

O dirigente também afirmou que a repressão ao movimento operário já está em andamento, ainda que nem sempre apareça de forma explícita. Como exemplo, citou o caso dos trabalhadores dos Correios e uma decisão do Tribunal Superior do Trabalho (TST) que limitou a greve, autorizando a paralisação de apenas 20% do efetivo. Também mencionou episódio de greve metalúrgica no Paraná, em que, conforme relatou, a polícia agrediu o presidente do sindicato.

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Venezuela, Lula e o ‘olho do furacão’ eleitoral

No tema latino-americano, Pimenta criticou declaração do governo Lula sobre a Venezuela, na qual, segundo ele, o presidente afirmou que discutiria com Donald Trump o “bem-estar da população” venezuelana sem priorizar a questão da libertação de Nicolás Maduro. Pimenta questionou a pertinência do tema com o presidente norte-americano e disse que, sem colocar o bloqueio econômico como ponto central, o debate não teria sentido. Para ele, a recusa em tratar Maduro “já não é capitulação, já é uma política deliberadamente reacionária”.

O programa também abordou o cenário eleitoral brasileiro e a situação do governo Lula. Pimenta disse que o Planalto estaria “no olho do furacão”, diante de duas frentes que chamou de “bombas atômicas” políticas: o escândalo do INSS, com acusações envolvendo familiares do presidente, e o pedido de CPI do Banco Master, que ele afirmou atingir também setores do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele observou que, em disputas desse tipo, “a política não funciona assim na base do inocente ou culpado”, e que o ritmo da campanha pode produzir efeitos antes de qualquer apuração conclusiva.

Ainda nesse quadro, Pimenta afirmou ter chamado sua atenção a sinalização de que o PT não referendaria, no congresso partidário, a pré-candidatura de Lula. Ele disse não ver motivo para isso e apontou a decisão como indício de que “existe a possibilidade de que o Lula não seja candidato”, hipótese que, em sua leitura, abriria espaço para uma “terceira via” apresentada como democrática e antibolsonarista. Ele acrescentou que, em certas condições, o PT poderia apoiar uma alternativa desse tipo.

Correios, privatizações e a saída pela mobilização

Ao tratar das pressões econômicas, Pimenta disse que a burguesia exigirá um programa neoliberal mais duro do próximo governo e que o governo atual já estaria cedendo. Ele citou o caso dos Correios e afirmou que uma decisão monocrática do ministro Alexandre de Moraes teria derrubado determinação do TST que mantinha cláusulas de acordo coletivo, como o chamado Vale-Peru. Ele criticou a defesa feita em editorial pelo Estado de S. Paulo e perguntou por que os trabalhadores deveriam pagar pela situação financeira da empresa. Na análise apresentada, o caminho apontaria para privatização direta ou para redução progressiva do serviço público até sua substituição por operadores privados.

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Pimenta relembrou que o governo Lula fez 150 concessões e que o rumo privatista, associado à política fiscal e à dívida pública, indica limites do reformismo. Para ele, a disputa central não é escolher “mal menor” em 2026, mas responder se as eleições, por si, podem oferecer saída para a crise social e para a agenda neoliberal. A conclusão apresentada foi que não, e que a resistência exige “mobilização popular” para enfrentar privatizações, a dívida pública e impostos sobre consumo. “Se nós quisermos botar um freio ao ataque neoliberal que está sendo preparado, isso tem que ser feito através da mobilização popular. É o único caminho”, afirmou.

Assista ao programa na íntegra no link abaixo:

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